Narciso fenecido

Agora que a infância está tão
Longe,  que já não sei onde está
E pouco me lembro do que fui
E quase não me importo mais
Posso finalmente engolir em seco
Focar a imagem do que sou hoje
Ciente de cada um dos meus
Abcessos, rugas, pintas,
Calombos e deformidades em
Geral e, amargo, admitir:
Narcisos podem ser bons
Narcisos podem ser mórbidos
Tudo depende do narciso
Tudo depende de você
Narciso pode ser o mito grego,
belo jovem que rejeitou o flerte
de Eco e foi por isso condenado
a se apaixonar pelo próprio
reflexo na água duma poça
Narciso pode ser uma flor
Flor de beleza atordoante
Incapaz de durar mais que
Poucos dias. Fadado a aceitar
Ou não a tragédia de manter
Viva a autopaixão agora sob a
Feiura trazida pelo Tempo
O narciso é belo (ao menos aos
próprios olhos), tão belo, que
Não tolera partilhar sua beleza
Com mais ninguém. Ao narciso
Fenecido, torturado pela
Lembrança da beleza perdida
Resta ser maligno