Tonietti XIV

Não acha o face desumano?
Oito da noite, tudo bem, meio tarde prum bom-dia, mas é que continuo com este meu ligeiro problema com horários, tudo bem também, é algo mais pro cronológico, uma dimensão mais, digamos, filosófica, faço essa confusão não só com horas e horários mas também com datas, épocas, eras geológicas, embora me considere relativamente bom em história, não só, historografia idem, tenho essa, digamos, acuidade natural para os grandes marcos da raça ao longo do tempo, o que foi importante no passado, o que não foi, é tão básico pra mim, honestamente, não consigo entender quem não sabe, só pra dar um exemplo, que Emilio Aguinaldo, líder dos nacionalistas na Filipina, proclamou a independência da Espanha em 1898 ou que, em 1942, Anne Frank ganhou um diário de presente de aniversário, brrrr, essa é de gelar a alma, né? Falando nisso, sabia que o Bruno Bettelheim, aquele psicólogo judeu que na década de 1979 ficou famosíssimo com suas teorias sobre a psique infantil e a mecânica do autismo nas crianças, sobrevivente do campo de extermínio de Dachau e que, em 1990, sob ferozíssimo ataque duma depressão pela morte da mulher poucos dias antes e sob efeito dum derrame que limitara ao extremo sua liberdade física (se tem algo a que só damos importância quando perdemos é essa liberdade, né?), enfiou um saco plástico na cabeça, o que estava dizendo é que Bettelheim achava o diário de Anne Frank uma merda porque a menina termina o diário professando “confiança” na bondade da raça humana, essa também é de doer, né? nunca li o tal diário, nunca quis perder tempo com o que, acho, deva ser uma choradeira sem tamanho, tanta coisa útil a ler, quer um exemplo? lá vai, as trinta e tantas tragédias e comédias de Shakespeare, li apenas oito, o que é uma vergonha prum sujeito que se pretende inteleca feito eu, a Busca, do Proust, li só seis dos sete volumes, vexame inominável, calamidade, estava embaladérrimo, devorei os seis numa só imersão psicoliterária de três semanas, parando apenas pros misteres básicos, então o Grande Erro: parei ao final do sexto pra mudar um pouco de ares, a escrita do Marcel é ao mesmo tempo hipnótica e exaustiva, aí o fim, não consegui retomar, essa tragédia ocorreu há exatos 24 anos, me achava no ápice, maduro, porque, bem, Proust é um desses rituais da vida que requerem preparo, um tipo... sabe essas abluções que os cristãos bons de garganta, os turcos do Islã e os judeus fariseus costumavam fazer depois de se aproximarem de cadáveres ou fazerem sexo e mesmo depois de se menstruarem ou terem contato com mulheres menstruadas faziam antigamente? Quer dizer, os xiitas e que tais ainda fazem, vivem na Idade Média, mas essa necessidade de purificação de que sofrem os religiosos nessa jogada inexplícita que armam pros ateus pra dar uma de bacanas pra cima da gente, sabe como é, a politicagem que rege as relações sociais desde que o primeiro homem comeu a primeira mulher, se é que de fato comeu, às vezes me assalta a mão armada (só espero que não acabe banhado em álcool e incinerado como parece ser a nova moda dos ataques nesta terra de Santa Cruz) uma teoria particular que na verdade foi a Eva quem traçou o Adão, o que botaria a Igreja de pernas pro ar mais do que as surubas perpetradas pelos padres nas sacristias com pré-púberes mundo afora ou casamento gay, a senborita sabe de quem estou falando, essa gente que tem necessidade de se descontaminar a cada cinco minutos, uma vez tive uma namorada que precisava tomar banho antes de cada transa, Cacilda, não, era Jaqueline, bem, não importa, dizia, pombas, Jaque, o barato é exatamente o fedor, digo, cheirinho, quanto mais melhor, sabe no que mais me amarro? me amarro mesmo é num subaco, é o subaco que traduz verdadeiramente a alma duma mulher, é o subaco que guarda, e esconde, a genuína história duma mulher, prendo os dois braços dela acima da cabeça, expondo as duas axilas e lambendo daquele perfume animal meio acre, primitivo, odor que se fixa ao nariz e boca e queixo e mãos, que me faz me sentir macho e humano, membro duma raça, parte duma tribo, conectado a uma terra, por acaso leu A insustentável l. do s. do Kundera? Provavelmente não, né? Mas aposto que viu o filme. Bem, o filme não vi, não assisto filmes derivados de grandes romances, são atentados literários, mas uma das partes mais comoventes do livro é quando o narrador diz que, quanto mais pesado é o nosso fardo, mais próxima da terra fica nossa vida, é ou não é sublime? duvido que um filme, qualquer que seja, possa nos carregar a esse tipo de êxtase, viu que os aiatolás agora deram de perseguir os cães? dizem que os bichos são impuros, por Alá! Proibiram motoristas de andar com cachorros em automóveis, o infrator está sujeito a pegar cana, é esse tipo de gente que tenta nos ensinar que a vida é um sacrifício, que precisamos nos preparar para ela, vida, nos escoimar das nossas impurezas, nos afogar, senão na água, por boa vontade, no sangue... tô meio elétrico esta noite. Às vezes penso vislumbrar uma certa boa-vontade aí do lado da senhorita. Com todo respeito, por certo. Não pretendo abusar de sua hospitalidade, me deixando teclar essa bobajada aqui no seu perfil quando me dá na telha, o que deve ser deveras aborrecido, vira e mexe abrir o face e dar de cara cum infeliz metido a pensador a destilar uma arenga infinda sobre o tudo e o nada como se fora sobrinho do Jean Paul, eu no seu lugar já teria me vetado, não sei como tolera, mas assim vou indo enquanto não me interditam, sabe o que tinha em mente quanto comecei a escrever este recadinho? Não? Então lhe vou contar: vim aqui escrever porque fiquei impressionadíssimo cuma foto que vi hoje no google com o Sinatra e Mrs. Jackie Kennedy e então me lembrei também que ontem quando comentei sobre a piramidal Novak e aquela patota que flanava em torno do Kennedy, Sinatra, Lawford, Angie Dickenson, que também rodava de mão em mão, e até o canastraço Dean Martin e o novo branco Sammy Davis Jr., me ocorreu a dúvida, será que o Sinatra e cia. ilimitada também traçava a estupendamente donairosa Jackie? Traçava, claro. Por que não haveria? A maior prova é que depois ela se vendeu ao anão caquético Onassis, podre de rico e de otras cositas mais. Não estou fazendo nenhum julgamento moralista, longe de mim qualquer pudicícia imbecil, só lembrei, ah quanta coisa lembro, do frisson desse e outros causos em nossas vidinhas operárias dos anos 1960, e pensar que não mudamos porra nenhuma ever since.