Amorokê na vila - Capítulo 028


Deus meu! A língua inglesa é uma forma de comunicação! A conversação não é apenas um fogo cruzado em que você manda bala e leva bala! Em que você tem de se agachar para salvar sua vida e mirar para matar! As palavras não são apenas balas e bombas. Não, são presentinhos contendo significados!
Philip Roth

A solidão da ratazana
Scherzando
And far and high I see a patch of sky. Puta que pariu, esse versinho me faz chorar, sou um romântico clínico, não tenho cura. 
É doença de que não se foge. Fugir para onde? Sei de quem fujo. Sei quando fujo. Não sei para onde fugir. 
Não posso fugir de mim mesmo. And far and high I see a patch of sky me carimba no olho da mente o cenho sisudo de Philip Roth me recriminando por ser tão escrachada, despuradorada, lulaticamente infantil. 
Você sabe...
– Vê se cala essa fuckin' mouth. Estou cansado desse choramingo interminável.
Desprendo o olhar da tela, giro o pescoço. Ninguém atrás de mim. Faço força, giro mais. Ali está Philip Roth. 
– Não diga “em pessoa”, you bastard. Em qualquer idioma que seja.
– Não senhor, não digo. Ainda sou dono, embora acabrunhado, dos parcos neurônios sãos que me sobraram. 
Philip exala aquela austeridade de quem guarda dentro do crânio o cérebro mais poderoso de todos nós. De soslaio, tento estudar a expressão dele.
– Jamais me olhe de soslaio, hear me?
Meu olhar volta incontinenti para a tela. Uma onda de desconforto me varre a barriga, o peito, a cabeça, tenho certeza de que minha testa está porejando, que papel ridículo, mein gott.
Aqueles olhos que se estreitam rutilantes de inteligência...
– Posso usar um “e no entanto”? — pergunto sem olhar para ele.
– Desta vez. — Pela visão periférica percebo que ele cruza os braços enquanto fala.
...e no entanto enevoados da angústia de saber que ele também não tem para onde fugir...
– Philip, como é que você prosseguiria daqui? — A possibilidade de despertar um deus do Olimpo não me intimida. Sou poltrão, poltrão refinado, poltrão profissional, poltrão sem tirar nem pôr, sou um poltrão abjeto safado mas não vou perder a oportunidade. Mesmo sabendo que pode ser a última.
Ele se limita a continuar perscrutando, ainda de braços cruzados. Prossigo. 
...acabou se encurralando em si mesmo num dos cantos deste mundo sem cantos, os olhos tarados de dor e fome de apreender...
Ouço um farfalhar de roupa ao meu lado. 
– Sai para lá. Eu continuo. — Com o punho fechado, que, noto, é pintalgado de nódoas sépia, essas pintas que denunciam implacáveis a idade da vítima mais do que qualquer cabelo branco ou pés-de-galinha no canto externo dos olhos e que sempre me causam alguma repulsa de que estou vendo o que não devia estar vendo, com o punho fechado, como que para evitar fazer um contato mais íntimo comigo através da palma da mão, com o punho fechado ele empurra imperativo meu ombro me obrigando a sair da cadeira. Por um segundo me passa pela cabeça a ideia de resistir, sou homem ou ratazana, engulo em seco. É só por um segundo.
– Pode sentar — ofereço, disfarçando a humilhação de abandonar meu cockpit sagrado de piloto-faxineiro das minhas mazelas. Percebo que ele fica desapontado. Esperava alguma reação. Sou uma ratazana.
– Não escrevo sentado, you know — ele faz um ar de profundo desagrado. O mundo o estorva, a vida o estorva, eu o estorvo.
Eu sei. Há anos Philip escreve em pé. Mandou adaptar seu computador e mesas na edícula de sua casa a que chega todos os dias às oito, sem hora para sair.
– Posso segurar o teclado e o monitor, se quiser.
– Okay. Só não balance muito.
...escrutinando o que poucos ou nenhum de nós é capaz de enxergar. Se quisesse, ele poderia simplesmente debochar de todos nós, um deboche silencioso e amargo, um deboche olímpico a contragosto. You know, deboche é arma de tolos. 
Inda há pouco eu via uma saída, a deixava quietinha guardada num dos meus porões imaginários, pensava que bastaria recorrer a ela quando chegasse a hora de fugir. 
A hora é agora. 
Isso foi ainda há pouco, algumas horas, alguns anos, não lembro, percebo com lucidez dolorosamente aguda que era só um truque, um dos muitos que engendrei para me conduzir a mim mesmo a este beco sem saída. 
THE END.
– Assim sem mais nem menos? — me espanto.
– Just like that. 
Tendo recusado o papel de guardião das dores do holocausto, de patrono da incessante diáspora de sua gente, ele tem nos olhos um brilho particular. Não me furto às minhas responsabilidades. 
– Não precisa dizer mais nada. — Ergo a palma da mão para ele, pedindo calma e contemplação. — Vou acabar Operation Shylock amanhã. Embora seja seu livro mais enrolado, você sabe. Não sabe?
Ele não está mais aqui. Saiu tão despercebido quanto como entrou.