Mariana Vieira

Não entendi porra nenhuma do que disse e esses teus ataques sei lá de quê me deixam cada vez mais intrigado. É isso que é multipolaridade? Então te exalto multipolarmente com meus múltiplos corações.
Tudo se resumia a doçura? Só sei ser doce com quem desprezo, coisa amarga. Tenho medo de ficar diabético. Meu negócio é álcool.
Me desculpa o “soluço” — só pretendia um beijo, o resto saiu sem querer.
Queria roubar tuas senhas, monitorar tua vidazinha, tuas conversas, tuas vontades, tuas expectativas, teus sonhozinhos de gênero inferior, sexo frágil, órfã, mãe solteira, dona de casa, homem da casa. (Que poder de descrição. Vou usar nos meus escritos, se mo permitir.)
Escuta, e se de fato me desse as senhas? Prometo me restringir ao monitoramento, sem causar qualquer interferência no teu dia a dia. Assistiu aquele filme alemão Vida dos outros em que o agente da Stasi, a polícia política da ex-Alemanha Oriental, grampeia o apê dum escritor e no fim passa a proteger o cara e a mulher dele? Te protegeria igual, te alertaria contra os safados mal-intecionados que só querem te tirar proveito. Tenho um puta olho pra esse tipo de gente.
É mesmo, te falei em desvario. Pisei de novo, enxuguei muito além da conta no domingo, vim aqui e escrevi essa bobagem. Não que seja mentira. Mas sei que você não gosta quando falo assim. Lembra quando te chamei de linda e sedutora? Me envergonho até hoje. E, claro, na nossa situação (eu e minha presunção de novo), não deixa de soar cafona.
Quando diz que desistiu de sonhar em virar guerrilheira terrorista, está se referindo àquele texto que te mandei acho que sábado? Puta merda, você enxerga cobrança, crítica, censura em tudo que escrevo. É apenas um poema, minha áspera florzinha de cicuta. Escrevi para mim mesmo e para os meus personagens.
E esse “romantismo” de que fala com tamanho desprezo é apenas para ser sonhado, não vivido, como qualquer outra fantasia. Você bem que podia simplesmente me responder se gostou ou não gostou do que lhe escrevi, sem se colocar como alvo do poema. Nem tudo é indireta ou tem segundas intenções no que te escrevo, diamante bruto.
Pode mandar me fuder quanto quiser, só não me dispense feito um boneco de trapos.


Eu ia esperar três dias pra responder, fazer de conta que não me roí de ânsia de responder na hora (por pouco não cometo essa besteira, ia melar tudo outra vez, não sei como pude me controlar, preciso praticar a parcimônia e a contenção pra provar que estou mais responsável e sóbrio), mostrar que também sou durão quando quero (o que não sou, você sabe, seja quando quero seja quando deixo de querer). Mas você ter baixado um tiquinho a guarda, deixando mesmo escapar um elogiozinho minúsculo sobre as minhas sacadas e gracejos (pode baixar mais um clique no seu controle remoto, prometo manter a compostura, conservar a nitidez, não criar chiado), ter se permitido um lânguido, quase imperceptível vazamento no Grande Dique em que M represa o que sente em relação a (ou o que acha de) mim bastou para derreter minha dureza pretensa e postiça e mal-encenada.
Então, no finzinho de seu email, parece haver algo de um ensaio de rendição e me vejo chamado por Wilson Vaccari e por dentro brado Hooray! Estará a parede de gelo dando sinais — hesitantes, quase que a contra-gosto, mas sinais — de que pode derreter, pelo menos uns milímetros, como a maioria de nós aqui fora que somos suscetíveis às emoções?
Não, não te conheço, não sei absolutamente nada sobre você. E tampouco conheço o que você pretende querer (me) mostrar. Pois, excetuando nos nossos últimos confrontos em que se limitou a dispensar sumariamente meus contatos aparentemente sem maiores considerações, bem como seu penúltimo email, sempre me fez me sentir pisando em areia movediça. Okay, bem sei que fui quase que totalmente responsável pela ambiguidade que nasceu e cresceu e vicejou entre nós (nós? espero não estar abusando da intimidade). Também sei que muito provavelmente teria conseguido me aproximar de você não tivesse agido como o estabanado que sou, com meus arroubos de irritação, impaciência, cabotinismo e pura gabolice porraloca. Imagino que este seja o caminho mais curto para o malogro de alguém que deseja estabelecer vínculos com alguém. Mas, veja, MV, a normalidade que você talvez esperasse de mim estava, e está e sempre esteve, completamente fora do meu alcance.
