Amorokê na vila - Capítulo 011

O homem é um animal em eterno cio; a mulher só entra no cio quando ama 
Antonio Fraga

Estou ávido por contar tudo sobre mim e os que conheço, queria acabar logo com essa ansiedade torturante, mas hoje me deu uma preguiça braba logo cedo, digo, não tão cedo, acordei quase meio-dia, por mim ficaria o resto da vida na cama, mas tenho de trabalhar, não estou com a vida feita mas tenho onde cair morto, não lembro se já disse, sou advogado, não dá pra acreditar, né? pode não parecer mas gosto do que faço, desde menino já vi que tinha vocação pra causídico e esta minha facilidade com as palavras ajuda pacas, leio uma vez e pronto, posso decorar um compêndio de direito na primeira, tenho o código civil na ponta da língua, nem sei ao certo por que foi me dar esse ímpeto desembuchante agora, não, não é compulsão confessional, talvez só esteja pressentindo que não terei tempo, sou normal, também quero deixar algum vestígio da minha passagem por aqui, custei mas aprendi que não posso fugir desses sentimentos básicos, até pouco tempo me soava tão cafona, de repente começou a fazer sentido e vi que grande parte do que sofri foi à toa, podia ter evitado, mas não é mecânica mental que funcione comigo, nunca tive sensibilidade para o padecimento, me comprazia atravessar a dor, às vezes só pra provar a mim mesmo que era capaz, tinha esse horário marcado com o Jorge, meu único cliente, no fórum, de repente essa minha preguiça me invadiu feito a blitz krieg de Adolf pra cima da Polônia, apalpei o outro lado da cama para chamar Soninha, vazio, ela acorda cedo e puxa o carro com receio do pai, grudei os olhos no teto e pensei, é agora que só saio deste quarto em forma de cadáver, o Jorge vai ficar uma arara, não posso perder meu único cliente, a conta no Lacerda tá cada mês mais alta, tenho de fazer um esforço e me mandar pro buteco, não quero esticar as canelas sozinho neste túmulo, então cá estou eu nesta minha mesa no canto mais escuro do salão da frente, dormitando sob a algaravia dos jogaradores de sinuca no outro salão, ficar sóbrio é um desafio que vai se tornando mais e mais penoso a cada dia, alço as sobrancelhas na direção de Soninha atrás do balcão, ela apanha a garrafa e vem apressada e enche meu copo e a seguro pelo braço impedindo que se afaste e engulo num só trago e peço outro e outro e outro e outro e só a deixo ir quando calculo que já entornei o bastante para dinamitar a sobriedade e a algaravia dos sinuqueiros deixar de dominar o resto dos ruídos e as paredes pararem de bailar sob a batuta da minha labirintite e o stein lavar a decepção azeda permanente que me queima a base da língua e esta minha ânsia de falar de mim e do meu mundo e da minha vida finalmente descer pelo ralo entupido dentro da minha cabeça e meus pensamentos assumirem apenas formas dos objetos da minha adoração como garrafas e copos e maços de cigarro e cigarros e isqueiros e bucetas e tetas e não correr mais riscos de criar metáforas idiotas, pois é nesta hora e só nesta hora que entro neste meu estado em que passo a me dar respeito, entornando para algum lugar incógnito o balde cheio de lixo dentro de mim de que não consigo me livrar até um ponto em que posso enfim reconhecer, conscientemente, quero isso, quero aquilo, não vou mais lutar, minha vocação é o cabotinismo, vomitar poesia, falar qual matraca de língua enrolada, lembrar que ainda tenho livros e músicas e autores e compositores favoritos, que antigamente eu... não, não sou neurótico além da conta, nem sou uma anta, sou um leão, um tigre, pra que ficar me explicando assim? se precisa explicar é porque não tem mais jeito, Sô passa atrás de mim e cochicha que quer ir ao shopping depois que fechar, vou, claro, sou capaz de tudo, invencível, e deitarei à sombra duma palmeira que já não há que ela toca em meu benefício, que cazzo, detesto Chico, detesto o esquerdóide infantilizado do Chico, cara descabido, não puxou nada do pai, patife idealista duma figa, são esses cagões