Amorokê na vila - Capítulo 002

A quem desejam arruinar, os deuses primeiro enlouquecem.
Eurípedes (da edição em 10 volumes publicada em Pádua em 1743-53).

Lembro que estava, ou pensava estar, inspirado ontem à noite a caminho aqui do buteco do Lacerda, que frequento todas as tardes e noites para uns uísques combinados a steinhäger bem gelado. Me ajuda a arrefecer as chamas amarelas do fogo. Quando estou apaixonado sou uma esponja. As chamas se azulam, o fogo vira incêndio, só mesmo um aluvião etílico para a minha alma não evaporar em fuligem.
Estava sentado sozinho na minha mesa no canto mais afastado da área externa quando o tal Fred apareceu.
Digo “minha” porque venho ao Lacerda há anos, já fiz por merecer uma mesa cativa.
Me apego facilmente às coisas. Como me apego facilmente às coisas, raramente me desfaço de algo ou alguém que por alguma insondável razão passe por esta minha vida besta.
Lembro também que, assim que me instalei, o Lacerda veio silencioso e depositou discretamente um copinho de stein sobre a mesa, sem produzir um estalido. Embora o buteco seja um chiqueiro, com pilhas de caixas de cerveja apoiadas contra as paredes, chão pegajoso em que sinto as solas dos sapatos grudar, balcão asqueroso, o Lacerda enverga uma figura asseada, quase digna, beirando, nas noites mais movimentadas, o solene. Nem mesmo o pano imundo e permanentemente úmido que sempre traz jogado sobre o ombro esquerdo feito um loro moribundo é suficiente para causar repulsa nos fregueses. Até que combina com seu semblante de cafuzo esclarecido. Além disso, o Lacerda é de um profissionalismo no trato com a clientela que me emociona. Se daria bem como um desses garçons empolados dos restaurantes chiques de Sampa que gostam de nos intimidar — bem, a mim ao menos intimidam, assustadiço e ansioso que sou — com seu ar nobiliárquico como se vivessem em eterna câmara-lenta. Certa vez perguntei ao Lacerda por que ele não arrumava uma boca no Bassi ou no Bracia Parrilla. Ele se limitou a dar de ombros, desdenhando das casas internacionais e mumunhando, mais para si mesmo do que para mim, que seu buteco era uma pocilga mas ele era feliz assim. Então daí passei a nutrir um respeito sincero pelo cara. Homens autênticos são avis rara no mercado. E não posso deixar de mencionar o bife com cebola desta joça, o melhor do bairro. Sempre que possível — quando não me vejo forçado a levar um cliente do interior para conhecer a noite paulistana —, venho aqui me empanturrar de uísque e stein entremeados de bife com cebola. Como se fosse pouco, o Lacerda tem uma erudição invejável para um homem semiletrado que não concluiu o primeiro grau. Quando não termino a noite desmaiado nesta minha mesa, varamos a madrugada engajados num papo animado sobre Kafka, Pessoa, Brecht, Pavese e outros cobras. Só que nos últimos tempos ele está deixando que meus elogios lhe subam à cabeça — não larga Der Damon und Fraulein Prym, que lê ciscando enquanto atende um freguês e outro e que deixa guardado numa estantezinha diante da privada no banheiro. Quando bebe além da conta, vem sentar-se à minha mesa e desata a recitar trechos. Em alemão piauiense.
– Que é que você acha do sotaque? — pergunta, me fitando ansioso por um parecer. Até hoje não sei que resposta lhe dou, pois em geral estou completamente ébrio a essa altura. Mas deduzo que seja uma resposta animadora, caso contrário ele já teria desistido há muito tempo de perguntar.
Então o Lacerda me serviu e, como sempre faz, se afastou c'uma mesura — ligeira e sutil de modo a não caracterizar deferência. Me vendo sozinho com as minhas mágoas, empunhei o copinho de stein e com a outra mão apoiei o queixo para a cabeça não pender demasiadamente. Senão amanhã acordo com torcicolo.

A última coisa que lembro é que à minha frente na mesa estava sentado um rapaz, que imagino fosse o tal Fred, e que ele me entregou um envelope branco, que apanhei às apalpadelas para aquilatar o volume. Era polpudo.