Acha graça quando falo de sonhos e esperanças. Esperança de que, afinal?
Então lhe digo que tenho muitas grandes esperanças.
Espero poder retraçar e refazer o caminho que um dia iniciei sem querer, por um acaso digital, sem me preocupar com o destino que, à medida que avançava, me dava conta de que valia a pena perseguir, que, avançando mais, percebi que queria alcançar e, avançando ainda mais, vi que me era imprescindível, caminho que, por minha própria imperícia, inépcia, sofreguidão por chegar, me levou ao teu beco sem saída, enigma que preciso desmitificar, humanizar, trazer à esfera terrestre do possível e do natural.
Espero agora estar apto a atentar para o que não vi no trajeto anterior, evitar as armadilhas em que me meti, ser capaz de fazer uso da experiência que posso ter adquirido em nossa lida, poder ser minimamente sensato para extrair das minhas cabeçadas lições que, vejo agora, me seriam úteis.
Espero um dia ser capaz de vencer tua desconfiança, te fazer entender que não desejo, nem nunca desejei, te fazer mal.
Espero um dia que você comece a se esquecer da minha máscara, deixe que se perca no tempo sua primeira concepção de que sou fake, falso, covarde, safado.
Espero que você um dia me chame de Wilson Vaccari sem reservas ou hesitação ou ironia, que sinta ter em mim, senão um amigo, pelo menos alguém digno de ser seu correspondente.
Espero um dia poder voltar a te falar o que de fato sinto e escrever da maneira como de fato escrevo, sem esse medo de gerar ainda mais mal-entendidos, sem estes rodeios de quem quer vender seu peixe, com toda sinceridade e ingenuidade de que preciso mas mesmo assim digno do teu respeito.
P.S. — Depois que li seu email não conseguia parar de rir do spam do tratamento dentário, recebido “meia hora” depois de eu elogiar teu sorriso. Não, até eu afastaria a hipótese de coincidência. Ah, MV, certas coisas parecem acontecer só com você. Será conspiração do universo? Deve ter apagado o spam, claro. Pena. Queria ver. Nem eu imaginaria tamanha piada. Espero que sorria.



Não, suas palavras não soam hostis. Soam firmes. Firmes a ponto de não produzirem eco, não reverberarem meio-tons que a mim pudessem parecer ambíguos. Categóricas para que eu sequer sonhe em duvidar delas. É visível que foram digitadas com a convicção de quem sabe o que quer — e o que não quer.
Mais um vez, depois de outras mil vezes, reafirmam para mim inequivocamente a identidade da remetente e o ânimo com que esta as escreveu. Eu as reconheceria mesmo que seu nome não estivesse afixado ao email. Mesmo que as encontrasse por acidente inscritas num papel tamanho ofício dentro duma garrafa de vinho vazia à beira do mar.
Esse spam do tratamento dentário completo foi mesmo curioso. Mais: engraçado. Mas o tipo de gracejo que eu não faria. Em outras eras, talvez. Não sei. Depois de todos os que fiz, não é de estranhar que pense que fui eu. Da mesma forma que não acreditará quando lhe disser que não fui. Hoje estou mais contido. Embora, estou certo, contenção nunca fará parte de mim. Me exceder é meu brinquedo, meu feijão-com-arroz e minha pizza, se é que posso falar assim sem exceder sua paciência.
Esse spam é tão curioso quanto os telefonemas que você recebeu um dia pensando serem meus, quanto aquele homem que você disse um dia que te perseguia pelas ruas, quanto o medo que disse outro dia que eu te inspirava. Minha única defesa é minha palavra. Que, ao que parece, não te vale de nada.
Você pode ter mudado e provavelmente mudou. Eu, não. Embora raramente seja o mesmo. Por isso reapareço. Você se pergunta “Por que será?” Eu me pergunto, por que não? Não, você não é tão encantadora e inesquecível. Reapareço apenas porque não a esqueço, por mais inesquecível que não seja. De qualquer modo, você tem nas mãos controle total sobre minha morte definitiva e minha ressurreição. Basta um bloqueio em tua caixa postal e eis que se opera o milagre do desaparecimento.
