Tonietti IX

Bom dia, Doc. Ontem em minha última mensagem enviada à noite parece que adivinhei ao lhe pedir desculpas por minhas confidências, pois hoje ao reler pensei putz lastimável, que papo furado, a assim logo vai ficar no mínimo ressabiada e no máximo enojada, quer dizer, estou praticando um exercício de otimismo tomando de barato que já não está. Está? Desde a primeira? No wonder. Eu ficaria. Não, não por causa das circunstâncias, por si, admissivelmente, no mínimo, peculiares, no limite, inaceitáveis, mas 1) por ter de me valer deste distópico Facebook que, como deve parecer óbvio, não tolero e, 2) sobretudo porque me enojo com a mera leitura de mensagens alheias dirigidas a mim por quem quer que seja. E também são várias as razões por que me enojo. Primeiro, não suporto o modo como as pessoas, quando falam comigo, partem para uma fieira de suposições sobre como sou e o que penso sobre mim mesmo, o mundo e a vida. Bem, a senhorita poderia argumentar que é natural que meus interlocutores imaginem que não posso ser tão diferente dos demais espécimes da raça a ponto de não partilhar nada, ou quase, em comum com eles. Aí é que o problema reside por usucapião. Não partilho, de fato. I mean, partilho mas o que partilho é tão pouco, que é como se não partilhasse, com perdão do paragramatismo. Não, não vá pensar que sou presunçoso. Sou, mas nada que faça de mim um cabotino. Ou ingênuo. Também sou, mas só dentro do razoável. Na verdade, ser o que sou como sou no mais das vezes se revela um imenso, ufa, ônus. Bem que gostava de poder comunhar com meus congêneres humanos. Mas não nasci com tal habilidade, que é que posso fazer? Não só gostaria como até nutro alguma inveja deles e de todos seus ritos, rituais e pajelanças comunizantes. Às vezes sinto uma baita falta de me ver incluso numa comunidade, reconhecendo no outro o que é meu próprio e desfrutando da delícia de não ser tão medonhamente só. Pelo tom de deslumbramento que as pessoas deixam transparecer na cara quando congraçam, posso ver que deve ser um barato. Mas, como disse, não é pro meu bico. Seja como for, lá se vão dúzias de anos de vida e já me acostumei comigo mesmo (até certo ponto). Até aprendi a curtir minhas limitações, qual um manco que ri dos desníveis da calçada ou um cego que fez da escuridão sua cúmplice. Bem, por ora é só. Espero que minhas mensagens não estejam demasiado longas. Embananadas, sei que estão. Mas é de propósito. Como o retrorreferido cego, não me apraz a claridade, não me agrada soar claro demasiado. Sacumé, ajuda a ocultar certos defeitosinhos de nascença. Não, nenhuma aberração, não se preocupe. Não costumo andar de balão, não troco de carro todo ano nem sou filiado ao PT. Apenas algumas falhas de inteligência, moral e caráter próprias dum sujeito que passa e passou pela atribulações, digamos, normais da existência. A propósito, qualquer hora gostaria de lhe falar das minhas leituras. Ou melhor, releituras, pois hoje em dia me limito a reafirmar algumas experiências que um dia lá longe foram frescas. Só pra garantir, entende? Por exemplo, não caio mais na bobagem de ler autores novos quando sei que está tudo lá bonitinho e guardadinho nas tragédias e comédias de Shakespeare, os gregos, Ibsen, Strindberg e outros matutos que tais. E hoje em dia qualquer semiliterato tem acesso ao público, não vou perder tempo tentando separar o joio etc. A propósito de novo, estou relendo Solness, o construtor, do meu querido Henrik Ibsen (sempre pensei que se pronunciasse “Aibsen” até que outro dia, assistindo a um filme norueguês, vi que estava errado). A propósito pela décima segunda vez, às vezes perco meu precioso tempo vendo filmes. Afinal não sou de ferro, né? Aquela sucessão de imagens sem sentido me ajuda a cabeça celerada a devanear e, às vezes, me acalma. Mas nem sempre, em geral me dá engulhos, cinema é tão pobre artística e esteticamente. Qualquer hora, se me permitir, vou lhe falar sobre o Solness, peça, no vocabulário de museu dos críticos de arte em geral, “seminal”. Está tudo lá também. A nojeira, as canalhices, a cul-de-sac da natureza humana, nosso lado sombrio, imersão básica pra quem se disponha a conhecer minimamente a raça ao invés de ficar brincando de ser feliz e outros mitos modernos criados pelo sistema de consumo que nos escraviza a todos. A propósito, se me permite uma pergunta, teria a senhorita um lado sombrio? E Ibsen fundou o teatro tal como ele é hoje. Falando em se me permite, me ocorreu hoje ao chegar aqui para lhe escrever que estou desenvolvendo uma síndrome do pânico — a síndrome de tentar me antecipar ao dia em que virei lhe escrever e descobrirei que fui, ZAPT! cortado. Seja gentil, rogo. Quando quiser me podar, dê um plá antes. Não ando numa das minhas fases de supetão. Olha que meu coraçãozinho é feito de gelatina e mel, fraquinho que nem ele só. Cáspite, olha só o tamanho da lenga-lenga, nessa toada serei descartado muito antes do que pensava — e, pelo visto, sem direito a reciclagem. Como é complicada esta vida. Por que não somos mais simples simplesmente? Bem, o lirismo começou a aflorar, hora de dar um au-revoir igualmente básico. Ôrrevoá. Ah, não vá pensando que me esqueci de lhe perguntar se dormiu bem. Esqueci, não. Só deixei pro fim pra efeitos de dramatização. Gosto de variância. E a senhorita? Também? Quanto a mim, não dormi muito, igualmente pra variar. Meu sono piora e encurta a cada dia, a cada noite. Nessa toada dentro de dois ou três meses terei de renunciar definitivamente a dormir. Também, no wonder, tanta coisa pra ler, pra fazer, pra escrever, pra sofrer, pra pensar e ainda perder horas deitado na cama feito nhonho. Tenha dó.