Da série "Lições que não sei aprender" II

Como meus quase quatro leitores sabem, antigamente tinha amizade cum morto, agora resolvi descolar um vivo pra bater uns papos now and then, só pra variar. Não que ache que seja necessário variar, vocês me conhecem. Variar o quê? Pra quê? De que lado? Pois é. E afinal não só variar é desnecessário – tudo é. (Desnecessário, hehehe. Ando tão alegrinho ultimamente. Será efeito do vivo? Bah, claro que não. Lembro direitinho quando me relacionava com eles, não sentia diferença nenhuma (ou alguma, como quer o Prof Pascoalino Nenhuma Beleza. Professor é assim, acham que tudo obedece a alguma regra, norma ou padrão. Se não obedece é porque a ciência ainda descobriu qual padrão, regra ou norma rege a desgraça. Essa mentalidade mesquinha dos professores advém da necessidade de redução metafísica do homem (e de algumas mulheres). Vocês na certa se lembram doutro dia quando citei Gore (que nome, mon dieu) Vidal, para quem “Carter, engenheiro, foi um dos piores presidentes dos EUA porque se entregava aos detalhes tentando fazer com que fizessem sentido”. Pra variar, na mosca. (Não que variar etc.) Fazer sentido é tudo, ou quase, pra nossa cacholinha oca que não tolera o vácuo. Sofremos da compulsão a explicar, aquele papo quando Nhoghimã escutou uma trovoada pela primeira vez na vida, e no mundo, e já arrumou uma razãozinha básica pro “fenômeno”: eram os deuses. Os deuses estavam brabos. Notem que Nhoghimã já entrou no politeísmo de sola. Podia ter pensado “o deus está brabo”, mas aplicou um coletivo que era pra se irmanar com seus chegados Quncundasida, Orencadelontenho, Ogitoueroitis e Amutaqum e seus primos Civosilivam Itiemom, Mialegho, Paiado e Copasogeresas e sua tia por parte de mãe Crousosivios (tudo bem, parece nome de homem mas há 15 milhões de anos nossos avôs e avós não eram sexistas ainda). O coletivismo é outra compulsão de que sofremos. Não toleramos a solidão. (Quer dizer, só estou usando o majestático porque sou um sujeito educado. De minha parte não só tolero a solidão como não aguento gente por perto.) Daí essa tendência horripilante de nos vermos quase obrigados a imitar tudo, ou quase, que os outros fazem e quase tudo que os outros dizem. Obviamente não vou deixar passar essa sem dar uma das minhas cutucadas nos robozinhos facebookianos. Os robozinhos estão todos lá, palrando o eterno blablablá, clicando no eterno botãozinho, exercendo a glória da vida digital, reagindo exatamente como os programadores do Mark querem que reajam. Ou seja – e aí está o horror –, replicando exatamente a mesma experiência qual um imenso exército de clones destituídos de vida interna própria. Os robozinhos facebookianos escrevem lá umas bobagens ou repetem uma boutade sei lá de quem ou duplicam uma fotinho que viram sei lá onde e assim imaginam que estejam exercitando pelo menos alguma individualidade num ambiente absolutamente impessoal e totalitário. Logicamente, não estão. Se estivessem, a desgraceira viraria uma balbúrdia. A uniformidade é o primeiro quesito para que a porcaria funcione. E lá vão todos se entregar alegremente à robotização. Será que devo fechar aqui aquele parêntese que abri lá encima? Por dias das vúvidas, digo.)
