Amorokê na vila - Capítulo 023

Quer que eu responda? 
Pra escarnecer de novo? 
Vamos lá, escarneça! 
Gosto quando escarnecem de mim. 
Me dá um insight convulsivo, repelente, triunfal e frustrante, que engulo fervendo sem açúcar. 
São estranhas as sensações de que preciso, se quero sobreviver até amanhã cedo. 
Vamos! antes que eu esqueça, perca a vontade, ache melhor não, desista, decida que dar um tiro na cabeça seria mais conveniente. 

Anotação do escritor amigo do tal de Fred

Quando ouço Sílvia me chamar do portão da rua estou terminando um parágrafo que reescrevi umas vinte vezes até esquecer o que estava pensando. Desligo a máquina e vou atender.
Trouxe um presentinho, ela sorri jovial, parada na entrada do jardim, escuto a ode à alegria longínqua tocando de outra dimensão.
Tá vendo? ela escancara o sorriso, eu tenho o poder de abrir um sorriso nesse seu rosto sério.
Sinto minha boca se abrir voluntária num imenso sorriso e os dois rimos.
Tome. Ela enfia a mão numa sacola de shopping que está carregando. Baixa a cabeça pra enxergar, os cabelos lisíssimos castanhos claros deslizam por seu rosto, só a pontinha do nariz fica de fora.
Retira um cartão grande pardo da sacola e me estende. Apanho e olho. É um retrato feito a lápis. Sou eu olhando o horizonte com este meu rosto sério, um retrato a lápis, meu rosto sério.
Sinto a boca abrir ainda mais, será possível? Os traços são amadorísticos. Mas registram quase à perfeição meu arzinho/arzão introspectivo de quem está sempre seriamente zonzo, traços amadorísticos que registram quase à perfeição meu ar introspectivo seriamente zonzo.
Alegria, centelha de imortal chama, filha do Eliseu, ébrio de fogo, minha celeste, teu santuário me deixa invadir, me abriga fraterna sob essas tuas ternas, magnânimas asas.
Nesse instante me lembro vividamente do que estava pensando quando comecei a escrever aquele parágrafo que larguei pela metade. Preciso voltar à máquina e datilografar rápido, sei que não posso deixar o fiozinho evaporar, já passei tantas vezes por isso, depois fica um vazio terrível. Você quer desistir de algo que não sabe bem o que é, desistir não sabe bem de quê.
– Não estou atrapalhando, estou? — Sílvia diz, vendo que continuo imóvel, o olhar fixo no retrato.
Está, penso, está, finjo que digo para mim mesmo, acordando dessa letargia em que minha consciência costuma resvalar de minutos em minutos ao longo do dia. A hipótese de dar essa resposta à pergunta dela alimenta meu humor e sinto meu sorriso se manter. As piadas mais engraçadas são as que você faz com você mesmo.
Claro que não! minha voz diz, claro que não. Fazendo compras? indico a sacola pendurada na mão dela.
Uma brisa leve sopra soerguendo mechas dos cabelos lisíssimos. Nossos sorrisos prosseguem intactos. Só então noto que Sílvia está de óculos escuros. Enormes lentes negras a lhe cobrir totalmente os olhos.
Um milhão de pequeninos cantores de Viena entoam a ode a bordo dum trem aberto que serpeia pelas colinas do Kilimanjaro. No fim da estrada de ferro tem um hospital. No hospital está internado... Serei eu?
Estou indo pra praia. Vim assim de surpresa porque sei que você não vai se programar antes. Topa?
Olho pra rua, o Miata dela está parado diante do meu portão. Conversível. Estranho. Meio esportivo.
Tem um litro de Buchanan's e um balde de gelo no banco traseiro. Ela ri.
Rio junto.
A excursão à praia leva algumas horas, pode levar semanas. Semanas
Assim que chegarmos vamos até as rochas do outro lado do morro?
Estamos nos instalando nos bancos do Miata conversível.
Atrás da casa na praia tem um morro não muito alto que às vezes atravessamos pra atingir o mar do outro lado. É um lugar onírico, com ominosos rochedos de bilhões de anos açoitados por gigantescas, tenebrosas ondas.
O carro mal dá partida me viro para trás, apanho o Buchanan's e duas pedras de gelo, jogo dentro dum copo, fecho os olhos e sorvo, o líquido frio me invade a boca, o esôfago, o estômago, o mundo gira.
