Bruta, crua e terrível

Ojeriza. Saravá! meu são Darwin. Te ofereço esta rosa murcha de pétalas secas que todos os dias espeto em minha simbólica lapela antes de me erguer na cama e mirar d’olhos cerrados e cérebro abarrotado de cacos oníricos o suplício da jornada à frente. Não, não preciso de ticket de estacionamento, não tenho carro. Me perdoa a tentativa malograda de expressividade, não nasci pra poeta, muito menos profeta. Sou de 1954, quando fizeram Sabrina, ano do mais sugestivo rosto jamais representado nas telas de cinema, os deuses me trouxeram do inferno para saboreá-lo, até o boboca do Bogart sai parecendo ter alguma substância. O que uma deusa em forma de mulher não é capaz de fazer, não é? Que boca! Que olhos! Que sobrancelhas! Que rabo de cavalo, mein gott! Vejo uns trechos, meu coraçãozinho embebido em enxofre pede uma ambulância alada e muda que num piscar d’olhos me carregue pro hospital dos anjos. Sabe qual a grande vantagem dos eleitos sobre nós reles humanos? Eles acabam adquirindo algum senso de missão. Pensa bem, não é tudo de que você gostaria? Mas que vidinha mais miserável esta nossa. Temos certeza de pouco e o pouco de que temos certeza não nos ajuda muito afetiva e espiritualmente, e mergulhamos de cabeça na primeira mentira que nos saúda toda santa manhã através da internet ou da tevê. Ou vai me dizer que você defacto saboreia tuas experiências facebookianas em que te obrigam a ler o que “combina” com teu perfil e a curtir preguiçosamente postagens e fotos óbvias? Ou que te aprazem as sessões televisivas feitas sob medida para te anestesiar a consciência? E o pior não é nem mesmo se deixar escravizar por essas duas pobrezas tecnológicas. O pior é tomar sonambulamente parte do infinito rebanho coletivo e aceitar de mão beijada qualquer porcaria que a famigerada indústria cultural nos ofereça de graça. Ser dono do meu próprio poder de decisão não tem preço.
Hoje resolvi vestir esta camiseta amarela que tenho há uns dez anos mas não usei mais que três ou quatro vezes. Não sei bem por que, talvez pela cor. Não vou muito com a cara do amarelo, a mais impossível das cores, tal como novembro, o mais impossível dos meses. Tenho essa implicância com os meses, mais que com seus nomes. Também implico com os dias da semana. Já com os do mês, nem tanto, talvez por não terem nome mas só ordenação. O que me dá uma desculpa para execrar fevereiro. E os excessivos com 31 dias. Pra que tanto? Drummond nutria implicância com maio, a bem dizer, implicância inversa. Para ele maio era o mês dos bem-aventurados. E do Dia do Trabalho, eca. Como é que um grande poeta, sem dúvida alguma o maior entre os brasileiros, pode se render à cafonice mundana das datas “especiais”? Me gela o esôfago pensar que tenha produzido uma ode ao dia das mães. Eca. Bem ele, que pregava o desprezo dos poetas por tudo que tivesse relação com os fatos.
Nos últimos dias andei, como deve estar claro, relendo Drummond e deparei c’Uma pedra no meio do caminho — biografia de um poema. É um livro em que Drummond coligiu muito do que se disse sobre seu poema da pedra, a favor e, principalmente, contra.
O poema apareceu pela primeira vez na “Revista de Antropofagia” em 1928 e passou quase despercebido. Só veio a causar sensação dois anos depois ao ser incluso na primeira coletânea de Drummond, Alguma Poesia.
Na Biografia, o poeta selecionou elogios e insultos que Uma pedra... angariou depois de vir a público. Um dos ataques mais impressionantes é este: “Homem! E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela?” E Drummond ganharia apodos pitorescos como poeta perereca, poeta cavouqueiro e pedregoso. Ao que consta, nunca se deu o trabalho de responder às ofensas (o que se pode deduzir de sua obra). Ao invés disso, fez do limão uma limonada.