mitificadores, simpatizantes do jardim da infância do socialismo, jegues que puxam o carrossel ao contrário do caminho natural da vida os culpados pelas mentiras que perpetuam a ignorância, patife é eco de algum flaubert que não leio faz tanto tempo, preciso me desapaixonar, estou me vendo no antigo escritório de meu pai, ele está tentando me ensinar a atender telefone, me passa uma descompostura atrás da outra, até hoje odeio telefone, falar no telefone, não tenho telefone, preciso deixar de ser tonto, pronto, Sô minha rainha, vem, vamos, vou te comprar umas coisinhas, já te disse, pega um guaraná e vem e senta aí comigo, como fui me engraçar cuma mulherzinha tão estúpida como você? claro, faz parte dos meus pensamentos na medida que não atrapalhe minha vida, meu dia-a-dia, perdão pelo clichê, vai, vai enquanto passo a noite te olhando de mesa em mesa distribuindo cerveja, recolhendo garrafas, esfregando pano com os bebuns te passando a mão na bunda ao que você responde com esse teu riso assanhado e sensual de fêmea sempre pronta para o embate sexual, não vai ser em vão que fiz tantos planos de me enganar, me deixa pensar, preciso de papel e uma caneta, acabei de ter uma ideia genial, não, afasta de mim esse dedo acusador, chega de descompostura, não, não preciso ser mais organizado nem pensar nas consequências nem prestar atenção, tenho de registrar essas três linhazinhas açodadas de alguma forma, vou no banheiro já volto... pronto, nunca estive tão lúcido, não precisa dar se não quiser, não, é uma merda, não, você não é, não, ele que fez tua cabeça, ainda mato esse estrume, te juro, eu mesmo, não, contrato alguém, claro que não tenho coragem, te garanto, ele tá com os dias contados, vem, me dá o bálsamo do teu beijo, epa, preciso do teu carinho, preciso da tua buceta, preciso da tua boca, preciso da tua candura, vai sumir nada, se sumir amanhã seco três, quatro garrafas, o tanto suficiente pra acabar com tudo, e aí? sei, sou dado ao melodramático, mas não é piada, como assim, já deu? inda nem comecei, tem esse sujeito mal-encarado que toda noite joga sinuca aí, estou quase convicto de que ele encara, tudo é questão de preço, porra, sou um cara digno, essa é a grande diferença, você saberia se tivesse um pai digno, o meu era, embora pobretaço, sou um desastre lidando com coisas e pessoas reais, me sinto mais no controle com álcool, né? não é por mal, juro que não acreditei, também não sou poeta, daria pra botar um rachmaninov aí no som? não precisa dizer mais nada, meu amorzinho, eu entendo, por isso quero te proteger, vou mandando bala na retórica, não vou te deixar largada no meio do deserto que ocupa minha cabeça e se estende pra todos os lados até meus horizontes, não, não me xinga assim, sou o cara mais incapaz de conter os sentimentos que conheço, olha, olha bem de leve, é esse aí saindo pela porta, tem pinta ou não tem? tá namorando ele também? melhor ainda, faremos uma dupla nefasta, não, não me deixe sozinho nesta câmara de gás entuchada de fumo de torresmo, lingüiça e bisteca de porco ao som duma dupla sertaneja, não, nada contra sertanejos, deixa teu pai trabalhar um pouco, ele te explora, só mais dois minutinhos, conversa com o sujeito, marca um encontro comigo, não, que isso, e se não for? não posso correr esse risco, não sei cultivar relacionamentos, okay, se a única alternativa é o Chico, então bota o Chico, é, acho que retrato é a melhor dele, não pode forçar, quem tô pensando que sou? que pergunta, vem, dá um beijinho, escondido, fôdasse, porra, se chiar acabo com ele agora mesmo, releva, volta logo, barafunda me percolando a superfície nevrálgica da mente, me apaixonar por uma menina, que frívolo sou, que nome, devo me portar recatadamente e usar minhas palavras com parcimônia, o Lacerda liga a tevê, posso botar chumbinho no rabo-de-galo dele, vou dando o dia por liquidado, não, preciso ter calma, cabeça fria, assistir todo dia o Datena pra ver como os caras que tramam crimes perfeitos quebram a cara, Sô