Manchete de
hoje na Folha de São Paulo:
Foi achado hoje
às 20:27 o corpo do pretenso poeta (nome omitido em nome do lirismo) à avenida
(endereço omitido em nome da fantasia). Segundo o cabo Josimar, da PM de SP, primeiro
policial a chegar à cena do evento, o cadáver foi encontrado em estado de graça
virado estátua boquiaberta petrificada diante do monitor do computador. Osvaldino,
investigador da perícia técnica, instado a emitir um parecer pelo delegado de
plantão Diógenes (segundo o cabo Josimar, nada a ver com aquele da lanterna
mitológica que dedicou a vida a encontrar um homem honesto), afirmou que no
momento do estertor último o suposto poeta parecia digitar uma linha
em seu computador (por sinal, bem antiquado, notou Osvaldino sem que ninguém
lhe pedisse um parecer a respeito).
O senhor está insinuando
que o morto estava criando um poema quando bateu as botas? indaga uma jovem
que empunhava um microfone comprido e cabeçudo, suscitando uma miríade de
ideias indesejadas nas cabeças maliciosas dos homens presentes.
Não, minha
cara, não estou insinuando. Estou afirmando. Em minha opinião, o último ato
deste que agora jaz em estado de rigor mortis diante de vossos olhos foi escrever
– ou tentar, se me permitem um mínimo de acurácia linguística – um verso em seu
pecê.
O senhor já tem
elementos para determinar o tema ou para quem se destinava tal verso? questionou
Éric Decouty, correspondente do Libération, que passava férias no Brasil e só
por acaso tomara conhecimento do triste acontecimento.
Nada mais a
declarar! interrompe com seu vozeirão de arauto de cemitério e sua habitual
brusquidão, quiçá mesmo com algum tom de raiva e desdém, o delegado Diógenes,
sem se dignar a explicar a razão do azedume.
Aparentemente
intimidados – incluindo o correspondente do periódico francês –, os jornalistas
ampliam a roda que faziam em torno do corpo. Menos Osvaldino, que continua parado no meio da sala, polegar e indicador pressionando o queixo, em pose de
intensa introspecção.
Engraçado,
exclama de repente, mais para si mesmo que para os presentes. Nosso
levantamento preliminar parece demonstrar que esse sujeito aí – e assim dizendo
Osvaldino aponta o dedão para o morto estirado a seus pés – não estava no
Facebook!
Um burburinho
toma conta do ambiente. Escutam-se ohs! ahs! nossas! em diversos diapasões de
vozes femininas e masculinas.
O senhor tem
certeza disso? ousa uma mocinha com aparência de piranha em
cujo crachá é possível ler REVISTA VEJA.
Como disse,
detalhou paciente Osvaldino, tudo ainda é preliminar. Mas não encontramos
nenhum vestígio de perfil pertencente ao defunto.
O alvoroço cresce.
Todos falam ao mesmo tempo com todos. O caso parece de fato
sui generis.
Com licença,
seu técnico – adianta-se um repórter com expressão vivaz e voz firme porém álacre.
– Retomando o tema do verso que o infeliz escrevia na hora da morte, o senhor
por acaso conseguiu estabelecer alguma relação entre o óbito e o tal verso? Seria, por acaso, um alexandrino dissimulado em forma de redondilha?
Olha, não disponho ainda de evidência material ou mesmo substancial. Mas estou absolutamente convicto. Tá na
cara que ele se empolgou em demasia e seu frágil coração de poeta não suportou
a sobrecarga de emoção, entende?
-- Mas ele era
mesmo poeta? -- quer saber a zinha da revista, estudando desconfiada e com olhar
perscrutador o falecido cuja boca permanecia escancarada como se ele houvesse
tentado dizer algo, chamar alguém, pedir socorro um segundo antes do instante
derradeiro.
— É óbvio que não.
Osvaldino cospe uma grossa catarrada de nojo no carpete do escritório do
finado. — Ainda é cedo para afirmar categoricamente, mas para mim não passava
de mais um pilantra metido a vate, incapaz até de manter uma conta no Facebook.
Hoje em dia tá assim ó ó ó ó ó de sujeitos desse tipo perdidos em alfurjas e
cacimbas nesse mundão afora. Vejam, as rugas do rosto sofrido desse homem falam
por si. Estamos diante dum solitário, sem vida própria, sem mulher, sem amigos,
um fulaninho mórbido e infeliz cuja única companhia eram os fantasmas do
passado que tinham invadido sua alma atormentada qual inquilinos sorrateiros.
Seja como for, este é o primeiro caso de um pseudopoeta mal-amado morto bem no
meio dum verso de que tenho notícia. Foi emoção demais, pobre diabo.
— Também pudera
— o repórter francês cresce os olhão pra tela do computador, que ainda está
ligado. — Que versinho mais...
— Shhhh! —
Osvaldino cruza os próprios lábios com um dedo indicador rijo. — Não admitimos
comentários boçais na cena do crime.
Ato contínuo, o
técnico, num gesto brusco, arranca o copo que ainda jaz entre os dedos do
vate recém-extinto, leva-o perto do narigão e cheira.
— Hmmm, genuíno
balla12. Carinha não era nenhum fernando-pessoa mas tinha bom-gosto. Vai um
golinho aí?
Sem esperar a
resposta dos jornalistas, Osvaldino engole o uísque dum só trago.