DM, desparabéns a você

Me diga:
por que quanto mais envelheces, mais jovem é teu coração?
Voltando à terceira pessoa:
Não costumo parabenizar.
Em geral não vejo por quê.
Em geral não vejo quem.
Não gosto.
Também deve saber:
Não faço — nem sei fazer
E quando faço, faço mal
O que fazem todos
Porque todos fazem.
E não costumo parabenizar
Não só por aniversários.
Não costumo parabenizar
por nada.
Mas adoro lamentar.
Você sabe a terceira vez:
de espírito sou tão pobre.
Vi teu lembrete e
Me pus a ponderar:
Devo? Não devo?
Ponderar é modo de dizer.
O não não me passou pela ideia.
Como não deveria?
Que raio de parabéns é este
Em que falo só de mim, deixando
a aniversariante de escanteio?
Quanta frescura.
Mas que fricote.
Puro narcisismo dum infeliz
Cabotino.
Você de certo tá meneando a cabeça,
Nos lábios um sorrisinho entre
Decepcionado e irônico,
Talvez meio assombrada com
Um sujeito tão desajeitado e
Sua espetacular queda para
Gafes.
Voltando à segunda pessoa:
Tens toda razão, cara minha.
Se te fiz rir, por pouco que seja,
Me considero recompensado.
E se quiseres cair na gargalhada
Hoje é teu aniversário
Tens todas as razões para rir
Pois és tão especial
Eu, para agradecer tua amizade
Em O mercador de Veneza
Gratiano consola Antonio:
“Com alegria e risos, que venham
as velhas rugas”
Deixei o Bardo para o fim
Imaginando, será melhor assim.
Se desparabéns não sei começar,
Teus desparabéns nunca saberei
Terminar.