Amorokê na vila - Capítulo 023

Quer que eu responda? 
Pra escarnecer de novo? 
Vamos lá, escarneça! 
Gosto quando escarnecem de mim. 
Me dá um insight convulsivo, repelente, triunfal e frustrante, que engulo fervendo sem açúcar. 
São estranhas as sensações de que preciso, se quero sobreviver até amanhã cedo. 
Vamos! antes que eu esqueça, perca a vontade, ache melhor não, desista, decida que dar um tiro na cabeça seria mais conveniente. 

Anotação do escritor amigo do tal de Fred

Quando ouço Sílvia me chamar do portão da rua estou terminando um parágrafo que reescrevi umas vinte vezes até esquecer o que estava pensando. Desligo a máquina e vou atender.
Trouxe um presentinho, ela sorri jovial, parada na entrada do jardim, escuto a ode à alegria longínqua tocando de outra dimensão.
Tá vendo? ela escancara o sorriso, eu tenho o poder de abrir um sorriso nesse seu rosto sério.
Sinto minha boca se abrir voluntária num imenso sorriso e os dois rimos.
Tome. Ela enfia a mão numa sacola de shopping que está carregando. Baixa a cabeça pra enxergar, os cabelos lisíssimos castanhos claros deslizam por seu rosto, só a pontinha do nariz fica de fora.
Retira um cartão grande pardo da sacola e me estende. Apanho e olho. É um retrato feito a lápis. Sou eu olhando o horizonte com este meu rosto sério, um retrato a lápis, meu rosto sério.
Sinto a boca abrir ainda mais, será possível? Os traços são amadorísticos. Mas registram quase à perfeição meu arzinho/arzão introspectivo de quem está sempre seriamente zonzo, traços amadorísticos que registram quase à perfeição meu ar introspectivo seriamente zonzo.
Alegria, centelha de imortal chama, filha do Eliseu, ébrio de fogo, minha celeste, teu santuário me deixa invadir, me abriga fraterna sob essas tuas ternas, magnânimas asas.
Nesse instante me lembro vividamente do que estava pensando quando comecei a escrever aquele parágrafo que larguei pela metade. Preciso voltar à máquina e datilografar rápido, sei que não posso deixar o fiozinho evaporar, já passei tantas vezes por isso, depois fica um vazio terrível. Você quer desistir de algo que não sabe bem o que é, desistir não sabe bem de quê.
– Não estou atrapalhando, estou? — Sílvia diz, vendo que continuo imóvel, o olhar fixo no retrato.
Está, penso, está, finjo que digo para mim mesmo, acordando dessa letargia em que minha consciência costuma resvalar de minutos em minutos ao longo do dia. A hipótese de dar essa resposta à pergunta dela alimenta meu humor e sinto meu sorriso se manter. As piadas mais engraçadas são as que você faz com você mesmo.
Claro que não! minha voz diz, claro que não. Fazendo compras? indico a sacola pendurada na mão dela.
Uma brisa leve sopra soerguendo mechas dos cabelos lisíssimos. Nossos sorrisos prosseguem intactos. Só então noto que Sílvia está de óculos escuros. Enormes lentes negras a lhe cobrir totalmente os olhos.
Um milhão de pequeninos cantores de Viena entoam a ode a bordo dum trem aberto que serpeia pelas colinas do Kilimanjaro. No fim da estrada de ferro tem um hospital. No hospital está internado... Serei eu?
Estou indo pra praia. Vim assim de surpresa porque sei que você não vai se programar antes. Topa?
Olho pra rua, o Miata dela está parado diante do meu portão. Conversível. Estranho. Meio esportivo.
Tem um litro de Buchanan's e um balde de gelo no banco traseiro. Ela ri.
Rio junto.
A excursão à praia leva algumas horas, pode levar semanas. Semanas
Assim que chegarmos vamos até as rochas do outro lado do morro?
Estamos nos instalando nos bancos do Miata conversível.
Atrás da casa na praia tem um morro não muito alto que às vezes atravessamos pra atingir o mar do outro lado. É um lugar onírico, com ominosos rochedos de bilhões de anos açoitados por gigantescas, tenebrosas ondas.
O carro mal dá partida me viro para trás, apanho o Buchanan's e duas pedras de gelo, jogo dentro dum copo, fecho os olhos e sorvo, o líquido frio me invade a boca, o esôfago, o estômago, o mundo gira.