Estava quase cancelando a viagem. Meu pai ainda está no hospital, os médicos não descobriram a causa, os exames só ficam prontos na terça, então pensei, por que não dar uma escapadinha pra relaxar?
Trago cheio de consciência o copo aos lábios sorridentes, outra talagada, o uísque seca, só restam duas pedras de gelo em miniatura. Primeiros acordes da mazurca Opus 68. O uísque é efêmero. Pedras de gelo são efêmeras. Estou sentado numa mesa de bar entre deus e o diabo. Ambos vociferam, aparentemente tentando decidir quem me levará. Escuto sem dar importância a qual seria menos ruim pra minha própria pele.
Quando chegamos à casa estou bêbado, não tenho ideia de que lugar é este. Noturno em dó maior, apenas três acordes tocam, noturno em mi maior. Deus, meu garoto, põe o sol maior agora e sou teu.
Venha pra cama, ela me puxa pelo braço.Você precisa dormir.
Quero ir até as rochas, reclamo. Vir à praia sem ir até as rochas não é vir à praia.
Paramos no alto do rochedo maior. Nas sombras do crepúsculo o azulão do mar reverbera num lusco-fusco intrigante, as ondas lá em baixo vêm deslizando silentes até estufarem como que sopradas por pesadelos, desabando espalhafatosas sobre as pedras.
Algo quer me arrastar pra baixo. Tento livrar o braço, Sílvia não deixa, segura mais forte.
Se você cair... ela suplica.
A disputa por mim prossegue aos berros. Estou tranquilo. Estranhamente. Será a paz que antecede a morte?
Olho para ela, tenho certeza de que meu olhar está pesado de agradecimento. Se todos os ventiladores do mundo fossem ligados no mesmo instante pra criar a última tempestade. A entrada do hospital está apinhada de gente, custo a atravessar a multidão. Quando me vejo dentro noto minha camisa rasgada.
Ainda bem que você veio. Meu pai não passa desta noite.
O volume do noturno em sol maior ocupa o vácuo que toma conta do saguão de entrada.
Os últimos três dias foram cruéis. Finalmente está acabando.
Mesmo sob as notas doloridas do noturno ela murmura uma canção a que ele parece dormir sem sobressaltos. De minha parte eu poderia dizer que só me resta observar. Não digo. Me limito a erguer o copo, faço um brinde ao diabo.
Olha o retrato que desenhei. Sílvia mostra um cartão.
Hoje é segunda-feira, logo tudo estará terminado.
Suspiro forte, solto os braços. O macabro mar pisca seus imensos olhos me provocando. Escritores de antanho se intimidavam com a página em branco. Duma coisa tenho certeza: Schiller não conseguia molhar o bico de pena no tinteiro com rapidez suficiente pra registrar o jogo de xadrez alegre angustiado que disputava atônito e mudo consigo mesmo. Deus, obrigado. Sou todo teu, nada mais trago em mim de ambíguo ou irresoluto.
Quando acordar amanhã a primeira coisa que faço é acabar este maldito, este bendito parágrafo. Amanhã começarei uma nova vida, sei. A mão dela treme, um estertor talvez. No retrato na mão dela uma tempestade varre todas as coisas do mundo, as ondas lambem os nossos pés.
Não. Não é nada disso. Desisto. Aperto o botão e desligo a máquina antes de ceder à tentação de recomeçar e reescrever e voltar e voltar. Apanho minha maçã que sempre deixo de reserva no canto da mesa, meu único consolo neste vácuo em que flutuo e me perco. Mordo, dentada possante como as necessárias pra desvirginar a alva tez das maçãs, a casca crepita sob a força dos dentes, o sumo invade minha boca e me anestesia o paladar, meu refúgio neste epílogo a que vim me arrastando.
Alguns pontos de esperança bruxuleiam na página e se apagam num ultimato de que não sei aproveitar as chances que a vida teimosamente me oferece. Ela estava tão jovial, tão jovial, que não me ocorre outra palavra. A alegria tem esse nome porque é fugaz. Telefonei, deixei recado na secretária. Ela não respondeu. Faz mais de uma semana. Só me resta o noturno em mi bemol maior.


Amorokê na vila - Capítulo 022


For a minute the sky pours into the hole like plasma.
There is no hope, it is given up.

