Amorokê na vila - Capítulo 006

Tento me limitar às minhas impressões.
Wil Vaccari

Antes de me “aprofundar” nas peripécias que vivo neste meu estranho mundo e de falar dos personagens que o habitam, gostaria de me apresentar formalmente. Não topo muito esses romances por aí em que as gentes vão entrando de supetão e saindo de fininho, deixando o pobre leitor mais perdido que o Borges em salão de cabeleireira.
Meus conhecidos são pessoas humildes e obedientes: caipiras, devedores, doceiras,  jogadoras de game da lan-house no outro quarteirão, balconistas da farmácia ali na esquina, as atendentes da casa lotérica em frente. Não conheço caçadores, escritores ou gente que aplique na bolsa.
Em poucas palavras, sou mais ou menos assim.
Minhas pernas são inquietas, meus pés, desorientados, minhas mãos, ansiosas pelos relevos e depressões do corpo de Sílvia. Busco fatos, não abstrações obscuras. Torço para que uma ventania venha dissipar a fumaça e me dê a graça de driblar a boca do poço escorregadio pelo menos mais um dia. Quando mergulhar, não terei forças para me safar da água fria e turva. Posso sentir o sufoco que antecede o afogamento. Será conveniente gritar por socorro? Não quero alarmar os que me cercam. Sílvia não pode me ver assim. Não depois de todas as noites em que cobri cada centímetro de seu corpo com os mais doces beijos de que fui capaz.
Cuspo um sorvo da água râncida. Provavelmente não terei saúde suficiente para a empreitada. Fim. Meu cadáver enrijece. Devo fazer pelo menos uma tentativa. Vaga, espasmódica que seja.
Todas as pessoas que conheço têm algo em comum: a paixão que a elas devotei. Por umas, avassaladora. Por outras, tíbia.
Minha passagem tem sido tudo menos chata. Desde a noite imemorial em que meu pai fertilizou minha mãe para ir embora no dia seguinte. Minha mãe foi uma mulher bela e acolhedora. Seu único divertimento era pegar um bronzeado tropical dormitando entre um córrego de esgoto e outro nas areias da Praia Grande, onde se conheceram. Por que geraram este meu sangue conspurcado e esta minha carne excessivamente macia,  jamais disposta às empreitadas que me couberam, não sei. Fui expelido apalermado ao mundo e em apalermada estátua me empedrei.
Cumpre mencionar que meu pai não me deixou herança fora a labirintite permanente e a desventurança características da estirpe. Também não herdei o tirocínio de aceitar pacificamente que sou um deserdado. Se aceitasse, teria fugido das peripécias que engendrei para fazer cumprir meu direito a recebê-la e me poupado das enrascadas em que tais peripécias infalivelmente me enfiaram.
Dentre todos que conheço, Fred é o mais inevitável. E, como você notará, trágico. Não fosse, seria impossível admirá-lo ou conviver com ele. Fred tem a magreza obscena dum prisioneiro de Auschwitz. Você vai dizer que sou frívolo, mas invejo os que padeceram diretamente o holocausto. Pelo menos têm uma razão concreta para a angústia que os devora.
A cabeça tomba para trás, flexionando a nuca, alterando o campo de visão dos olhos, que se fecham. Os dedos dançam frenéticos. Não, me recuso. Tentarei me restringir ao estritamente necessário.
Meu rosto? É soporífero e meloso e, portanto, gorducho. Meu olhar? Estéril. Minha mente? Inundada da figura da Sílvia dos dias em que ela me chamava de benzinho.
Eu? Um rato fascinado por incêndios, embalado por vagarosos, pesados vagalhões que sobem do passado assim do nada, atormentado por uma coceirinha na virilha, que os dedos se negam a atender. Meus artelhos? Meus artelhos se retorcem impacientes, um pé pousa indeciso sobre o outro. Meus pensamentos? Caóticos. Minhas palavras? Sem razão. Meus padecimentos? Atrozes e infrutíferos, apenas sinônimos de atrocidades.
Meu mundo? Habitado por um advogado, um matador, um dono de bar, Soninha,  fornicadora competente determinada a erradicar a brochice que resultou dos meus relacionamentos com outras mulheres. Soninha diz que é este o único mal de que sofro e que ela é meu remédio.
Irmãos? Resistirei à tentação de falar deles.
Coceirinha. A mão direita desliza de mansinho sobre o brim azul desbotado da calça, os quadris sacolejam um átimo erguendo a bunda do assento, a mão solerte coça sem que o cérebro se dê conta.
Metas? Ressuscitar minha língua que jaz morta e lutar para que meus ouvidos não ensurdeçam sob a conversa fiada e meus olhos não se convertam em meros espelhos estéreis.
Desejos? Que as mãos de Sílvia pousem cada qual sobre um dos meus ombros, como sempre leves, não intrusivas, e sua voz sussurre perto da minha orelha esquerda, nunca mais vou te deixar, eu te amo.
Pretensão? Ser um paladino contra a mentira.
Tiques? Tolos esbravejos ocasionais.
Dúvida? Mon amour, que vou fazer neste apartamento sozinho comigo mesmo?
Esperança? Que a campainha do telefone toque, dissipando este amontoado de sombras sobrepostas a sombras.
Que minha paciência não acabe.
Cenário? Estamos trepando. Trepando vendo tevê. Eu, pensando. Ela, trepando. Cada qual com seus motivos particulares. Meus golpes são evasivos, não há como equipará-los às acrobacias dela.
Música preferida? A day in the lie.
Minha cabeça tomba, meus olhos olham para trás tentando enxergar seu rosto, a labirintite prontamente desencadeia a dança das paredes. Sílvia se dilui na névoa, se funde a Soninha, vulto cinzento rindo sem rosto.
Talvez fosse melhor se tudo tivesse sido diferente. Essa tua insuportável mania de não responder quando digo que te amo.

Eu sou eu. Só me resta cumprir meu papel.