Isso de implicar com as coisas do mundo – às vezes mais do que com o próprio –, sempre sofri desse mal que, dentre todos os males, é um dos mais maléficos. Pois que é, obviamente, um padecimento. Não me agrada, e nunca me agradou, que as coisas, ou a maioria delas, tenham vida, e vontade, própria. Me irritam sobremaneira as que exigem que eu lhes devote maior cuidado do que o cuidado que devoto a mim mesmo. Primeiro porque sou muito, muito desleixado comigo. Filosoficamente, me considero, e sempre me considerei, somente mais uma coisa em meio a todas as coisas que atravancam este planeta. E não tenho, nem nunca tive, muita paciência com meus próprios predicados, muito menos com meus melindres. Sim, sou, circularmente, um sujeito altamente melindroso, desses que se abespinham por qualquer porcariazinha, sobretudo quando tal porcariazinha independe da vontade dele. Por exemplo, uma lata de cerveja que você larga na beirinha da pia enquanto fecha atabalhoado a porta do fridge e derruba no chão com a ponta do cotovelo quando dá meia-volta para agarrar sofregamente a desgraçada. Se tiver sorte a miserável não sofrerá mais que uns amassados insignificantes. Se tiver azar o lacre explodirá, esguichando todo o precioso, fulvo elixir sobre o piso da cozinha. Não sei se é porque ultimamente fiz das crônicas de Machado meu livrinho de bolso. Vou ciscando uns trechinhos aqui, uns períodos ali de manhã, à tarde e de noite. Vocês, naturalmente, já se deram conta desde uns dias atrás, pois que venho tentando remedar o estilo largo e sardônico do mestre há tempos.
Uma delas, publicada em A semana a 6 de setembro de 1896, começa assim: “Qualquer de nós teria organizado este mundo melhor do que saiu. A morte, por exemplo, bem podia ser tão-somente a aposentadoria da vida, com prazo certo. Ninguém iria por moléstia ou desastre, mas por natural invalidez; a velhice, tornando a pessoa incapaz, não a poria a cargo dos seus ou dos outros. Como isto andaria assim desde o princípio das cousas, ninguém sentiria dor nem temor, nem os que se fossem, nem os que ficassem. Podia ser uma cerimônia doméstica ou pública; entraria nos costumes uma refeição de despedida, frugal, não triste, em que os que iam morrer, dissessem as saudades que levavam, fizessem recomendações, dessem conselhos, e se fossem alegres, contassem anedotas alegres. Muitas flores, não perpétuas, nem dessas outras de cores carregadas, mas claras e vivas, como de núpcias. E melhor seria não haver nada, além das despedidas verbais e amigas.”
A única diferença entre a crônica minha e a de Machado é que, primando pela modéstia, me contento em aspirar ao controle duma reles lata de Skol depositada na beirada da pia. Já Joaquim Maria, reconhecido campeão inconteste das nossas letras logo na primeira publicação de seus poemas – por sinal, sofríveis por qualquer ângulo de que se queira olhar –, pretendia reformular nada mais, nada menos que a vida, a iniciar, como não poderia deixar de ser, com a fatalidade da morte.
Por sinal uma segunda vez, num destes dias que se aproximam célere e sinistramente, estarei entrando, mais uma vez, na ágil e exímia faca do meu caro amigo dr. Eduardo, cirurgião gástrico. Sim, lá se vai mais meio metro, em estimativa conservadora, do meu pobre intestino. O doutor garante que desta vez não escapo da colostomia, no que creio piamente. Me livrei da temível bolsinha por milagre na primeira vez. Naquela foram quatro horas. Na próxima serão no mínimo seis. Tenho gana de pedir ao facínora que tire uma foto das minhas tripas removidas do meu ventre mas não teria sangue frio. Só rogo aos meus quase três leitores que se deem as mãos (vou notificá-los da data e do horário oportunamente) e, transidos do mais profundo e cândido sentido comungante, orem pela alma deste brasileiro que já foi cristão um dia em sua remota primeira infância. Não vai ser batatinha, creiam. (Também vale torcer ao contrário, a esta altura não taux dando lhufas.)