Estava quase cancelando a viagem. Meu pai ainda está no hospital, os médicos não descobriram a causa, os exames só ficam prontos na terça, então pensei, por que não dar uma escapadinha pra relaxar?
Trago cheio de consciência o copo aos lábios sorridentes, outra talagada, o uísque seca, só restam duas pedras de gelo em miniatura. Primeiros acordes da mazurca Opus 68. O uísque é efêmero. Pedras de gelo são efêmeras. Estou sentado numa mesa de bar entre deus e o diabo. Ambos vociferam, aparentemente tentando decidir quem me levará. Escuto sem dar importância a qual seria menos ruim pra minha própria pele.
Quando chegamos à casa estou bêbado, não tenho ideia de que lugar é este. Noturno em dó maior, apenas três acordes tocam, noturno em mi maior. Deus, meu garoto, põe o sol maior agora e sou teu.
Venha pra cama, ela me puxa pelo braço.Você precisa dormir.
Quero ir até as rochas, reclamo. Vir à praia sem ir até as rochas não é vir à praia.
Paramos no alto do rochedo maior. Nas sombras do crepúsculo o azulão do mar reverbera num lusco-fusco intrigante, as ondas lá em baixo vêm deslizando silentes até estufarem como que sopradas por pesadelos, desabando espalhafatosas sobre as pedras.
Algo quer me arrastar pra baixo. Tento livrar o braço, Sílvia não deixa, segura mais forte.
Se você cair... ela suplica.
A disputa por mim prossegue aos berros. Estou tranquilo. Estranhamente. Será a paz que antecede a morte?
Olho para ela, tenho certeza de que meu olhar está pesado de agradecimento. Se todos os ventiladores do mundo fossem ligados no mesmo instante pra criar a última tempestade. A entrada do hospital está apinhada de gente, custo a atravessar a multidão. Quando me vejo dentro noto minha camisa rasgada.
Ainda bem que você veio. Meu pai não passa desta noite.
O volume do noturno em sol maior ocupa o vácuo que toma conta do saguão de entrada.
Os últimos três dias foram cruéis. Finalmente está acabando.
Mesmo sob as notas doloridas do noturno ela murmura uma canção a que ele parece dormir sem sobressaltos. De minha parte eu poderia dizer que só me resta observar. Não digo. Me limito a erguer o copo, faço um brinde ao diabo.
Olha o retrato que desenhei. Sílvia mostra um cartão.
Hoje é segunda-feira, logo tudo estará terminado.
Suspiro forte, solto os braços. O macabro mar pisca seus imensos olhos me provocando. Escritores de antanho se intimidavam com a página em branco. Duma coisa tenho certeza: Schiller não conseguia molhar o bico de pena no tinteiro com rapidez suficiente pra registrar o jogo de xadrez alegre angustiado que disputava atônito e mudo consigo mesmo. Deus, obrigado. Sou todo teu, nada mais trago em mim de ambíguo ou irresoluto.
Quando acordar amanhã a primeira coisa que faço é acabar este maldito, este bendito parágrafo. Amanhã começarei uma nova vida, sei. A mão dela treme, um estertor talvez. No retrato na mão dela uma tempestade varre todas as coisas do mundo, as ondas lambem os nossos pés.
Não. Não é nada disso. Desisto. Aperto o botão e desligo a máquina antes de ceder à tentação de recomeçar e reescrever e voltar e voltar. Apanho minha maçã que sempre deixo de reserva no canto da mesa, meu único consolo neste vácuo em que flutuo e me perco. Mordo, dentada possante como as necessárias pra desvirginar a alva tez das maçãs, a casca crepita sob a força dos dentes, o sumo invade minha boca e me anestesia o paladar, meu refúgio neste epílogo a que vim me arrastando.
Alguns pontos de esperança bruxuleiam na página e se apagam num ultimato de que não sei aproveitar as chances que a vida teimosamente me oferece. Ela estava tão jovial, tão jovial, que não me ocorre outra palavra. A alegria tem esse nome porque é fugaz. Telefonei, deixei recado na secretária. Ela não respondeu. Faz mais de uma semana. Só me resta o noturno em mi bemol maior.