Memórias do cárcere químico VI - estágio beta

A dondoquinha passa a galope ao longo da sarjeta entre a calçada e o asfalto. Trajes de ginástica, blusinha rosa airada sobre o torso ligando espáduas vigorosas a um ventre surpreendemente esguio, a estrutura inteira articulada às calças pretas coladas sobre espáduas robustas, embora graciosas, e glúteos que convidam ao sonho.
Cada movimento do galope é matematicamente orquestrado lá do alto, da cabeça, donde vai meneando a batuta da maestrina acidental na forma dum rabo de cavalo serelepe.
Que hipnotizante rabo de cavalo. Estaria eu apto a montar essa benfajeza eguinha matinal e, em amansando-a, lograr adestrá-la para a suave execução da aguardada Dança Final  em minha baia particular eregida de delírios?
Lá se vai a esbelta dondoquinha de meneável cabeça rua acima, tentando escapar aos olhos cansados de sua semostradora testemunha a jazer num canto da calçada, na ponta dos dedos a guia que contém a custo um viralata endiabrado.
É saúde, é beleza, é jovialidade, vigor, entusiasmo demais para este que desde muito cedo só pensa em fugir.
Hein? Ela passou por mim e cochichou algo?
Terei escutado um ligeiro assobio?
Um psiu daqueles que a sibilar sssiiiissss...?
Onde é que eu estava com a cabeça, que não prestei atenção?