Amorokê na vila - Capítulo 019

Não somos mais que pó e sombra. 
Horácio, Odes, IV, vii, 16

Jorge me pagou o processo da Extratora adiantado, grana suficiente para dois anos sem luxo mas também sem penúria. Me deu um cheque do Itaú que descontei no banco e guardei a grana atrás da privada do banheiro que era da empregada. Não tenho conta.
Ele acaba de ligar, me xingando de cachorro filho-da-puta corno lazarento moleque duma figa.
Vou respondendo ahã, você tem razão, sou tudo isso e outras coisas. Deixo ele botar pra fora. Como já disse — se não disse, devia ter dito —, Jorge é meu único cliente. Não fosse por ele, eu estaria passando fome há anos. Por isso mesmo tenho de bancar o advogado-penélope, esticando o processo o máximo que puder — duvido que ele me dê um novo serviço depois desse.
Só que não peguei mais o processo depois que me propus a reorganizar os apontamentos e escrever o livro do escritor amigo do tal de Fred.
Já li uma boa parte e não me parece tão caótico quanto o tal de Fred pintou. É uma pena o cara ter se matado antes de consumar alguns trechos que são extraordinários. Esses, leio e releio hesitante se tenho estofo para continuar, tamanho o poder inicial de narração e tantas as potencialidades e alternativas  de desenvolvimento.
A maior dificuldade em achar um fio nas anotações é que o autor não designou nomes próprios a nada nem a ninguém. (Graças, não é uma narrativa impressionista sem pontos de vista, protagonistas ou registro do tempo, ou “espasmódico”, no dizer de Vargas Llosa.)
Logo na primeira folha o sujeito declara que não baseou sua narrativa na vida de ninguém, todos os personagens e fatos são fictícios e qualquer semelhança com pessoas e fatos existentes será mera coincidência.
Não, não desisti da tarefa ao ler tal banalidade. Em ”Tenho medo de virar fanático, Susan”, o primeiro livro que publiquei, fiz questão de omitir tal advertência e depois me arrependi. Vários conhecidos e parentes vieram perguntar se fulano no livro era fulano na vida real, se aquele professor safado sou eu, se a garota que foi trucidada no cortiço era a Maristela filha do Devanir e por aí afora. Um primo que eu não via tinha uns quinze anos me ligou zangado teimando que o pederasta que abusava de ninfetas era igualzinho a ele sem a pederastia. A esse, mandei ir tomar no rabo. Aos demais, me muni de paciência para explicar que ninguém era ninguém e nada era nada — tudo invencionice da minha destrambelhada cabeça. A maioria não acreditou.
Mas o que me deixou puto de verdade foram os comentários e as piadinhas sobre o título. Por que tinha Susan no título se ninguém no romance chamava Susan? Literatura moderna é assim, tentei me defender.
E por que eu tinha medo de virar fanático se sempre fui fanático desde criança? quiseram saber os mais chegados.
A esses não tive forças para contestar senão através dum vigoroso meneio da cabeça para me mostrar escandalizado ante tal desatino.
Quanto ao conteúdo literário propriamente dito, neres de pitibiriba. Esse é o maior problema duma edição doméstica. Os “leitores” se limitam a fuçar mexericos ou, inconfessamente, tentar descobrir se foram devidamente retratados sem os defeitos de caráter e os vexames que cometeram durante sua existência — não dão a mínima para o esforço do pobre autor.
Obviamente, a vida de qualquer pessoa, por mais trivial e previsível que seja, daria material para um ou mais romances. Só depende do talento do escritor. Por isso tenho algo de inveja dos biógrafos. Mesmo que o biografado seja um churchill ou um maníaco-do-parque, haja saco para levantar cada fato e feito do compadre, viajar milhares de quilômetros para entrevistar a corriola do cara, separar ficção e realidade, julgar o que é meramente estranho e o que é definitivamente fantasia duma testemunha e the eternal verities.
Voltando ao processo de que o Jorge me incumbiu.
Tenho nas mãos os autos que a procuradoria pública está movendo contra meu cliente em nome da mulher e dos sete filhos de Mariano M. Vieira. Vieira sofreu um acidente de trabalho e esticou as botas. A família pleiteia duas milhas de indenização.
Posso até pagar, Jorge grasna. Mas acabo com a raça desses filhos das putas.
Quer que eu alegue “coincidência”. Que o infeliz morreu por “merecimento”. Que os infelizes merecem.