Foi divertido te ler se chamando de idiota. Esse autodeboche em sua boca é novidade para mim. Por soar falso. Não me lembro duma única vez em que tenha soado falsa. Será que mudou a tal ponto?
Foi divertido porque, não sei se ainda se lembra, é uma das minhas manias. Me deu até vontade de te perguntar se por um mero, remoto acaso seria algum tipo de reminiscência daquela imensa gororoba que verti sob sua inspiração. Mas não sou louco clínico, ainda, e não vou perguntar nada.
Sinto um tico de alento quando diz se importar um pouco com a pessoa por trás desta (minha) máscara. Sou mesmo mascarado, não sou?
Não, não é o alento da esperança, pois não espero nada. Afinal haveria de esperar o quê? Vivo a esperar tudo que minha fantasia me promete e nada que minha realidade me reserva. É apenas um alento, sem mais qualificativos.
Não espero nada esperando apenas que a sorte não trame outra vez contra mim armando mais coincidências que aumentem a confusão. Houve um tempo que quis mesmo te confundir. Mas de outros modos e por outros meios pelo mesmo sentimento.
Bom, prezada (se decidir responder, please, não me chame assim), acho que nunca escrevi o que quer que fosse com tanto cuidado. Agora imagino o que seja pisar-em-ovos. Não sei se escrevi o que queria escrever ao tentar escrever o que imaginei que você talvez quisesse ler.
Até.


É claro que não entendi porra nenhuma.  Nem quero. Já te falei que você é minha musa? Não, tenho certeza. E se me viu falar, foi delírio.
Você é a musa mais antimúsica que já nasceu e haverá de nascer neste planeta. Por isso é MINHA musa. E sabe o que é o melhor? O melhor é que é minha musa mesmo que não queira. Pode me bloquear, me ignorar, me esquecer, me apagar, me abafar, espezinhar, esconder, ridicularizar, estrangular, mas não pode se desmusear de mim.
Tenho tudo que te escrevi, as lembranças tuas são minhas.
E sabe o que pode fazer a respeito? Nada.
Você é minha boneca, meu sonho, meu delírio, meu tema, minha palavra. Sou, e serei até quando me der na telha, o Guardador das Tuas Miragens. Conservo, adubo, cultivo tuas miragens em meu campo paradisíaco de miragens e em meu purgatório de tuas miragens mortas. Não quero nem preciso de tuas senhas ou teus dados cadastrais, tua história ou teu mundo. Tenho você inteirinha em mim e com você em mim te amo como preciso, não como você espera ou quer. Amo tua imagem que nunca vi e que se forma diante dos meus olhos, escuto tua voz que nunca escutei e sussurra as mentiras que preciso escutar, aperto tuas mãos que nunca toquei e me fazem a carícia que preciso sentir.
Escrevo por você milhares de parágrafos que nunca vai ler, penso por você milhões de pensamentos que nunca vai saber.
Sou teu independente. O amor que tenho por você é meu e, preste atenção, não há nada que possa fazer para que eu me livre de você.




Diga, como fui capaz de me engraçar c'um ser de nome MV?
Por que não te chamas Juliana Pereira, Tatiana Silva Meira, Rosana Maria Silveira?
Não, sim, tinha de ser MV.
De todas as bilhões de mulheres neste pobre planeta zanzando errático pela Via Láctea.
Tem hora que venho descendo para o escritório, subindo para a casa, fazendo um nescafé, misturando meu uíeisquiu com água de coco, tem hora, penso, putz, porra, por quê?
Uma, ó santa maria, mãe solteira, dona de casa, destituída das maravilhas da Mulher Maravilha, uma, ó cruzes, órfã aos quase quarenta, onde estava eu com minha cabeçorra hipertrofiada?
(Agora pensando, também sou órfão. Mamãe morreu pouco antes do pai de M. Que falta de coincidência. Um belo, famigerado órfão. Preciso do teu colo, estou desesperadamente só, não ria, não brinco, canta para mim uma cantiga de ninar em que mães e pais são eternos.)
De todas as marianas, eis que me encanto por uma zanzando errática pelas avenidas, ruas e vielas, necessitada da minha poesia mas orgulhosa demais para admitir, que chacoalha a cabeça para que eu desapareça qual um pensamento ruim e me pergunta se ainda tenho medo dela me deixando sem saber o que responder.