Sylvia Plath

Segundo contato com o Devedor (não sei se desejo outros).
Estamos aqui sentados neste maldito circular, o mané me alugando a orelha, uma ladainha de explicação por que gosta de andar de ônibus e deixa de gostar do cacete a quatro.
No primeiro, no penúltimo banco (e o segundo também foi), ele perguntou, depois que passei um pedido (exigiu mais detalhes do que podia imaginar):
A menina já sentiu gosto de sangue?
J-j-já. O fundo da garganta gaguejou, testa franzida. Na infância. Quando me arrancaram uns dentes de leite.
Não é esse que estou dizendo, ele quase suplicou. Me refiro ao sangue insólito. Estudado. Já frio daquele que agora é desconhecido. O não derramado na guerra.
N-nunca, gaguejei.
Então qualquer dia te puxo até o salão de sinuca depois do expediente pro nosso rito da Gororoba Carmesim. A menina vai ficar ligadinha. Garanto.
Então tá, minha voz aquiesceu, logrando certa autoridade.


Amorokê na vila - Capítulo 021


Hoy, con la primavera, 
soñé que un fino cuerpo me seguía 
cual dócil sombra. Era 
mi cuerpo juvenil, el que subía 
de tres en tres peldaños la escalera.

Antonio Machado

Hoje é quarta-feira, dia mais chato que folhinha de parede com alpes suíços. A menina que atende no balcão entra no salão de sinuca, me faz um sinal com as sobrancelhas e vai para o banheiro dos homens.
Já vou avisando: posso trabalhar para mulher mas não com mulher.
Tudo bem. É homem.
Quanto cobro.
Depende do bicho. Se não for com a cara dele, pode sair até na manha.
Olha, vou te confidenciar, meu estado permanente de mim nunca me deixou perceber muitas coisas. Ponho o dedinho na veia. Bombeando. Lateja que não é mole. Nem do mundo, nem das outras pessoas com quem tive o breve mas intolerável desprazer de conviver por algumas razões que não vêm ao caso, nem de mim mesmo. Por isso aprendi poucas coisas na vida. Entre essas poucas está a caganeira. Quando o bicho pulsa querendo estourar desse jeito, a coisa tá braba. Não adianta bufar nem morder o lábio quase até sangrar buscando resignação.
Por isso é que sempre digo que quem pensa que é hereditário se engana. Nesse aspecto cultivo até um certo nível de soberba. Lembro direitinho.
Descobri a veia na pré-adolescência. Estava sentado no sofá da sala olhando o teto como fazia todos os dias durante seis, quatro horas, mais chateado que pardal trancado na gaiola c’uma jaguatirica, quando pus um dedo embaixo do queixo e senti uma bombinha. Quase tomei um susto. Será o fim? Mas o sobressalto só durou uns três segundos. Melhor assim. Explodir e terminar essa merda duma vez. Sonhando, comecei a alisar sob o queixo, sentido o tuntuntum. De vez em quando apertava bem em cima dela com a ponta do dedo e segurava alguns instantes. É agora! Agora que vou acabar.
Embora tenha a cuca embotada, cedo deduzi que minha putice acabaria me deixando maluco. Até aí nenhum problema, pensava inocente. Pelo contrário. Acreditava que a combinação de putice e loucura daria um gostoso e frutífero casamento de sentimentos, sensações, emoções e pensamentos autodestrutivos e improváveis que a partir da lua-de-mel tentariam conviver em conflitos cada vez mais assoberbantes, até me levar ao Eu Supremo. Será a glória, antegozava abestalhado, sempre cada vez mais empurecido por estar tendo um prazerzinho que fosse, mesmo que antecipado.
Anoto o nome do bicho no meu bloquinho amarelo de capa de acrílico. Enfio o bloquinho no bolso da frente das calças.
Vem, vamos dar uma caminhada, não gosto de conversar com mulher no banheiro.
Saímos para a rua, olho para o céu, procurando um meteoro.
Um dia, sei lá quando, tinha uns sete, quatro anos, acordei estranho. Tudo bem, até hoje acordo estranho todo dia — e tem dia que a estranheza vai crescendo, crescendo até me deixar nesse meu estado quando chega a noite —, mas de todos meus dias estranhos aquele foi mais estranho que os outros.
Nenhum meteoro, pra variar. Pagava pra ver um do tamanho da Lua acachapando esta cidade e todos os filhos-da-puta que vivem aqui e este país e todo este mundo nascido duma esporrada de deus no rabo duma libélula gigante sem asas.
