Amorokê na vila - Capítulo 020


Tenho desprezo pela crítica e nojo do elogio 
Afonso, meu companheiro de copo

Uns três anos atrás Sílvia me pede para pegar o álbum, tivemos de vir à Aclimação.
Não tinha nenhum fotógrafo mais perto?
– É que estávamos na casa da Diane, então aproveitei, estava passando em frente, me toquei que tinha enfiado o rolo do filme na bolsa fazia duas semanas, todo dia ensaiando mas sempre sem tempo, faz isso por mim, benzinho.
Olho a boquinha falante, imagino a língua laboriosa, acedo, Sílvia ganha fácil, me orgulho da minha mulher, meus únicos bons momentos os passei com ela, o resto posso — quero — esquecer. Custa acreditar que ela deu mole, a musa da faculdade, nós cachorros famintos na caça virávamos bebês diante da deusa da caça, os caras da turma vidrados, um fez dezenas de canções que vivia cantando no ouvido dela entre aulas, ela ria, sem debochar, um riso magnânimo que nos punha em curto-circuito, outro escrevia poemas, dia após dia punha um dentro duma carta e enviava, um terceiro parou o carro na frente da casa dela e descarregou vinte dúzias de rosas, um quarto prometia que não ia sobreviver sem seu amor (há dois anos soube que esse se matou na Espanha, quem diria).
Meu coração também tinha sucumbido, mas guardando cautela, não por esperteza e sim porque eu não sabia demonstrar, aprendi a me esconder logo cedo, as poucas vezes que tentei ser sincero quebrei a cara, não foi coisa à-toa, fui ficando inseguro, sociofóbico, então o pessoal resolveu comemorar a formatura c’uma excursão pro Rio, digo vão vocês, queria ficar, atividade grupal não, viagem não, riso interior, esses caras estão delirando, a turma chiou, um disse que então também não iria, outro empacou, depois outro e outro, ninguém ia, formou-se a roda, vai na marra, exigiram, são só dois dias, não vai morrer, coro se formou contra minha débil resistência, mal-estar insuportável, aceitei para não ter de aturar o assédio. Não pode ser outra cidade? perguntei já sabendo a ideia que eles não iam topar, não, está decidido, sentenciaram, lá vamos todos pro inferno.
Fretaram três ônibus, fim de novembro, calor africano, o suor encharcando a camiseta sob a camisa e a cueca, cem por cento desconforto, algazarra, picardia dos caras, risinhos e censuras fingidas das meninas, dez minutos alguém tocava violão, começaram a cantar Chico, alguns tinham trazido baralho, alguém acendeu um baseado, uma das meninas estendeu um pedaço de bolo embrulhado num celofane, outra berrou querendo cerveja, outro coro, agora pro motorista parar num posto da estrada, o cara do violão começou a cantar Caetano, depois Milton, Gil, de repente o ônibus encostou e todos descemos e fomos para a lanchonete e pedimos latas e latas, atacaram de Mamas & Pappas, minha cabeça só pensando em bater no corrimão, outro gole na cerva, depois Beatles, Stones, Roberto, tentativas de reação suplantadas pela boca que sugava outro gole, o motorista apareceu e mandou que voltássemos pro ônibus, obedecemos cantando, mal sentamos dá-lhe maluco beleza, minha voz cantava mais alto que todas, alguém gritou que queria ir ao banheiro, todos imitaram, o motorista fazia que não, um ameaçou mijar pela janela, outro, ao nosso lado, lamuriava algo que eu não entendia bem, estava choramingando, uma hora lá disse tô fudido, essa vida é uma merda, fiquei em pé e minha garganta esgoelou se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, de repente o ônibus parou de novo, descemos, corremos para descarregar bexigas prestes a vazar, alguém comandou todos pro bar! lá fomos, camisa nova empapada de suor e cerveja, um começou a puxar Chão de estrelas, impressionante que todos soubessem a letra (GRANDE TRUNFO DO FRED É SABER A LETRA!), de repente sinto um apertão na coxa, olho de lado, Sílvia está sorrindo, abro os lábios num sorriso de volta, cantarolo eu vivia vestido, ela completa de dourado, retomo palhaço das, ela emenda perdidas ilusões, ela me puxa pelo pescoço e lasca um beijaço na minha boca, os guizos falsos de alegria à volta cessam instantaneamente, a sonoridade do viveiro se apaga, a língua de Sílvia me conduz por um paraíso bucal, num instante penso em cada um dos pretendentes, e outros, não vai ser fácil encarar o embaraço mas logo o cara do violão vem de Rita Lee, rua augusta, Tom, Sílvia solta meu pescoço para fazer o refrão vai minha tristeza e diga a ela que sem ela não pode ser, as mãos se fecham, os olhos grudam no rosto dela, não se movem enquanto voltamos pro ônibus, o cara que ocupava o assento ao lado foi sentar discretamente em outro banco, Sílvia sentou ao lado, agarrou minha mão, encostou os lábios na minha orelha e sussurrou que me amava fazia anos, olhei as luzes passando na estrada, os faróis e as lanternas dos carros, lembro com alguma clareza é que a palavra excursão passou a ter um significado absolutamente inédito, ainda hoje quando a leio sinto as pernas bambas, as rochas gigantescas da antiga amargura parecem se mover como se não tivessem peso e rolam pelas verdejantes encostas desta desconhecida montanha que depois vim a galgar brejeiro, leve como o ar, dois dias docemente letárgicos, hiato esvoaçante na viagem da vida.
Incessante algaravia até o destino que eu já tinha ultrapassado sem saber.