Tonietti VI

Oi Toni. Dormiu bem? Eu não, pra variar. Vou tentar ser mais sucinto hoje. Estou me sentindo sob a égide do supetão. Gostava de ser menos enrolado. Ir direto ao ponto. Acha que tem algo a ver com frouxidão? Com perdão da rima, não? Eu, sim. No geral sou franco. Já fui mais. Sabe como é, a gente, digo, os cães vão amadurecendo, entendendo melhor como funcionam as coisas. Não, não acho que tenha algo a ver com sabedoria. Particularmente não me agrada essa palavra nem essa noção. Ainda mais vendo que o mundo é dominado por gente “sábia” que fez dele a grande merda que é. Acha que aprendeu coisas definitivamente importantes na idade adulta? É mesmo? Bem, todos aprendemos, claro, sobretudo as que envolvem nossa habilidade de sobrevivência. Por favor, não vá me achar demasiado filosófico. Ou parlapatão for that matter. É que — como já deve ter notado — às vezes, quanto tô com muita, muita fome, sou assaltado por essas duvidazinhas existencialistas e não sei o que me dói mais, o estômago ou a alma. Tudo bem, pode dizer, sou um choramingão, tô a par do babado, que é que posso fazer se foi assim que papai do céu quis? Então aqui voltamos àquela questão de até que ponto aprendemos as coisas nestas nossas vidas dedicadas a carregar a cruz no lombo. Tudo bem, pode torcer e franzir esse seu narizinho suave habituado a farejar comidinhas sofisticadas e temperinhos exóticos, mas essa é que é a verdade, que é que posso fazer, com perdão da cacofonia? No que me tange (bóióióióióióióim), sou praticamente o mesmo vira-lata chucro desde aquela fatídica tarde lá pros lados da Vila Palmares quando mamãe se enfurnou num cano de esgosto e pariu este vosso lacaio juntamente com dezessete outros serezinhos mequetrefes de igual paramento e laia. Se um dia quiser verter copiosas lágrimas, me peça pra lhe contar a minha história e como no dia seguinte me separaram de mamãe e das minhas quase duas dezenas de manos e manas. Uif uif uif, meus olhinhos se embaçam só de lembrar. Toni, não esqueci minha promessa de tentar ser sucinto, não, mas tenho essa mania de me entregar aos sentimentos, me desculpe se exagero no fatiamento da cebola. Ah, como gostava de ser durão, prático, pragmático que nem minha Toni. Ter controle fino eletrônico sobre o que penso e sinto, como deve ser bom. Sabe, tem dia essa hipersensibilidade que papai do céu me deu, com os cumprimentos do senhor do inferno, me deixa absolutamente exausto. Na adolescência, começo da juventude, por aí, me sentia um privilegiado por ter sido dotado de berço destes meus bigodes que captam e captam e captam e captam e captam sem parar sem parar sem parar sem parar sem parar tudo que acontece à minha volta e no bairro e na cidade e, agora com essa maldita internet verdadeiramente digna dos cachorros, em todo o universo. Me achava o gostosão, vivia botando uma, fazendo aquela cara do castro-alves assistindo à flagelação dum escravo fugitivo flagrado com a boca na botija (santa mãe, que vergonha de comparação). Até que com o tempo comecei a me dar conta de que não passo dum cãozinho impressionável fraquinho demais pra encarar a dureza do mundo. Tudo bem, pode dizer que, se é assim, então, sim, aprendi alguma coisa importante ao longo do meu amadurecimento. Mas só vai piorar as coisas. Essas minhas contradições me cutucam o fundo do âmago como se eu estivesse entuchado de caquinhos de vidro. Tudo bem, nem precisa dizer, não estou no melhor dos meus dias. Me condoer e coçar, é só começar. Promete que não vai me tocar como se eu fora um vira-lata sarnento?