Amorokê na vila - Capítulo 008

A lua lembraria você, se sorrisse. 
Você deixa a mesma impressão 
De algo belo mas aniquilante. 
Sylvia Plath

Fiquei impotente há dois anos e meio. Começou naquela noite em que sonhei que era eunuco.
Sílvia, tentando me consolar, explicou as maravilhas operadas pelos modernos medicamentos anti-impotência. Várias vezes jurou que não me deixaria. Naquela época achei natural acreditar.
No sonho era um eunuco inglês. Cantava A day in the lie em voz de falsete. A letra era mais ou menos assim:

Don’t know where you’ve been all these nights
My ears’ve been full with darkness
Don’t know where I’m going to
Your tracks have been leading me astray
What is it I've been waiting for
Looking straight at the horizon?
Hey listen to the moaning sounds
From clouds gathering in the skies
A lie in the day


 Acordei no meio da madrugada todo molhado. Tinha ido dormir de bexiga cheia. É melhor se mijar de bêbado do que de medo.
Levantei da cama tomando cuidado para não acordar Sílvia, fui para a sala, fechei a porta, pus uma mazurka de Chopin, enchi um copo de Balla 12 até a borda e engoli. Apanhei meu bloco de anotações e registrei a balada com que sonhara e esbocei umas ideias ainda frescas do sonho. Quando olhei pela janela era de manhã.

Não sei se já disse, Sílvia me deixou. Quando a vi de novo, teria abanado o rabo se fosse um cachorro que reencontra o primeiro dono depois de anos sem saber direito se é lembrança de alguém bom ou mau, sem poder decidir se abana ou não o rabo. Devo me alegrar ou temer? Foi ela que me salvou da minha tragédia ou foi ela a causa da minha tragédia? Devo lamber suas mãos generosas ou morder suas mãos infiéis? Meus tíbios instintos caninos não me servem de ajuda. Dejavu inédito, me deixa sem referências. Entre meus medos está o que não conheço. Uma réstia de otimismo tenta se impor. Precavido, abano.