Longe dos quarenta? Longe quanto?  O suficiente pra se achar órfã.
Quando eu era seu amigo, tinha uns 33, 34, acho. E já agia de acordo com a idade. Sempre agiu de acordo com a idade? Eu, não. O que percebeu de cara, claro. Sou infantilóide. Ainda querendo colo, vê se pode. Sai pra lá, moleque! Seja adulto, responsável, sério, homem. Me cagava de medo quando queria falar comigo no skype. Me dava pânico. Não liga eu estar falando assim, é que você não quer falar de você, é uma pena, só sei falar de você. Aliás falava muito de mim mas você nunca dava feedback, entrava por um olho e saía pelo outro.
Voltando aos 40, não me diga que a imensa MV erigida em rocha, carbono e aço inoxidável, postada na praça da matriz de Goiânia, referência das minhas andanças pelo sertão do planalto central, farol que me traz de volta quando me perco, não me diga que a grande MV se pela de medo da passagem do tempo. Ai que delicinha, terei descoberto teu calcanhar de aquiles? Olha que te chamo de velha. Minha suave coroa. Não se preocupe, vou te visitar no asilo quando chegar a hora. A velhice, a morte, esses aborrecimentos parecem tão distantes, né? Mas M Maravilha ainda resistirá bem uns 20 anos antes de começar a degenerar a olhos vistos, espiando de longe o deleite de ser jovem, bonita, gostosa e desejável. Eu já estou há algum tempo. Mais precisamente, desde meus 35, 36, quando comecei a manerar na manguaça, no fumo e nas paixões. Os dois primeiros não fazem tanto mal quanto as terceiras. Pelas minhas paixões bebo e fumo e outras desgraças (ou bálsamos, dependendo do ponto de vista; que obviamente não são os de quem pratica iôôôôga e dá pernadas contra o ar que não lhe fez nada de ruim).
Voltando a você, diga, se apaixona? Digo, meio desvairadamente? Eu, sim. Desvairadamente. Outro dia respondeu “não, nunca falamos desse assunto”. Não entendi, pra variar. Pode nunca ter falado, ao mau passo que eu não falo de outra coisa. Pena que naquela época descambei pros meus arroubos etílicos sifílicos e perdemos a sincronia. Eu era inexperiente no meu grande tema MV. Ainda sou, evidentemente. Meu, você é uma efígie, cercada de enigmas, uma efígie esperta que me obriga a anos de elucidação, rindo da minha bisonhice de moleque ingênuo.
Voltando, até os 50 enfrentei firme a caminhada rumo ao fim. Bom, pra falar a verdade, desde meu primeiro aninho. Não tenho medo do fim, por isso não me preparo para ele nem vejo sentido em. E não quero ficar velho gagá enxugando 20 comprimidos diferentes todo dia ao invés de enxugar 3/4 quartos duma garrafa diária de uísqueíou, o maior anestésico que a medicina já inventou.
Tenho um cárdio, o dr. E. Dr. E. caiu da cadeira outro dia quando lhe disse que estou fumando 2 maços e chupando uma garrafa por dia. E que parei de tomar as porcarias que ele me prescreve.
Me mandou subir na balança, 105 kg. Pros meus 1,57 de altura (já tive 1,59 mas, cê sabe, a gente vai encurtando à medida que a vida se encomprida), preciso emagrecer 20, hehehe. Sabe quando, doutor? Parei uns meses quando mamãe foi pro saco e caí numa depressão diabólica. Quase me matei. Médico de tudo que é especialidade, remédio de tudo que é tipo. Voltei a mamar e voltei à vida. Agora quero que fôdasse.
Voltando a quem sou quem digo ser. Sim, sou. Quer uma cópia do meu RG, envio mas prometa não me mandar enfiar no meio do cu como fez aquela vez. Não, minha idade não condiz com minha conduta. Nada em mim condiz com porra nenhuma em mim. Meu tempo é outro, meu dia é outro, eu sou outro.
Puta merda, bebe um golinho por mim quando tomar seu bourbon com duas pedras de gelo. Que vontade de estar em Goiânia. Deve ser uma cidade sacal. Teria de duplicar minha dose etílica pra suportar. A menos que tivesse você ao meu lado. Então, triplicaria, bitriquatrilificaria. Qual é o nome do buteco onde você toma suas duas pedras de gelo? O meu é “Buteco do Lacerda”, aqui na esquina de casa, antro entupido de pinguços rasteiros, peões de obra, pintores de parede, funileiros, impossibilitados das alturas como este pinguço que vos fala.
