Ele voltou XVII

...continuação de...

Ele queria ser professor, chegar na classe e anunciar “descobriram uma solução para o desenlace nuclear!” mas não tinha nada a ensinar, não lhe interessavam coisas que o desafiassem ou o ameaçassem, não gostava do que fosse complicado, com o mesmo deboche com que falava de seus conterrâneos calhordas, sentia-se no céu quando deparava com algo possível de ser explicado, todos os dias mandava aos sites jornalísticos mensagens exigindo que parassem com as notícias chulas, boçais, frívolas, que começassem a ensinar o povo a pensar, senão explodiria todos eles, ficava doente quando não lhe davam bola, políticos, tinha ganas de assassiná-los, quem não tem? gente safada não tem, nunca acredite em palavras, só em ações, começou a me dizer certo dia e continuou dizendo todos os dias até morrer, não pense no ontem, não é possível mudar o mundo, não é possível melhorá-lo, a questão não é abolir, refrear ou mitigar a violência — mas usá-la corretamente, não devemos parar nem dissuadir os audalílsones a parar de rezar, e sim passar a olhar jesus como um aliado, a maioria de nós pensa que segue na direção certa, apenas cometendo alguns tropeções no trajeto, nos permitindo alguns pequenos deslizes que no fim não farão grande mal, mas aí reside o engano: caminhamos na direção completamente errada, nos habituamos a desculpar nossa própria negligência alegando que é apenas reflexo das próprias condições, injunções e possibilidades humanas, desculpa esfarrapada, cada um dos erros que cometemos e que permitimos que outros cometam e os quais vivemos justificando — sempre cometendo-os em nome da nossa necessidade de liderar e de ser liderados, de amar e de ser amados, de dominar e de ser dominados, de subtrair e de ser subtraídos — poderiam ser evitados se quiséssemos, mas essa obcessão com o sucesso sucesso sucesso, trabalho trabalho trabalho, prazer prazer prazer não nos permite enxergar, por que somos tão confiantes na ciência? lógica? progresso? porque meia dúzia de bastardos no mundo usufruem tudo que podem de algumas certezas que estabelecemos como inquestionáveis e o resto de nós só toma no rabo, de que servem os avanços da medicina se não podem ser estendidos a todos ou ao menos à maioria ou ao menos a um grande número de pessoas? de que serve toda essa tralha que nos dão o que designamos conforto se é acessível a apenas cinco por cento da população mundial? mas isso não é o pior, as teorias hipóteses conceitos métodos visões princípios dominantes foram desenvolvidos para defender essa situação, te dizem, olha, vem e pega e vive e desfruta e saboreia e sê feliz, desde que tenhas dinheiro para comprar tudo isso, se não, fôdasse, vivemos o grande enorme majestático formidável fôdasse, a selvajeria institucionalizada, a lei do cão surdo, cego e mudo, o passaporte para a felicidade é o dinheiro e não importa porra nenhuma se você é um fodido que não teve a graça divina de nascer em berçodouro, eis o nó da questão, a sorte, “a” sorte, mas quando você tem a sorte de pegar uma 45 e ir atrás do que considera seu por direito natural, pensando, não nascemos com sorte mas vamos conquistá-la na marra, vai se foder do mesmo modo, pois essa ordem está estabelecida desde o princípio dos tempos e ninguém pode refutá-la — e aos que feito você ousam cabe o mesmo prêmio que todos seus antecessores receberam, balaço no crânio, a prerrogativa de atacar e defender-se sob a lei da selva só a têm os sofisticados de ternegravata e colares de pérola que herdaram de seus ancestrais a capacidade de exercer a violência ao extremo para proteger suas posses — a pusilânimes só resta rezar para que a vida passe depressa ou ter tido a sorte de nascer com coragem suficiente para soltar um balaço no próprio crânio.
Então você coça a cabeça e pensa confuso, Porramerda, podíamos ter nascido na centralparkavenue, azar, fomos cair no Pé Sujo. Eis o verme da Grande Lógica fazendo tuneizinhos na tua plúmbea cabecinha. Teve o azar de desabrochar no berço errado e se se atrever a contestar será abatido a tiros feito um cachorro sem dono. É a Lógica do Direito. Os que têm têm direito a ter; os que não têm têm direito a tentar ter — desde que não violem o direito dos que…. Putaquepariu. mero jogo de palavras do discurso prevalecente… sistema de vida tão enraizado em nossas cabeças, que jamais ousamos duvidar. Quando as coisas dão errado você pensa, Porra, onde EU errei? Todos fomos ensinados a reagir assim. Esse é o Princípio do Homem Maduro — somos adulto, portanto responsável por nosso mundo, atos e dores. É a ideologia usada pelos psicanalhas. Não se absolva. o errado é você, não o mundo. Mas isso também significa que os outros estão certos por você estar errado. A cada um de nós cabe nosso lugar e quinhão de dor e de alegria. Só depende da nossa capacidade. Quem mandou não nascer mais inteligente, com vocação para engenheiromatemáticodoutor? É tão simples assim. Tivesse um pouco mais de neurônios e/ou de talentos e/ou de sorte e/ou de capacidade de amar e/ou o Caralhoaquatro e você agora estaria do outro lado. Outra geografia aritmética histórica. Tudo seu seria outro. Você outro. Seja afirmativo rapaz. confiança. força. Olhaí esses coitados que perambulam pelas ruas com o espinhaço arqueado sob o peso da derrota. Que desperdício. Mas você no fundo sabe que o único desperdício que vale a pena é o nuclear. Você sabe, será essa sua entrada no céu. É claro que tudo vai acabar mal. Um dia as bombas desabarão das nuvens e o mundo chegará ao fim. O que começa por acidente termina por acidente — eis a única lei infalível. Nunca temos dinheiro suficiente para pagar o preço. Basta de mentiras — trabalhar para o progresso social não faz parte da natureza humana. Nunca temos dinheiro suficiente para pagar o preço.
Recebo a primeira facada na boca do estômago, dobramos o corpo para a frente mas não é mais possível me proteger, levamos as mãos à barriga, erguemos-as à altura dos olhos e os olhos olham-as passados tingidas de carmesim, pensamos na expressão do teu rosto vendo-me ser furado a peixeira, perguntando-se, na boca do estômago?