Tédio estranhíssimo

Quero te contar uma mentira, uma que seja tão fantástica, que você acredite e eu também e por um incalculável instante possamos vivê-la como a nossa verdade.
E durante, explorar esta utopia, explorar esta utopia sem medo de que se acabe me deixando sem ter aonde voltar.
Esta noite os escondidos saíram para a luz. Não há ilusão – não vieram buscar congraçamento nem se deixaram demover de que precisam retornar a qualquer custo a seus esconderijos. Estão convictos de que um mero interrogatório jamais será suficiente para ofertarem trégua ao mundo. Sabem que o mundo não dá trégua.
Não esqueci as senhas dos nossos olhares, apenas estou especialmente apto a mentir esta noite.
Vem, me dá a mão. Pela primeira vez deixarás que te guie, pela primeira vez deixarei que te deixes guiar.
Nunca nos vimos, afinal.
Esta mesa, está boa para você? Ou prefere ali perto da janela onde poderemos apreciar a vista? Que morros bucólicos lá longe, veja. Não te dá vontade de magia?
Faça de conta de que não estão aí. Vamos nos sentar aqui e olhar para o outro lado. Enquanto ainda há luz. Enquanto há som ainda.
Quer dizer que está menstruada? Ah como me cativam mulheres capazes de verter sangue espesso e recendente de fluidos e proteínas pelo útero. Podias deixar que te escorresse pelas pernas. Podia sorver uma garrafa inteira desse teu sangue morno e grosso não ardesse esta noite feito a fornalha do inferno.
Vem, conta uma mentira. E te responderei com outra.
Não sei teu nome. Não sei o meu.
Sim, estou acima do peso. Me chamaria de gordo? Sério?
Você me parece tão bem. Que tapeando, nada. Talvez aqui debaixo do queixo, se perdesse esta linha que separa as papadas...
Revendo muamba do Paraguai. E você?
Uau, nunca imaginaria. Faz tempo?
Tenho esse aparelho da Nokia recém-lançado na Europa.
Mais que duas vezes não dá. É, é uma pena.
As batatas grudadinhas, que barato. Morreram afogadas juntas no óleo quente. Putz, não tô aguentando. Gosta com ketchup? Eu adoro.
Prefiro sertanejo raiz. Bem mais autêntico. Melhor que emepebê não tem, não é mesmo?
Tô morrendo de vontade de te dar um beijo. Só limpa a maionese aí no cantinho. Isso.
E se fôssemos morar no Porto? A cidade dos meus sonhos. Sempre quis viver pertinho do mar.
Queria mesmo era morar num país monarquista. A rainha da Grã-Bretanha, quer charme mais divino, reinado mais espetacular?
Sofri muito na escola. Não conseguia me enturmar. Só me dava bem mesmo com o Paulinho. O Paulinho tinha os braços e as pernas atrofiados, tadinho. Era meu companheiro nas aulas de educação física. A gente se defendia um ao outro. Não perdoavam, aqueles animais.
Um Voyage. Verde. E você?
Fox preto? Que legal. Só que o seguro é uma facada, não é não? Pois é, os carros da Volks.
Assim de repente? Que foi que houve? Disse alguma coisa errada? Tem de botar a roupa na máquina a esta hora? Olha lá, o jornal vai começar, e se esperássemos acabar? Vão falar daquele casal do Paraná que matou os quatro filhos. Paga pelo menos as caipirinhas que tomou, né? Legal. A gente se vê qualquer dia. Por aí. Quê isso. Não reparei coisa nenhuma não.
E eu que já tava contando cuma buceta esta noite. Mesmo menstruada. Por que fui falar de música regionalista, porra? Hum, que tetinhas mais tenras, podia ficar chupando a noite toda. Disse que ia no dermatologista logo cedo, vai ver tem problema de pele, eca. Tava até planejando levar ela no zoo sábado à tarde mas sábado à tarde faz curso de orquídea. Nunca imaginei que orquídea precisava de curso. Mais um sem espuma, por favor.