Mas meus horizontes não continuaram execravelmente alvissareiros por muito tempo. Depois de alguns dias em autoindulgência nauseante, uma nova dedução começou a tomar forma no fundo desta alma que não haverá de reencarnar. A dedução logo virou preocupação: e se aquilo que eu estava prevendo fugisse do meu controle por qualquer motivo e terminasse por me condenar a uma cela imunda no juqueri, minha indômita verve domada por quilos de gardenal e ansiolíticos, balbuciando versos de pessoa e suando baba feito uma estalactite banguela pondo pus pela boca gosmenta?
Tô amolecendo, certo. É a idade. Por isso peço: deus, só mais uma gota.
Tiro o bloquinho, olho de novo o nome desenhado na minha letrinha de mulher no papel amarelo.
Queria ver a cara dos bundões.
Vamos atravessar. Não gosto de andar deste lado.
Dobramos a esquina, avançamos uns três quarteirões como quem não quer nada, paramos no ponto. Cruzo os braços, reteso os ombros, crispo os punhos, preparado. A menina só fica lá em pé do meu lado.
Esperamos.
Tomara que seja o Geraldo. Mas se for o Chiquinho, tudo bem. Não faço muita conta.
Olha, nem precisa perguntar, sei que é estranho fazer reunião no quatrocentos e nove. Então vou lhe explicar.
Primeiro, não sou lá de topar novidade. Prum cabra feito eu, circular cai feito uma luva, tu há de concordar. Me faz bem pro fígado rever dia após dia as mesmas caras nas mesmas ruas e apreciar os aposentados e os vagabundos tomando sol nas mesmas esquinas.
Segundo, dentro do circular se aplica o mesmo princípio. Já fiz amizade com quase todos os motoristas. E com muitos dos passageiros também. Eis outra vantagem. Olha, pra falar a verdade, tenho um medo de cara nova que não sei bem explicar. Será doença?
O auge da humanidade foi a época dos dinossauros, quando a gente vivia sendo esmagada por chuvas de planetas na primavera, tempestades de meteoritos no verão, garoas de cometas no outono.
Pra que eu possa concluir minha missão.
Estremeço. Será o fim do doce estado furibundo a que me acostumei desde a mais tenra idade? Então, inefavelmente terno comigo mesmo, abandono o projeto. Não poderia correr o risco de perder toda a suculenta purice que este nefasto espírito-de-porco-espinho vinha paciente e diuturno cozinhando, puro de esperar a hora em que Ela finalmente maturaria, transbordando sôfrega pelas minha orelhas, escorrendo lascivamente pelo chão do quarto, se espalhando pela sala e pela cozinha, se infiltrando pelos vãos das portas e janelas, extravasando para a rua, ganhando corpo e consistência e cor e brilho, fluindo pelas estradas, inundando as cidades, até que tudo ficasse envolto num mar de purice apodrecida em que germinariam novos seres empurecidos putrefatos.
A veia dá uma latejada, só uma, pedindo carícia. Calma, neném, calma que o dia vai ser comprido feito o novelo emaranhado da passamanaria das ruas que já trilhei.
Começou antes de eu abrir os olhos. Olha, o que acontece dentro de mim antes de eu abrir os olhos dava uma bíblia. Claro, já me passou pela cabeça frita a ideia de escrever um livro chamado purildos-wake. Era um terremoto n’alma. Embora venha todas as manhãs e eu tente me precaver, nunca estou suficientemente preparado.
Eu sei, essa merda de pseudopoesia de segunda só serve pra me deixar — adivinhão — puronildo da silva. (Sobretudo quando começo a imitar um enteado fremente asqueroso professorzinho de bosta lambe-rabo-de-francesa-menstruada, aí que não caibo em mim.)
Circular à vista.
Deixo ela dar o sinal. Ergue o bracinho bem horizontal, esticado, o indicador apontando o horizonte, como devem ser os sinais. Essa leva jeito.
Que pena, não é o Geraldo.
Eta ferro, motorista novo. Subimos, baixo a cabeça pra não olhar. É hoje.
Achamos um banco vazio, sentamos.
Fecho os olhos.
Cedo aprendi um macete com que contava afastar o perigo de acabar inapelavelmente de frente comigo mesmo numa vasta noite soterrada sob o silêncio.
Puralhaço. Purirífico. Purirívago. Purãozudo.
Aos oito ou onze anos matava aula pra passear no circular. E, tal como todas as grandes descobertas da humanidade, essa também se me ocorrera fortuitamente.
