Amorokê na vila - Capítulo 027

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

Herberto Helder

O homem feliz não sonha, meus olhos se mirando no espelho do Miata analisando o resultado do amadurecimento: cabelo informe, rosto inexpressivo arredondado adiposo brando. Nada se equivale a ter as mãos empunhando um volante, nem o angelical par de tetas de Sílvia quando ainda era capaz de comê-la por trás, a ponta do indicador lhe fornicando a boquinha infante, um anular metido na buceta até o rádio e além. Olhinhos apagados. Molhando bem, depois espetando lenta e resolutamente o cuzinho pregueado, a boca dando marteladas sugantes nos ombros, na nuca, nas bochechas, a língua escarafunchando a orelha lambelambendo a mordiscadas. Queixo diluído. Uma vez meus dentes chegaram perto de arrancar um lóbulo, ela pulou da cama aterrorizada, é só amor, amor, minha boca se desculpou. Cabelo em estado de rendição. Teria me deixado morder até decepar e engolir e sorver disciplinada todo seu sangue, detive-me enchendo os pensamentos da imagem do rostinho desorelhado, assombrando a imaginação com o orifício do ouvido à mostra levando direto ao cérebro indefeso dos maus ruídos do mundo, assim pude conter-me. Rugas intrusas. Depois que comecei a ganhar vagões de grana fui perdendo o tesão por ela e por mulheres em geral, meus olhos não vêem mais graça em quase nada, meus dedos a se comprimir no volante, reduzir a marcha jogando as rpm a dez mil e fazendo o filho da puta gemer angustiado, suplicando mais octanagem, oxigênio, vida, exalando na porca atmosfera deste planeta os venenos do veneno exangue, quem quer a poesia tola que meu advogado registra tão pateticamente em sua velha máquina de escrever?

No banco ao lado meu advogado tem a cara travessa e histriônica e no entanto, putz, séria.
Coisas há na vida que vocês nunca conseguem resolver. O sifão vazando embaixo da pia da cozinha, por exemplo, e exemplo é o que não falta, a praga pinga há anos imemoriais, quando vocês nascem já está vazando, quando meu pai nasceu já vazava, mais ou menos uma vez de dois em dois ou de três em três anos suas mãos dão-se o trabalho de se segurar na borda da pia, esperando enquanto os quadris se flexionam e, num movimento orquestrado com pernas, joelhos e panturrilhas, formar finalmente as cócoras, emitindo o fundo da garganta um gemidinho e os olhos um irresoluto, desacorçoado olhar, se pudessem aliviar tudo que vaza qual um míssil redentor restaurador, Sílvia me azucrinando a orelha, relativamente intacta, que a louça vive úmida e grudenta, Girleide não para de reclamar, você descobre que o purgatório fica embaixo da pia da cozinha, o buraco negro onde o que resta de força para avançar é sugado. Para desgosto, nem meu advogado dá conta do recado, vive forjando desculpas, postergando, tenho gana de parar o Miata incontinenti e pegá-lo pela garganta, vamos resolver a parada da Extratora é já!, desisto.
Minha garganta solta um grunhido. Resumo.
Meu advogado veste impecavelmente um paletó de linho azul escuro, gravata de seda e lenço elegante no bolsinho do peito. Projeta em tudo um olhar sonhador típico de quem é torturado pelos desejos. Vítima de pai brutal, se acha meio inumano. Adolescente, fugiu de casa na primeira oportunidade. Quando fosse mais homem, voltaria com câmaras de televisão e mataria o pai. Alguns anos depois o pai sumira de casa e a mãe fora morar com outro. Nunca mais a viu.
– Ela era um anjo — diz de repente no meio de outro assunto.
Levados pela correnteza, vamos debatendo à beira do afogamento enquanto serpeamos graciosamente pelo curso do rio das faixas da Paulista, o Miata golpeado pelos ventos e navegando cada vez mais longe do Paraíso, sem nunca parar nos faróis vermelhos, as mãos esterçando antes de atingirmos a Consolação.
Uma ambulância vem abrindo caminho atrás. Deixo que passe, acendo os faróis e seguimos na rabeira pela pista dos ônibus. Saio da segunda pista à esquerda, pego a Padre João Manuel e descemos até a Estados Unidos.
– Mas com a minha mulher? — meu advogado se indigna.
Paulistas. Não creem muito no amor.