Também quero ser presidente

Depois da Santa Constituição de 1988 viramos o país dos direitos. Todos os temos. Você, zebedeu, até eu. Deveres, os têm os outros (que somos nós em geral). Carinha entrou pra máquina, tá garantido pro resto de sua boa vida. E com direito a greve (que já faz logo no primeiro ano de emprego, por maiores salários e benefícios. E depois todos os anos). Se um de nós escravos fazemos cara feia, um juiz sempre de prontidão depressinha enfia o código penal na tua fuça, te ameaçando com cadeia se você não parar de incomodar os patrões.  O mais importante: emprego vitalício. Você pode não acreditar. Mas é verdade. E tem um exército de pensadores do sistema político prontos pra te ensinar por que funcionário público tem de ter emprego vitalício. Você concorda, lalarila-ri-rá. Ai de ti se não. Eles têm a proteção de todos os políticos, inclusive aqueles que se elegem prometendo que vão te ajudar a se safar do governo. E dos sindicatos e das corporações em geral, para os quais os políticos trabalham. Etc.
Se eu fosse presidente da República um só dia, punha toda essa gente na roça. (Até eu mesmo poderia dar uma mãozinha na horta de vez em quando pra colher uns pés de couve pra feijoada.) Chamava o jornacional e conclamava o povo: vamos deixar de frescura, minha gente. O Berção tá caidaço e precisa de trabalho. Tem uns cem milhões lá fora muito longe de qualquer coisa que lembre mesmo remotamente civilização. Vamos dar duro. Os direitos a gente vê depois.
Os primeiros a pegar na enxada seriam os professores. Nada de trigonometria pra bugrada. Primeiro vamos aprender a ganhar o pão de cada dia. A saber qual é essa relação entre trabalho e progresso social. Vamos restabelecer a noção de merecimento — come quem sua e caleja as mãos. E aula teórica, só História, e do Brasil, e recente. E o primeiro turno na roça  das quatro da matina às duas da tarde  será dos professores universitários públicos.
O conceito de hierarquia e excelência subsiste apenas nos meios acadêmicos, pelejando encarniçadamente para preservá-lo intramuros, pois que a carreira dos professores depende cada centavo dele. Ao mesmo tempo eles lamentam ser incapazes de difundi-lo mundo afora, pois que se trata de conceito cuja disseminação não interessa aos políticos que controlam os cofres das universidades.
Em 1988 a Folha de S. Paulo descolou na Reitoria da USP uma lista, levantada a mando do reitor, de professores que não tinham publicado nenhum trabalho em dois anos. Os incluídos na lista foram apresentados como "improdutivos", no contexto pleonasmo para "vadios". A lista continha gente a dar co' pau, mais de mil nomes. Seriam todos vagabundos? Não, lalarila-ri-rá. Muitos dos acusados tinham publicado artigos no próprio jornal e, portanto, não poderiam ter sido chamados de improdutivos. Não é o mau-caratismo dos editores no episódio (jornalismo é sujo e só crianças acreditam em jornalistas, tão enganadores quanto os políticos) que é engraçado, mas o servilismo com que os "injustiçados" da lista continuaram a escrever no jornal. Quem seria doido a ponto de abrir mão dum palco tão privilegiado em que pode aparecer de graça para a comunidade acadêmica e para a plateia em geral? Mermão, podemos ser low-profile e escrever calhamaços bocejantes, mas não somos beócios.
Coachando nesse viveiro de astros e estrelas em constante entrechoque tentando se ofuscar uns aos outros que denominamos academia, os alegadamente desocupados chiaram algumas semanas, fizeram a típico cena do me-segura-senão-eu-capo e logo começaram obedientemente a voltar ao colo da magnânima Folha, exibindo à patuleia a erudição inútil em que são mestres. E o jornal prosseguiu forte e sacudido em sua epopeia mistificadora, impavidamente violando a cada parágrafo o próprio Manual de Redação lá deles, contradição intolerável mas compreensível a que os valorosos acadêmicos, sempre tão sagazes em identificar em herméticas obras alheias pérolas de sabedoria invisíveis ao resto dos mortais, fecham os olhos porque, qualé, somos bobos de perder a boquinha?
Como? Manchar o nome dessa gente tão perseverantemente industriosa? Desse "pensador" amigo de FHC a quem os mestres aclamam bajulatoriamente de filósofo, que provavelmente não constava da lista mas que deve ter ficado corporativamente indignado com a injustiça? Ou da doutora especializada em Espinosa, que tão magnanimamente defende o Berção sindicalizado hiperaparelhado contra o filósofo tucano em salutar e revigorante pêndulo ontológico? Ora, intelectual não vive de brisa. Precisamos ganhar o gordinho salário de alguns milhares de dólares às custas do povão esfaimado como o resto dos barnabés. Afinal, de que outra forma poderíamos dar palestras na Europa, fazer cursos em Oxford e visitar Paris duas ou três vezes ao ano para conhecer a última moda baudrillardeana derridante? Tudo bem pôr o dedão com anel de doutor nas contradições da abonada, modorrenta vidinha nas ensolaradas salas de aula do Butantã ou num narcoléptico ensaio empanturrado de hieróglifos em estilo branco-leitoso nas recônditas páginas dum suplemento dominical. Mas matar a Folha de ovos de ouro, só por sobre minha conta bancária.
Ler Derrida no Brasil deveria ser crime previsto na Constituição. Há criancinhas morrendo de fome, madame. Ler Derrida e obscurantistas que tais a operar diligentes o milagre acadêmico, motivo de gozo mediúnico para professores cujo maior tesão na vida é brincar de Wally, Onde Está a Verdade? não tem diferença de morar em favela por falta de peito para resistir à fúria do meio ambiente. Somos todos behavioristas. Ser brasileiro não é para profissionais.
A maior sacada dos ianques, que estabeleceram de vez sua supremacia sobre o resto do mundo, é que devemos/podemos viver nossas fantasias mais rudimentares em vez de ficar buscando uma verdade que não tem lá muita aplicação prática. As balas de Roy Rogers jorravam interminavelmente da garrucha não para fazer babar nosso pensamento mágico e sim pelo princípio de que nossa vontade deve prevalecer sobre as injunções da realidade. Nos encontrávamos para jogar bola no dia seguinte e debochávamos da "ingenuidade" dos gringos que se pensavam capazes de nos ludibriar com seus revólveres prateados de infinita munição: eles querem nos enganar mas nós é que enganamos eles fingindo que nos deixamos enganar.
Parece inútil querer viver sob outra lei que não a da fantasia onipotente. Nascemos, crescemos, amadurecemos e morremos cegos, voltados para dentro, obcecados por um ideal irrealizado e irrealizável, vendo nos outros o que não vemos no espelho, dando uma de bacana, puxa, gente mais insensata, bando de irracionais infelizes. Charles Bronson saca o M16, desfere iracundas rajadas para todos os lados, varre da face da Terra os miseráveis traficantes estupradores cujo única função no filme é ficar esperando a judiciosa bala no coração.
Mundo sem bicho-papão não vale. Se não tiver, invente. O Mal não pode ser sacana a ponto de não existir, deixando o Bem a ver navios. Que faríamos os mocinhos se os bandidos tomassem chá de sumiço?
Caracas, ainda bem que a União Soviética ruiu de fininho, senão a coisa teria ficado realmente, com perdão da impropriedade, afrobrasileira.