O problema é que ele fala sério. Se não falasse, seria até viável. Nunca vi alguém odiar tanto a humanidade. Duas milhas para ele é troco. Não adianta argumentar que iremos ambos para a cadeia se fundamentarmos a defesa nesses termos. Tento explicar que ele poderia facilmente livrar a cara molhando a mão do juiz c'uns trinta, no máximo quarenta mil. Ele cospe no carpete da minha sala.
Nem sonhar. Prefiro dançar com a indenização e depois de um ano dar sumiço na ninhada. Não vou comprar juiz parasita nenhum. Incorporei essa empresa para investimento, esperava faturar o dobro, de repente me aparece esse processo trabalhista. Filhos das putas!
O relatório redigido pelo promotor do caso é o seguinte:
Em 11 de dezembro de 2005 houve um acidente nas instalações da Extratora Maizatto e Visollini, que é operada e de propriedade da Gravinhos Empreendimentos S.A., situada na altura do km 54 da via Dutra, a 4 km da rodovia, no município de Guarulhos. Na ocasião, as atividades técnicas desenvolvidas no local estavam sob a responsabilidade do gerente-geral Jorge Silva.
Como se sabe, nas proximidades do referido local passa o rio Paraíba. A Extratora Maizatto e Visollini havia se instalado à margem do rio para retirar areia e cascalho. O material coletado era então bombeado para caminhões de transporte a granel originários de várias partes da região, que atendiam à indústria da construção civil.
A mina de areia operava normalmente em turno de 8 horas/dia, durante cinco dias por semana. No total, empregava 25 pessoas. A última inspeção regular na operação fora conduzida em 2 de julho de 2004.
No dia do acidente, Mariano M. Vieira bateu cartão às 6:10 da manhã em ponto, horário normal de seu turno de trabalho. Assim que Vieira se apresentou, o encarregado de manutenção Vilson Ramos o chamou, juntamente com o mecânico João Pires de Souza, para que ambos reparassem as calhas de transporte de areia. Aproximadamente às 11:30 da manhã, quando os reparos solicitados tinham terminado, Ramos instruiu Vieira e Souza a consertarem a plataforma do sistema da supressão de poeira na área da planta.
Após o almoço, ao invés de executar a tarefa que o encarregado lhe passara, Vieira começou a substituir o motor de partida de uma empilhadeira que estava estacionada a apenas 2 metros do lago de extração de areia. Souza, por sua vez, foi reparar as lâmpadas de ré de um caminhão de caçamba aberta na entrada da planta. Para trocar o motor de partida, Vieira colocou um macaco tipo jacaré de dez toneladas sob a traseira da empilhadeira e levantou a máquina.
Eram aproximadamente meio-dia e trinta quando Carlitos Genésio e Amarildo Genésio, diretores da extratora, avistaram a empilhadeira na beira do lago e, estranhando, se aproximaram para verificar. Ali viram que o solo do local, constituído na maior parte de areia, cedera sob o peso do macaco e este se deslocara. Com isso, a empilhadeira cedera sob o próprio peso, esmagando o tórax de Vieira. Ambos se apressaram a corrigir a posição do macaco e introduzir um calço sob sua base para evitar o afundamento. Então, acionaram a ferramenta e ergueram a máquina. Na pressa e desespero para salvar o mecânico, eles acabaram por levantar demais a empilhadeira, que tombou para o lado oposto. A queda foi tão abrupta, que a máquina deslizou para dentro do lago. Preocupados em salvar mais uma vida humana do que um bem mateiral, Jorge e Brenda puxaram Vieira pelas pernas para longe da margem do rio e correram a chamar uma ambulância. Vieira foi levado a um hospital nas proximidades, onde deu entrada morto. O médico que o atendeu informou que a morte fora causada por esmagamento torácico.
Uma avaliação de riscos só foi conduzida no início dessa tarefa. Não se tomaram as medidas necessárias para identificar possíveis perigos. E não se executaram os devidos controles visando a eliminar os riscos envolvidos no trabalho debaixo de uma empilhadeira içada.
A Polícia Militar foi notificada do acidente às 14:45 da retro-referida data através de um telefonema anônimo oriundo de uma rua central da cidade de Guarulhos. Após acorrerem ao local e executarem os procedimentos policiais de praxe para aquele tipo de ocorrência, os PMs comunicaram a morte do mecânico Vieira ao posto do Ministério do Trabalho para que as autoridades trabalhistas dessem ao caso o trâmite previsto em lei. Em seguida, os policiais dirigiram-se ao 145º DP e notificaram o delegado-titular, o qual convocou àquele DP os diretores Carlitos Genésio e Amarildo Genésio, o encarregado de manutenção Vilson Ramos e o gerente-geral Jorge Silva para esclarecimentos. Antes de tudo, o delegado quis saber por que nenhum dos quatro havia informado a polícia sobre o ocorrido e, se um deles o fizera, por que o fizera anonimamente.