Tinha jurado a mim mesmo não cair de novo nesse assunto do face mas adoro quebrar minhas juras. Na próxima vou prometer e fazer como a Dilma, quebrar esplendorosamente, deliciosamente, magnificamente cada uma das promessas feitas. Pra mim é patente o prazer do monstrengo ao infringir uma norma social importante como essa. Lula nem se fala. O maior orgulho do Lula é ser, e se mostrar descaradamente, um porcalhão. Tenho quase certeza que o boçal só não parte para atitudes extremadas como a escatologia porque seria transgressão inaceitável mesmo para os primários que votam nele. O maior barato de Lula é zombar do país, pisotear os pudores e os pruridos das classes médias. Lula já se declarou aideológico mas não é tão simples assim. Cultiva, cultiva “com carinho”, para usar uma expressão dileta sua, o ódio aos abastados. É um ódio fundamental, que faz parte dele qual um órgão vital, um ódio nascido na primeira infância quando cruzava com os mais afortunados e sacava meio subconscientemente que os dados não lhe tinham sido favoráveis. Provavelmente prometeu a si mesmo – e essa promessa vem cumprindo religiosamente – que nunca perdoaria os bons vivants. Foi ali que decidiu desempenhar o papel de vítima eterna. Isto está estampado naquela carranca amarga que não se desfaz nem quando ele ri. Imagino que muitos de seus eleitores e devotos se identifiquem com ele por aí. Uma das maiores curtições do brasileiro é se vitimizar. Muitos não dão lhufas a conceitos civilizados, ou mesmo sofisticados, como dignidade. Estão se lixando para o mau julgamento que os bons vivants possam fazer deles. Como Lula, são arrogantes mas não altivos. Têm a arrogância característica dos ignorantes e dos broncos. Esta estampa, agora quem a ostenta exemplarmente é Dilma. Dilma e sua rispidez preventiva, rechaçando sumariamente todos os approaches alheios para não acionar a reação errada. Mesmo assim, é o que mais acontece com a pobrezinha. É a pessoa mais perdida que todos os brasileiros vivos teremos conhecido em nossas curtas existências de capachos do poder.
Tinha jurado a mim mesmo não cair de novo nesse assunto etc mas sei que não consigo. Como deve estar patente, me amarro em analisar os psicopatas que nos governam. É uma maneira de me vingar e tentar preservar algo da minha sanidade. Porque, pombas, o sanatório geral ficou ainda mais maluco depois dessa gente no Planalto. E pra falar de política tenho outro blog, vocês sabem. Faço o possível para não misturar um e outro mas está ficando mais e mais difícil – os temas se aproximam, se conjuminam, se embaralham e se confundem, exatamente nessa ordem. Alguém disse que somos o que pensamos?
Tô saindo hoje cedinho com minha bendita Zezeí, de quem minha dependência afetivo-emocional cresce a olhos vistos (isso que dá querer meter banca de lone ranger (ou lobo da estepe pros mais literários), você acaba tratando cachorro feito gente e querendo ser tratado feito cachorro), dou de cara com ele.
Ele quem?
Como expliquei acima, o vivo.
Assim que me avista, o vivo ergue o antebraço e parte pra cima de mim com a mão estendida. Esse vivo é um pouco diferente dos demais porque não se deixa impressionar com esta minha carona francamente inamistosa. Esses são os mais perigosos, claro. Atropelam olimpicamente tua primeira linha de defesa, te obrigando a depender apenas com tua retaguarda. Embora possa não parecer pra vocês aí de longe, tenho uma retaguarda até que bem montada e relativamente robusta, com recursos de procedência reconhecida no mercado e que, dependendo da escaramuça, podem ser empregados em posições e funções improvisadas.
Estendo a mão e aperto. O bestão esmaga meus dedos que nasceram para interpretar Bach. É, ô santo deus amado, desses para quem um aperto de mão másculo não deixa dúvidas quanto ao caráter do sujeito. E eu que, ao acordar, pensei que este dia não seria medonho como todos os precedentes.
Tudo bem? pergunto, logrando dissimular a má-vontade neste meu vozeirão eternamente sonolento.
O filho da puta não responde. Ao invés disso, se agacha para fazer agrados em Zezeí.
Vocês devem manjar o tipo. É daqueles “simpáticos” totalmente voltados para dentro. Tenho quase certeza de que não prestaria atenção em minhas palavras nem se o mandasse tomar no rabo. Pior: seria capaz até de registrar meu insulto e fazer de conta de que nada de anormal havia acontecido. Jesus, tenho autêntico pavor desses.
Fico lá parado no meio da calçada enquanto ele adula Zezeí. Sempre que encontro gente que se põe a paparicar minha cadela me pergunto se há alguma segunda intenção na jogada. Será que na verdade o sujeito quer bajular a mim por vias indiretas? Ou estará simplesmente fazendo média? Se estiver, pra quê? Que vantagem ele acha que posso lhe oferecer? Que é que esses diplomatas natos da vida e seus sorrisinhos obsequiosos querem tanto de mim afinal? Não tenho nada que lhes possa interessar. Sou remediado, ensimesmado, não tenho amigos e muito menos “contatos”, “canais” ou porcaria que o valha, não conheço ninguém em posições estratégicas no mercado, sou apenas um sujeito tentando dar a volta no quarteirão com sua cachorrinha que, aliás, é tão antipática quanto o dono.
Então me ocorre pensar no futuro, fico amargurado, a perspectiva é sombria, esse parece mais vivo que os demais, ai que saudade do morto.