Amorokê na vila - Capítulo 016

A escuridão pode ser mais esclarecedora que a luz. 
Meu eletricista

Certo, vou me agarrar a Soninha enquanto viver ou pelo tempo que ela me quiser. Sílvia, difícil que me aceite de volta.
Mas nem por isso desisti de sonhar. Sim, tenho um projeto. E há em meu projeto uma mulher.
A mulher do meu projeto haverá de ser bela, naturalmente. (Conheço uma cacetada de caras que casam com bagres. Taí coisa que não entendo. Mulher feia é algo que não existe. Qual deus, você só ouve falar. Quando dou com uma na rua é como se cruzasse com um ectoplasma. Sendo agnóstico, faço de conta que não vejo.) Com apurado bom-senso. Recatada. Elegante. (Se possível, capaz de ostentar aplomb, um aplomb arraigado, nato, de herdeira aristocrática, Catarina Deneuve para cima. Desde criança anseio por uma mulher com aplomb. O que implico na Catarina é aquele andar de supermodel orangotangoso.) Compreensiva. (O máximo possível. Se não for capaz de entender minha idiossincrasias, que pelo menos finja. E bem. Poucas coisas na vida são mais belas que uma boa atriz. A minha, quando não tiver orgasmo, seja simples ou múltiplo, pelo menos espero que simule a contento.) Sincera. (Na medida do possível.) Elegante, delicada, cordial, paciente. Compassiva. Intuitiva. Gostosa — muito, a ponto de se tornar minha diva sexual e minha musa poética, monopolizando minhas fantasias de modo que eu nunca sequer cogite traí-la. (Já decidi: não vou trair minha mulher. Nem uma vez. Não importa quanto venha a desejar outra.) Na cama, criativa. E também no sofá da sala, atrás da porta do banheiro, no fundo do quintal, no banheiro do McDonalds. (Nunca frequento o McDonalds nem qualquer outra pocilga que tal mas transaria no banheiro duma daquelas lanchonetes de contos de fada de acrílico se um dia fosse lá com a minha esposa.) Gueixa imaginativa. (Não necessariamente servil, mas ciente de seu dever para com o parceiro.) (Digo, parceria no sentido mercadológico. Total. Seremos amantes safados na cama, amigos mutuamente protetores no dia-a-dia, sócios diligentes nos negócios, cúmplices, simplesmente cúmplices no amor.) Minha mulher modelar possuirá todos esses atributos e outros em que pretendo pensar enquanto escrevo e bebo e bebo e viajo. Acima de tudo, haverá de ser leal, partilhando comigo todos seus pensamentos, receios, vontades e paixões. (Taras, não, pois não as terá.) E, ia esquecendo, feminina. Saia será imprescindível. (Não há maior demonstração de bom-gosto.) Um dedo acima do joelho, deixando à mostra as pernas sensualmente robustas e possantes e ao mesmo tempo esguias e bem-plantadas qual as duma égua, para deleite dos meus conhecidos. (Amigos ainda não os tenho, mas tenciono incluí-los no meu projeto.) Não concebo mulher de calças compridas, que são acintosas. O uso de calcinha será facultativo. Maquiagem, obrigatória. Poderá cobrir os lábios carnudos com um batom vermelho-carmim, mas nos pomos aplicará um pó-de-arroz suave, em tom de maçã frutificada no outono que não lhe realce demais a sensualidade nem evoque possibilidades ambíguas. Virgindade, dispenso — nada mais sacal que mulher virgem. (As virgens que conheci — falando nisso, conheci um montão delas, como pode? — eram, noto hoje, todas doentes. E singulares, mesmo antigamente, quando não se fornicava desbragadamente como hoje.) Pode até ser e/ou ter sido um tantinho promíscua, bem familiarizada com a genitalidade e os incontornáveis requisitos carnais de um homem. (Foram raras as mulheres que souberam me agradar sexualmente. Quando não era impotente, eu não dispensava uma massagem na próstata, pedindo à parceira que me introduzisse no reto o dedo indicador ou um dos dildos da minha coleção.) O ideal é um misto de pureza e perversidade com uma pitada de sadismo piedoso e algo de masoquismo penitente. (Não se encontra em qualquer esquina, bem sei.) Faz tanto tempo que estou abstêmio, que hoje só idealizo os detalhes, sem uma memória clara deles. Quando Soninha disse que me queria, me ocorreu que não me recordava mais como era ter uma mulher nos braços, as posições de que mais gostava, aquela expressão maravilhosamente serena que elas fazem quando estão gostando, o semblante divino de deusa concupiscente, as obscenidades verbais que mais as embalam em seus diáfanos delírios de mulheres pragmáticas, essas cenas basilares na vida. Sem esses detalhes meio que perco a capacidade de fantasiar e me vejo solitário em meu teatrinho erótico-mental.