volta correndo, me dá um beijinho de raspão e se dirige apressada para o salão da sinuca, será que já vai falar? quem sabe se preservar não se expõe, nunca soube me preservar, sou um tagarela de merda, tô fudido, canto mais que o sabiá-laranjeira que mora no pé de oliveira no fundo do meu quintal, pô, até que o Chico é bom, mas eu sou mais eu, até me deu vontade de ouvir atrás da porta com a Elis, juro pela milésima vez que nunca mais, vou ficar na minha, me limitar a escrachar o que execro, bêbado feito um irlandês do mato, Sô sai ao lado do tipo mal-encarado e me olha hostil, vai entender, puta que pariu, me prometo me comportar amanhã, que fartura de imagens poéticas, sei também que aqui sozinho vou ficar tanto pior, ela tá certa, só uma louca confiaria em mim, minha rainha, está agora lá fora na calçada abrindo largamente um braço para um táxi, fadiga sentimental, sabiá, desses que os poetas querem imitar quando têm medo de ser entendidos e desmacarados por suas severas leitorinhas que só engolem declarações amorosas dignas do Nobel, ainda sinto na pele os efeitos da sua visceralidade, não vou me conter, não passo duma quimera etílica, que bosta, que recaída, quando escrevo pra mim gosto de um tico de escatologia, sou um cara legal altamente apaixonado por uma fadinha nordestina que conheci sob os auspícios da tragédia e seremos felizes enquanto minha queda por desastres permitir e o álcool encharcar todo o éter até que meu sangue vire biotônico fontoura e se esvaia na escuridão entre as galáxias e se una ao vácuo do firmamento e se aglutine ao Halley ou e a outros cometas que me leve eternamente universo afora, tô pensando em mudar pro Pantanal, o Lacerda sai detrás da porta e seu olhar é de adeus, sou um pêndulo maluco balançando multipolar entre extremos, imbecil, como é que vou inventar uma desculpa esfarrapada assim de supetão? meu raciocínio acabou, sei lá onde está tua filha! mata-me de rir, preciso deixar de ser meu único público, chega de explicação, mein Gott, malhando o fígado 18 horas por dia de domingo a domingo e tudo que me ocorre é que cão que ladra é balela, me esqueçam, Sílvia, sei, tava demorando, queria te dizer que te amo mas quando digo que te amo soa tão insensato, você sempre me lembrando de qual é o meu lugar, a abstração me dá uma sensação horrível de vazio no “coração”, me diz, tem de fazer de conta que não tá nem pensando no assunto, se prepara, essas panorâmicas urbanas me dão uma puta angústia, né? me segurei todos esses dias, presta atenção, obviamente não funciona, não, sim, você deplora minha baba canina, me perdoa a autoimolação afetada, se não quiser mais ficar comigo, pelo menos me dê um sinal de que poderemos nos ver esporadicamente, morro se te perder pra sempre, você tinha razão, não pode viver cum homem que desmaia de bêbado, quando reli de novo tua nota e tua nota era de adeus, as miríades de promessas que fiz e que nunca se cumpriram, só queria dar uma ideia mais ou menos precisa de como sou, veja lá o que fez pra ela, sabe qual foi a última vez que escutei essa? essa joana francesa é a melhor, delirando com meus braços, mas depois que tiver ido não chore, não precisa responder, deixa eu mudar de assunto, bato o pé quando não me dão a atenção que acho que mereço, não, tô apenas procurando me exibir, hoje em dia homem decente é relíquia, vou me comportar, pelo menos consegui manter os olhos abertos sob meus lapsos instintivo-sentimentais, tenho gana de chorar quando olho o céu, sei, as flores que nunca te dei no dia dos namorados, pra mim era só questão de livre arbítrio, você não é a dona do mundo nem a mestre de cerimônias da minha alma de lata enferrujada, não esperava essas mancadas dum cara como eu, pois é, esta minha insensibilidade de poeta, passo dos limites a cada frase que digo, demônia, me leva na tua garupa, prometo ficar na minha, de repente senta diante de mim, na minha mesa, um desconhecido com cara de cão, avançando mais e mais o focinho em direção ao meu rosto.