O sargento Orestes foi encarregado de redigir o relatório preliminar sobre o ocorrido. Orestes relatou os fatos desta forma:
“Mariano M. Vieira, mecânico, idade 35, sofreu um ferimento letal em 11 de dezembro de 2005 quando a empilhadeira em que estava trabalhando caiu sobre o tórax do mesmo. Vieira tinha se colocado sobre [sic] a empilhadeira para trocar o motor de partida. O acidente ocorreu porque a empilhadeira não estava nem calçada nem travada mecanicamente. Se estivesse, a queda teria sido evitada, com certeza. O macaco hidráulico que Vieira usou para levantar a máquina afundou alguns centímetros no solo de areia em que ele trabalhava e se deslocou, ocasionando o deslizamento e o esmagamento do peito da vítima.”
No mesmo dia o posto do Ministério do Trabalho instaurou um inquérito preliminar para cálculo das penalidades pecuniárias e trabalhistas que seriam impostas à extratora nos termos do Cap. XIX do Código 103(k) que rege as atividades de extração geológica e mineração do Estado de São Paulo. Os fiscais do MT visitaram o porto de extração e conduziram uma inspeção física do local do acidente. Entrevistaram os empregados que haviam presenciado e/ou acorrido ao local posteriormente ao acidente. E fizeram um levantamento preliminar das circunstâncias e dos procedimentos trabalhistas previstos relevantes.
 Paralelamente, o dr. Walter E. Duma, delegado titular da delegacia seccional encarregada do caso, abriu um inquérito policial para apuração de possíveis delitos penais.
Segundo os primeiros dados objetivos obtidos tanto pelo dr. Walter E. Duma quanto pelos inspetores trabalhistas, o acidente ocorrera numa área situada atrás de um galpão de manutenção onde todas as máquinas da extratora ficavam estacionados quando fora de serviço. As autoridades estranharam o fato de o mecânico Vieira ter levado a empilhadeira à área externa para efetuar a troca do motor de partida ao invés de fazê-lo dentro do galpão, que, obviamente, seria mais apropriado para a tarefa.
Uma peça de aço entre 17 e 18 cm de comprimento e 10 cm de diâmetro, com paredes de 3/8 cm de espessura foi localizada a mais ou menos 7 m à esquerda do ponto onde Vieira havia levantado a empilhadeira. Um pedaço de madeira de 29 cm de comprimento e 6 cm de largura foi localizado a aproximadamente 5 m do lado direito da empilhadeira. Essas duas peças eram usadas normalmente para calçar o chassi da empilhadeira durante serviços de manutenção. Ferramentas de mão e uma lanterna de eletricista foram encontradas nas proximidades de onde a máquina estava antes de deslizar para dentro do lago de extração de areia.
O dr. Walter E. Duma e os fiscais trabalhistas também apuraram que a empilhadeira envolvida no acidente fora alugada pela companhia a um distribuidor de equipamentos local. A empilhadeira, de ano de fabricação 2003, marca Hyster, modelo H50XM, tinha capacidade nominal de 5000 libras e centro de carga de 24 pol. Uma plaqueta no painel indicava: “ATENÇÃO! — Esta máquina deve ser usada apenas por operadores e mecânicos qualificados e treinados! — Leia o manual de operação antes de operar o equipamento!”.
Quando a empilhadeira foi retirada da água, o dr. Duma encontrou o manual em um compartimento na parte traseira externa do banco do operador. Por sorte, o manual estava acondicionado em sua capa plástica e fora poupado da ação deletéria da água poluída do rio.
O delegado dirigiu-se à sua viatura, sentou-se no capô e retirou o manual do invólucro. Antes de abrir na primeira folha, percebeu que uma das páginas estava marcada com um clipe de aço. Ele abriu o manual no clipe e começou a ler. Era uma lista de instruções sobre como levantar levantar as rodas da máquina para fins de manutenção e troca de componentes:
1) Aplicar o freio de estacionamento. Colocar calços em ambos os lados (parte dianteira e parte traseira) das rodas de tração para evitar que a empilhadeira se mova.
2) Com um macaco hidráulico, levantar as rodas de tração. O macaco deve ter capacidade de pelo menos 2/3 do peso total da empilhadeira, tal como indica a plaqueta de identificação.