Well, dona, poderia ficar horas espargindo essa minha torrente até entupir sua pobre caixa de email, igualzinho fazia na tua página de scraps. Gosh, bons tempos aqueles. Lembra quando aquele teu amigo Pyter encrespou comigo? Que salafrariozinho automarketero da porra. Fiquei com gana de encher ele de porrada, se pudesse. “Sedutor” bom de lábia engabelando as marianinhas à deriva online.
Não faça isso. Uísque com água de coco é uma porcaria. Só disse pra fazer charme. Sempre tomo puro. Sou puro. Tô guardando meu cabacinho pra você. Misturar pode. Relaxa (onde alguém já me disse?) e mistura nossas cabeças. Não vai explodir.
Falo muito de você, não vou mais. O estádio aí já ficou pronto pra copa? Vai nos jogos? Faz um cartaz pra aparecer na tevê dizendo que me ama. Em nome da minha fantasia. MARIANA AMA WILSON VACCARI, assim, na tela da Globo. Uma mentira fundamental alardeada pra todo universo, que barato, já pensou?
Vou botar uma foto de um homem de verdade aqui pra você ter um parâmetro para os seus conceitos e matar sua curiosidade com três pontinhos.
Pensa na ressaca amanhã. Cuidado com o excesso de gelo, faz mal pra faringe. Toma aquele golinho que pedi.



Oi com ponto de exclamação e tudo? Será que vislumbro pro meu lado uma fugaz faísca de ânimo no lugar da nossa velha e querida animosidade?
Num é batatinha te trabalhar. (Que ecos fudidos, esses. De ora em diante serei 'lson Ari, cum ele quase mudo no início.) Um dia, de tanto encher o saco da bela acordada espertíssima Ana Eira, eis que 'lson Ari enfim descola algumas poucas palavras de boa-vontade da donzela. A única contra-indicação de tamanha demonstração desse pequeno afeto é que 'lson Ari, eterno entusiasta da paixão teórica, reage como todo entusiasta e, claro, se entusiasma e já quer se esparramar como se a fina garoa tivesse criado um pantanal a perder de vista.
So take it easy, my little poor Ari. Limite-se a seus tolos devaneios.
Ofensas, você disse? Quais? Te chamar de bruxilda? Talvez você saia ganhadora nesse quesito.
Não tem o menor problema com a idade mas se sente insegura com a desembelezamento etário? Até eu que sou macho, carrancudo e feio e me considero relativamente (e orgulhosamente) acima dessas ninharias humanas, tenho, meu suave cataclismo de esperança.
E, deveras, você é mais que esperta. Qual mulher bonita não é? Digo, no sentido de ter o controle nas negociações sexuais? Umas usam o recurso mais, outras, menos. Você provavelmente pertence à segunda. Mas sabe, e bem, que não há homem que não se disponha a ajoelhar ante um rostinho de boneca e muitos até rastejam qual vermes esperando ansiosos por um afago indiferente que seja (estarei incluído na segunda categoria?). Duvido que não tenha se valido, com maior ou menor frequência, de sua beleza para exercer algum poder sobre os homens com quem se relaciona.  O homem (comum) sempre está por baixo na ciranda dos relacionamentos, como qualquer outro macho do reino animal. O pavão-macho quando quer a fêmea estufa o peitão e empluma o penacho e dança feito idiota. O homem, pra seduzir uma mulher, enriquece, ou tenta, e compra um carrão e frita os pneus no asfalto diante da pretendida feito idiota. E idiotas feito eu fazem poeminhas ordinários na esperança de que a fêmea, por um milagre, esqueça por um minuto o impulso de gerar uma saudável e salubre prole cum belo garanhão e se encante pelo orangotango cujas únicas qualidades são os neurônios retorcidos.
Não, não teria me interessado por você se fosse feia. Também faço parte do jogo. Talvez me interessasse se você fosse uma poeta brilhante ou que tal. Mas até aí mulheres de intelecto super são tão chatas quanto eu. E, horror, sempre feministas, políticas, engajadas em alguma missão redentora em prol do gênero, leem Virginia Woolf não porque esta é artista e sim por ser mulher. O homem, por razões diversas, é mais universal nesse sentido. Digo, o homem inteligente.
