Blogando 0002

Acordei na madruga para chupar ameixa, tornei a dormir e quando acordei de novo meu tornozelo esquerdo tinha virado uma bola de bocce. Excesso de ácido úrico. Então me dei conta de que esqueci de tomar meu ziloric ontem à noite. E me ocorreu também que há várias noites não venho tomando meu ziloric. Tenho uma relação de amor e ódio com medicamentos. Meio paranóica. Às vezes acho que atuam mais para me matar do que para me salvar. Não confio em médicos, claro. Quando fazia psicanálise com o dr. G jogamos fora dois meses de conversa fiada sobre essa minha desconfiança. O dr. G é desses psicanalistas que creem indemovivelmente que podem e sabem interpretar tudo que seus analisandos botam pra fora numa sessão. Bullshit, claro. Eu — e mais meia academia mundo afora — não confiaria nem no próprio Freud. Ainda mais o dr. G sendo o psicanalista xucro que é. E fanfarrão. Vive se gabando de conhecer a cabeça humana como ninguém. Mas não tanto quanto Rilke, eu contrapunha, querendo tirar uma e levando uma interpretada abaixo da cintura. (Até hoje nunca conheci quem não apele a golpes baixos na hora do aperto. Se um dia vier a conhecer, ele ou ela será meu heart of gold e então haverei por bem encerrar um dos mil capítulos em aberto na minha vida. (Mas evitarei pensar "agora vamos aos outros 999".)) As duas sessões semanais que fazia com o dr. G custariam hoje, deduzindo-se a inflação, o custo de vida e o suprimento de uísque cujo preço aumentou sensivelmente nos últimos 15 anos, aí por 550 ou 600 contos. Por semana. O que me deixa encafifado. Daonde saía tanta grana assim para eu torrar com o xucro fanfarrão e suas malsucedidas tentativas de me convencer de que minha desconfiança em relação aos médicos tinha origem nas minhas fantasias secretas com o volume do pinto de papai? Na época eu vivia de fazer traduções para montadoras do ABC e não me parece que ganhava substancialmente mais que hoje, quando não teria o mais longínquo poder de compra para fazer nova terapia. Ou vontade. O dr. G de certo interpretaria que então meu faturamento resultava maior exatamente para me permitir ir lavar minha roupa psíquica lá com ele. Circularmente, como gosta de dizer esse tipo de gente. Na época, até que acreditava. (Ou fingia? Putz, não estou bem certo.) Tinha vez que saía do prédio localizado diante da igreja na praça central extremamente comovido com algumas das pitangas que acabara de desencavar atrás daquelas portas instaladas em dupla para evitar que aqueles em espera na recepção não escutassem o esbulho sentimental que comia solto dentro da sala. Entrava no carro e, antes de dar a partida, abria meu bocão de marmanjo deserdado, cantando uma das minhas músicas ou alguma dos Beatles. Fiz várias assim. Algumas esqueci. Hoje não faço mais, nem música, nem terapia. Nem acredito mais tão esperançosamente em Freud, nem me restou um herói que seja para não ficar definitivamente sem crença nenhuma em algo ou alguém. Sei, temos de crer em alguém ou algo. Faz bem à saúde. Nos consola num momento de dor. Mas é, claro, questão de poder, não de querer. Eu nunca levaria meus próprios princípios a extremos tal como fez Christopher Hitchens no leito da morte, debochando dos crentes e aproveitando sua iminente partida rumo ao grande nada para reforçar mais uma vez a si mesmo seu ateísmo. (Para quem não sabe, o grande público dum grande escritor é ele mesmo.) Até uns três ou quatros anos atrás gostava de me chamar intimamente, apenas para consumo interno, de agnóstico. Hoje vejo que era mais por me encantar com a palavrinha do que propriamente por convicção. Hitchens e outros descrentes do seu coturno passam grande parte da vida debruçados sobre um teclado a explicar por que são ateus. Um exagero, de certo. Hoje tudo que tenho a dizer sobre é, não acredito, ponto, parágrafo, travessão. Para minha próxima postagem Blogando 0003 estou pensando em falar sobre as MINHAS impossibilidades. Ainda não sei como começar. (Mas como terminar, sim.) Minhas impossibilidades coleiam em meu cérebro qual incontáveis cascavéis sem cabeça nem rabo. (O que não sei sé bom ou ruim.) Vou ver se até lá logro agarrar pelo pescoço pelo menos uma delas. Hoje não vou terminar de modo dramático. A dor no meu tornozelo é mais forte que meu existencialismo fajuto. Só vou acrescentar que finalmente cometi a suprema heresia de usar meu Cálice Sagrado, meu Santo Graal, para tomar sorverte. E nem era de chocolate. Ah, só mais uma coisinha. Abri o portal da Folha e meus olhos de águia instaneamente localizaram a seguinte notícia : Veja foto de Suri Cruise usando uniforme de escola em NY. Imagino que Suri Cruise seja rebento daquele sujeitinho asqueroso Tom Cruise? (Interrogação para simular aquele efeito dúbio que os americanos costumam dar quando afirmam algo.) Será que achei uma forma de começar a enfrentar MINHAS impossibilidades para Blogando 0003? Ah Folha Amada Salve Salve, que foi que fizeram com você, meu ex-jornalzinho predileto? Te converteram numa Caras, descarada? E aquele monte de crânios que escrevem lá, por que passam batido por essas monstruosidades como se não fosse com eles? O tal de Marcelo Coelho, por exemplo, tão opinioso coisa e tal, sempre metendo o bedelho em tudo, ou o fariseu Dimenstein, o maior fabricante de notícias da parada? Como é possível acreditar em tal jornal au au?

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