Era uma das várias excursões que aprendi a fazer ainda pequeno. No começo pegava o primeiro ônibus que passasse. Foi há uns sete anos ou onze dias. Meu intestino estava ficando preso por períodos cada vez mais prolongados. Não era recente, só que... só que nos últimos tempos a coisa tava calando mais fundo, se é que me entende. A maioria dos motoristas não deixava.
Me mandavam descer quando percebiam que eu tinha ido fazer excursão. Depois de alguns dias consegui descobrir um que não ligava. Ficamos amigos um pouco. O único amigo que já tive. Só podia ser por causa dessa porra de querer ser o tempo todo, claro. Isso e o hábito que eu vinha adquirindo havia alguns meses de engolir pimenta malagueta de manhã, à tarde e à noite pra que meu mundo ficasse um pouco mais do que já era.
É assim. Primeiro começam a aparecer umas lembranças indesejáveis. Não tenho uma que não seja, certo, mas aquele dia vi — tudo bem, minhas pernas ficaram meio moles — que não ia ser fácil. Você sabe, o maior estanca-cu que existe no mundo é a pimenta malagueta. Se tu tá com diarreia, manda ver. Tiro-e-queda, nas originais palavras da minha mãe, a purelda, que, graças, morreu quando eu nasci. Então como sei que ela dizia tiro-e-queda? Cátso, por que não haveria de dizer?
Outra excursão que fazia ainda nos tempos da escola era ir na casa da gorda tomar cerveja. Eu, Japa, Alemão. A gorda dava um copo de cerva pra cada um de nós toda vez que íamos lá deixar ela chupar nossa pica. Pena que as rolinhas são tão pititicas!, ela reclamava rindo enquanto batia punheta em nós três, um de cada vez, pois usava as duas mãos, uma trompeteando a rola, a outra sovando o saco e garroteando a base do pinto.
A, aquilo que era punheta. Comparando, as outras pareciam a camille-palha dando um bloujob na mesa do legista.
Umazinha chocha, outra como quem não quer nada. Eu só assistindo, mudo, numa de estoico. Japa e Alemão tagarelando um com o outro, um papo-furado sem fim feito comercial de desodorante, eu queria enfiar uma banana de dinamite em cada orelha e acender com uma tocha de acetileno, sem prestar atenção no que o outro diz, não me deixam também prestar atenção. Nessa época minhas prisões-de-ventre eram sobremaneira atrozes, embora no início tivessem sido um bom auxílio pra extinguir qualquer possibilidade de conforto que pudesse passar pela minha enorme pesada cabeça cheia de cancros — as prisões-de-ventre e outros subterfúgios que devagarinho fui aprendendo a usar contra mim mesmo, dos quais falarei alhures se tiver tempo —, bem, minhas prisões-de-ventre estavam se esticando cada vez mais.
A gorda era uma turca fedida. Turca e fedida no duro, aca de camela inchada do sêmen do harum-al-rachid. Pesava uns 147 quilos. Vivia implorando que lhe comêssemos a buceta. Eu virava a cara, enojado. Se comêssemos, dava mais um copo. Na próxima, tergiversávamos. De tanto ela encher o saco, um dia o babaquara do Alemão topou. Subiu encima da pantagruela e dá-lhe saracoteio. De repente o fardo de banha guinou o corpanzil, caindo por cima do sorongo e desatando a estrebuchar epiléptica. O aparvalhado começou a gritar me-acuda. Eu e o do Japa tentamos desmontar a baleia de sobre o pongó, sem êxito.
De oito ou dois dias no início, as prisões-de-ventre logo passaram a quatro semanas ou dez minutos. Se antes eu lograva diluir discreta e satisfatoriamente os efeitos da flatulência dando curtos e dissimulados passeios no quintal antes de me recolher ou, quando não era possível me isolar de outras pessoas a distância prudente, apelando a truques como fingir limpar um pigarro ou, dependendo do volume que sentia acumular no abdômen, ter logo um acesso de tosse, assim que tinham início os inexoráveis peidinhos — e você não pode imaginar quão difícil é tossir e exalar puns sincronizadamente, agora meu ventre produzia mais gás metano que mina boliviana, que liberava para a atmosfera feito um ônibus diesel da linha largo-paissandu-vila-sônia. Sou o que sou, não nego, mas impolido não. Ainda mais quando se trata de singelas manifestações das nossas insondáveis entranhas. Bem, o troço começou a durar nove meses, cinco anos, sete segundos.
