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Tucson, Arizona, início dos anos sessenta, a família está reunida na sala de estar ainda sob os efeitos das emanações degustativas da formidável apple pie servida por mamãe após a lauta janta à base de franco frito, purê de batatas, espargos verdes salteados com linguiça e ovos mexidos, cebola e muito toucinho.
De repente Bobbie se dá conta de que há um estranho sentado entre papai e a pequena Jennifer no sofá. Ao contrário do que seria de esperar, Bobbie não se espanta nem se aflige. Então papai, mamãe e a pequena Jennifer olham o estranho e também parecem não se incomodar.
— Cadê o rem? — também repentinamente questiona o rapaz. (Pois era dum rapaz que se tratava.)
— Rem? — devolve a pergunta papai. — Que é isso? (What's that? no original.)
— O remo? Onde está o remo?
— Remo? — confunde-se mamãe. — Por acaso você vai descer o Santa Cruz River de canoa?
— O remote! Cadê the fucking godamm remote?
— Ah! Acho que eu sei! — alegra-se Bobbie. — Devo ter visto debaixo da poltrona de mamãe. — E aponta na respectiva direção.
Meio de má-vontade, papai se levanta pesadamente do sofá e verifica o local indicado por Bobbie.
— Sim! Aqui está. Esta coisa cheia de botões coloridos. É isto?
— É! — O rapaz estranho assente vigorosamente com a cabeça. Apanha o objeto da mão de papai, mira com ele o aparelho de tevê e pressiona um dos botões.
De repente mais uma vez, a sala de estar parece congelar-se pela luz amarelada do aparelho. E todos os presentes parecem cair sob os efeitos das emanações hipnóticas da telinha.
Menos o rapaz, que já não estava mais ali. Ninguém da família se perguntou se o estranho poderia chamar-se Steve Jobs, Bill Gates ou Barbara Walters maquiavelicamente transfigurada na pele e nos trajes dum young man meio insolente, meio alourado.