3) Instalar o macaco sob o eixo de tração ou o chassi e levantar a empilhadeira. Colocar calços sob o chassi para sustentar a empilhadeira.
O contrapeso estava pendurado e fixado à traseira do chassi da máquina por um parafuso grande. O lado inferior do contrapeso estava inclinado 11,5 graus para cima desde as rodas traseiras até borda traseira da empilhadeira.
Os peritos constataram, com base na altura do solo traseiro, que o contrapeso estava a aproximadamente 6¾ cm do solo na traseira da empilhadeira. Posteriormente, essa distância caiu para menos de 5 cm no ponto mais próximo das rodas de tração.
O lado inferior do contrapeso era pintado e estava coberto com uma ligeira camada de poeira. Foram encontrados três riscos brilhantes na pintura, no lado inferior do contrapeso. A posição dos riscos no contrapeso indicava que o macaco tinha deslizado, saindo de posição e causando o deslocamento da enorme empilhadeira.
Ao ser removida do lago, a máquina estava com o freio de estacionamento aplicado. O freio de estacionamento foi submetido a um exame e considerado em perfeitas condições de funcionamento.
O macaco utilizado para levantar a empilhadeira era hidráulico, marca Grainger, modelo 5H09D, próprio para serviços de até 20 toneladas. A ferramenta foi testada e considerada em condições adequadas de uso. Era equipada com rodízios de aço industrial que facilitavam as manobras. Os rodízios dianteiros tinham aproximadamente 5 7/8 cm de diâmetro. O suporte tinha quatro “orelhas” (ou alças) de 1¼ X 3/8 cm colocadas a intervalos regulares em um círculo com diâmetro de 7 ¼ cm. Os pontos exteriores das orelhas adjacentes ficavam aproximadamente 4¼ cm distantes entre si. Quando o macaco estava inteiramente abaixado, o suporte ficava a aproximadamente 6 ½ cm acima do piso.
Um decalque no macaco indicava “Leia, compreenda e siga todas as instruções antes do uso. Esta ferramenta destina-se apenas a içamento. Imediatamente após o içamento, o veículo deve ser sustentado por cavaletes apropriados.”
O ponto inferior do macaco hidráulico Grainger era demasiadamente elevado para poder entrar sob o eixo de tração ou o chassi conforme as instruções do manual de operação. Não havia nenhum macaco hidráulico no porto de areia que fosse capaz de caber sob a empilhadeira nos pontos de içamento designados.
Vieira tinha 12 anos de experiência como operador e mecânico de fábrica. Recebera treinamento de acordo com 30 CFR, capítulo 46.
Foi conduzida uma análise da causa-raiz, identificando os seguintes fatores causais:
Fator causal um: as políticas, as normas e os controles eram inadequados. Como consequência, não foram implantados procedimentos apropriados de trabalho para assegurar a proteção dos operários na manutenção de empilhadeiras. O pessoal encarregado desse trabalho não era monitorado periodicamente de modo a garantir que as tarefas fossem conduzidas de acordo com as diretrizes do fabricante.
Fator causal dois: as políticas e os padrões da manutenção eram deficientes e não asseguravam que as ferramentas ou o equipamento apropriado fossem fornecidos e usados de acordo com a tarefa da reparação. O macaco disponível no local da mina não era compatível com o equipamento que estava sendo levantado.
CONCLUSÃO
Procedimentos, incluindo aqueles estabelecidos pelo fabricante de equipamento, devem ser executados para as avaliações dos riscos que identificam todos os perigos associados à manutenção e o reparo do equipamento móvel.
Análise do risco deve ser conduzida para discutir as etapas de trabalho e para assegurar a disponibilidade de ferramentas e equipamento apropriados. As diretrizes do fabricante devem ser observadas na execução de tarefas de manutenção. Os empregados devem ser monitorados periodicamente para assegurar o cumprimento seguro dos procedimentos de trabalho.
O acidente ocorreu porque os procedimentos usados para substituir o motor de partida eram inadequados. Não havia disponível um macaco do tamanho correto para alcançar os pontos necessários na empilhadeira. Os procedimentos para levantar a empilhadeira, relacionados no manual de operação, não foram seguidos, ou seja, nenhum dos lados da máquina haviam sido travados e nenhum cavalete fora colocado sob o chassi de modo a apoiar adequadamente a empilhadeira.

Ao lado do corpo de Vieira foi encontrado um exemplar do Manual do suicida.