Apenas outro mapa inútil

Da minha casa até certa esquina, não estou certo se em direção norte ou sul, minha rua é cruzada por outras onze. Como não conheço pontos cardeais, apenas sei que quando passo por essas ruas estou sempre descendo rumo ao centro da cidade. Sei também que alguns dos meus vizinhos, diferentemente de mim, descem na direção da estação quando passam por elas.
A primeira dessas ruas começa na minha e sobe um morro íngreme que nasce aqui e se estende quatro quarteirões acima.
Essa primeira rua chama-se Constituição. Agora que estou tocando no assunto me ocorre que já não me pergunto mais o que significa seu nome. Menino — e, olha, um tanto tímido e tristonho para o meu próprio gosto, tanto naquela época quanto hoje  —, avistava esta placa grudada lá no alto da parede amarelada desta casa da esquina e me assombrava com a palavra pomposamente enigmática — ou talvez apenas pense que me assombrava quando hoje passo por aqui tentando me imaginar atravessando esta rua, mão brincando em torno dos lábios, olhos não arregalados — pois tinha pudor em exibir meus sentimentos, mas seguramente pupilas dilatadas à minha revelia.
Nesta rua Constituição moraram alguns amigos meus de infância. Ou, se você preferir que eu seja preciso, colegas. Decididamente, pois sequer uma vez me convidaram para conhecer os mistérios que de certo residiam no interior de suas casas. Nem o Roberto, que eu todos os dias deixava entrar na minha para jogarmos bafo e fazer outras coisas (muitas outras coisas, das quais não me lembro exatamente bem).
Nesta rua Constituição também moraram outras pessoas que me intrigaram por uma razão ou outra. Me lembro bem duma senhora de cabelos brancos que morava na quinta casa subindo do lado esquerdo. Nunca soube o nome dela — pois não éramos vizinhos e, pelo que também me lembro, só sabia os nomes dos vizinhos, e não apenas dos diretos, mas também dos da frente e dos de cinco ou seis casas para ambos os lados.
Depois da Constituição vem a segunda rua que começa na minha. A Cajado de Lemos. Esta, ao contrário da primeira, desce. É descida curta, de apenas dois quarteirões ou talvez nem isso. Não, certamente nem isso. Engraçado: também me ocorre agora que nunca me preocupei em saber o comprimento exato da Cajado de Lemos. Tampouco cheguei a pensar em quem seria o velho Cajado de Lemos cansado de guerra que sem dúvida aprontou alguma das grandes para receber a honraria de ter seu nome inscrito numa placa. Ao contrário de Mario de Andrade, o velho Cajado na certa não se avexaria em virar nome de rua. Eu mesmo acho que não importo se algum vereador se dispuser a rebatizar São Paulo com meu nome.
O mais curioso, porém, é que aqui na Cajado de Lemos, exatamente aqui nesta casa  — ou será naquela ali do outro lado da rua? — morou a Valnice, por quem me apaixonei caninamente quando tinha oito, dez, treze anos. (Ou será que o nome dela era Antonia? Não, certamente não. Nunca me apaixonaria por uma menina chamada Antonia — não importa quão bela fosse.) Seja como for, ainda hoje carrego o coração meio dilacerado pelo amor não correspondido que devotava a Valnice. Dias tinha que, depois de voltar da escola, almoçava, tirava o uniforme e vestia o calção surrado de jogar bola, fazia a lição de casa e acabava vindo aqui, me sentando exatamente neste degrau que existe até hoje. E então me esquecia do mundo, grudando os olhos na porta da casa da distante Valnice, rezando para que ela viesse à luz do dia olhar distraída as nuvens e conferir a possibilidade de chuva ou ir à padaria Zizza comprar seis pãezinhos e um litro de leite (que naquela época vinha branquinho naquelas garrafas gordas seladas cuma tampa de alumínio que exigiam o emprego dos dentes para sua remoção).
Ela raramente botava seus suaves pezinhos fora de casa — pois naqueles tempos as meninas primavam pelo recato e pela índole doméstica —, mas eu, teimosamente, montava guarda até a noitinha. Às vezes, para a minha inacreditável sorte, a Valnice dava o ar da graça e se punha a caminho da padaria para comprar os ditos pãezinhos ou do armarinho da dona Cida para adquirir um retrós de linha (sua mãe costurava pra fora). Nessas ocasiões minha boca ficava seca e meus olhos — aí sim, pois não tinha como evitar — se arregalavam de paixão. Valnice era orgulhosa: mal cruzava a porta, torcia o pescoço para o outro lado. Pior, era fria: subia os poucos metros da Cajado de Lemos e dobrava a esquina sem me dirigir um único olhar. E era cruel: fazia questão de subir a ladeira como se eu não existisse — embora soubesse perfeitamente bem que eu não deixava escapar um só movimento de seu corpinho de boneca predestinada a sequestrar o coraçãozinho dos garotos perdidos.
A terceira rua que cruza a minha é a rua São Paulo. Esta vem lá de baixo onde, há uns dois séculos, antes de existir esta cidade, havia um vale então atravessado pelo rio que, miraculosamente, resiste ainda hoje. Esse rio — chamado dos Meninos — deixou de ser exatamente um rio — foi pecaminosamente convertido num esgoto de misteriosas águas pútridas cor de asfalto e dos meninos que há sessenta anos se banhavam nele restou tão somente o nome.
Aí vem a Joaquim Nabuco, a Olavo Bilac, a... De repente me vejo na estação, a estação dos trens. Às vezes — uma ou duas por semana — minha mãe ia para a “cidade” (como ela e meu pai se referiam a São Paulo) e me arrastava atrás da saia como se o mundo fosse só dela e eu não existisse. Naqueles tempos meu grande sonho era sair de casa sem ser notado e enveredar a esmo pelas ruas sem prestar atenção ao rumo tomado aleatoriamente por meus passos. Parece que hoje finalmente consegui.

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