Me deixei seduzir quando a mulher de costas na fotinho me chamou de fake em letronas maiúsculas (tirânica memória) e prosseguiu com seus passinhos resolutos pela viela de M. (Embora, me perdoe, tenha achado a brincadeira tão pobrezinha.)
“A vida perde 75% da graça se eu não estiver apaixonada” é ótimo. Eu também curto me etiquetar assim com números mais ou menos redondos. A vida fica 75% mais simples e pode ser aquilatada, ou pensamos que, por uma grandeza aritmética. Como eu, você gosta de brincar de controladora racional das misérias que nos perdem.
Agora, claro, digo que amo desvairadamente porque só amo hipoteticamente e, todos sabemos, a prática na teoria etc.
Na vida real só dá pra se entregar a desvarios quando se é adolescente. Cultivo minhas paixões de moleque como se tivessem acontecido ontem e se mantêm tão frescas quanto. Não assimilei legal o amadurecimento. Resisti. Me recusei, até onde me foi possível. Meu corpo está indo mas EU vou ficando. Minha adolescência foi apaixonante demais, me embriagando pelo resto dos meus dias. Realizei milhões de proezas dentro da minha cabeça. Neurótico? Imaturo? Fôdasse. Meu filho diz que me resguardo demais do “mundo real”. Thank god nenhum dos dois herdou a porra-louquice de papai. Bebo, entre outras coisas, tentando manter intacto meu ideal passado. Absurdamente nostálgico, não é? Sei que soa meio freak para uma mãe solteira órfã do sexo frágil. Por milhões de razões não tive alternativa ou tenho agora. Repito, não tive opções. Como a maioria de nós não tem. Até aí me acho um cara honesto. Procuro honrar o que eu mesmo espero de mim. Vamos sobrevivendo com os parcos recursos que a natureza nos deu. Alguns eleitos estão acima da carniça. Sorte deles.
Que bom que não se enojou com minha carranca. Nessa foto tinha acabado de podar a barba de rasputim. Pena, gosto de me apresentar peludo feito lobisomem. Sou uma fera, moça. Agora, minha fuça combinar comigo, não. Nada combina comigo, nem minha cara nem eu mesmo.
Beijo, você disse? Que promiscuidade. Nunca beijo. Troquei raríssimos beijos em minha esdrúxula existência. Contato físico, intimidades, tudo isso é tão violento.
Queria dizer que te amo mas não vou. Soa tão supérfluo.
Beijo.



Tens um modo diferente de ver as coisas?
Não me lembro de te ter pedido que se unisse a mim em minha visão de mundo.
Mas posso até ter pedido. Não faço muita questão de controlar o que digo aos outros. Controle, só na minha escrita. Também não tenho problemas em reconhecer que às vezes digo besteiras. Sei que as despejo às toneladas.
Quando te disse enigmática, na verdade queria te dizer dissimulada. Na maioria das vezes me pareces preocupada mais em criar frases de efeito do que abrir o que pensa.
Quero crer que isso seja um cacoete que se adquire participando ativamente desses fóruns de relacionamento em que o importante é não a palavra mas o barato de se ver em conexão permanente, acrítica, narcisicamente gratificante. A palavra aí é quase secundária, torna-se apenas um veículo, aliás, como em qualquer situação mais corriqueira.
Como escritor tenho imenso pudor em relegar a palavra a outro plano que não seja o primeiro. Pra mim é sagrada. Odeio vê-la espezinhada à tortura em cada linha que se produz na internet.
Como escritor me acostumei a sempre dizer o que penso. Não sei cumprir esses estranhos rituais em voga por aí nos fóruns. Não sei fazer rs rsrs hehe haha e salamaleques que tais.
E há anos já me toquei que eu e o mundo da conectividade absoluta somos incompatíveis. Minha franqueza e meus diretos são rudes demais para aqueles que só tão a fim de trocar cócegas.
Te insultei falando em bucetinha? Sorry. Era o que tava a fim de falar na hora. E se continuarmos “amigos”, certamente ainda irei proferir muitas barbaridades que para essa etiqueta pueril que domina os relacionamentos virtuais são inadmissíveis.
Não é à toa que praticamente não tenha amigos, sejam digitais ou reais.