Já viu buceta de turca obesa? Nem queira.
Japa trepou nas costas da búfala e começou a cavalgar, gritando eia-eia-eia! Alemão tava inteirinho roxo, mais um pouco já era. Enfadado, decidi ir embora, quando me ocorreu que a Conceição, mãe do Alemão, provavelmente deixaria de me dar o rabo se ele morresse sem uma explicação plausível. Eu vinha comendo a coroa fazia uns três dias ou cinco semanas, desde o dia do meu décimo-sétimo aniversário. Foi a primeira mulher casada que tracei. Depois dela todas minhas transas tinham de ser com dona corneando o marido. Conceiçãozinha era especial. Cabelinho castanho curto, franjinha no meio da testa, tetinhas salientes espevitadas cônicas prontas pra explorar o espaço celeste, biquinhos de sensibilidade instantânea, era só me ver saltavam louquinhos pedindo me-chupa! Mas o mecanismo supremo era a boquinha. Abocanhava minha rola e não largava enquanto eu não enchesse ela de porra, que ela não deixava escapar um pingo com linguão de sapa. Tem vitamina, a coroinha ria, engolindo. Eu parava em frente a porta dela e berrava Alemão! Alemão! Ele tá na escola, Conceição berrava lá de dentro. Mas entra pra tomar um guaraná. Entrava. E saía pouco antes d’Alemão voltar da escola.
Lembrei dum filme que meu irmão tinha comentado. Mesmo não vendo a mínima grança em cinema, fui no quintal, peguei um rodo, fui na geladeira, besuntei o cabo do rodo com margarina, voltei pro quarto e fiz sinal pro Japa pascacito abrir a bunda da capivara. Me afastei um metro, mirei e arremeti. O cabo entrou que foi uma seda. A leitoa ergueu a cabeça e os braços, berrando, gozei! gozei!
Se quer saber, não há maior martírio. Embora fique bonito, certo, os pensamentos começam a dançar ainda mais confusos do que já são, você perde qualquer agilidade que tenha, os movimentos se deixam suplantar por uma lerdeza asfixiante, não dá nem mais vontade de falar. Minha barriga começou a expandir, olhar, expandir, escutar, expandir, cheirar.
Quando me toquei já parecia não um homem mas um genuíno caroço ambulante. Quase comecei a mudar de mim. Se não resolver, pensava, logo vou fazer quatro anos sem cagar feito um filho-duma-alpaca e vou ficar mais chato que sonhar com coceira. Quatro anos não cagando sem parar. Suspendi a malagueta, sem êxito. Parei de tomar guaraná com canudinho. Nada.
Os pares de lembranças indesejáveis viram trios. Logo quádruplas. Eu só olhando, tímido geométrico como sempre fui. Quando resolvo sair do estoicismo é tarde. Estão dançando quadrilha à minha volta. Tagarelando, batendo palmas, tagarelando, socando os pés, tagarelando.
Sabe o que é o melhor de tudo na minha vida?
É este meu estado permanente de empurado.
Mas às vezes vacilo. Vem a vontade de dizer chega. Quem já teve vontade de dizer chega sabe. Também não se explica.
Certo dia, já adulto me deu uma fina saudade sem mais nem menos e voltei na casa da turcona. Levei a peixeira, por via das dúvidas. Não por causa duma possível reação dela. Mas minha. Naquele tempo eu andava taciturno e quando ando taciturno começo a querer ficar imprevisível. Desci no ponto e cheguei direitinho. Eu mesmo vivo me espantando com essa minha memória geográfica mecânica. Quando se trata de endereço, então é infalível. Lembro mais que o proust criado sob doses cavalares de biotônico-fontoura.
Ninguém me deve comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes. Ninguém me deve porra nenhuma. Tá ouvindo? Porra nenhuma. Por isso sou muito mais o que sou.
Pena que seja só na geografia. O resto, esqueço tudo. Exagero não. Esqueci como era meu pai, meus irmãos. Esses, lembro que os tinha, mas não quantos.
Pronto.
Chegamos.
Descemos. Não olho de novo pro motorista, nem de esguelha. Vai ser duro me acostumar.
Senhor, vos suplico: só mais uma gotinha.
Os cachorros, esqueci todos. As estações do ano. As flores. Os sabões em pó. Os tipos de comida. Qual presidente se matou cum tiro. A função do estômago. Se Hitler ganhou a guerra. Pra que usar roupa. Quando andei de esputinique a última vez. Mas consigo fazer um exercício que ninguém consegue — esquecer o dia em que comemoravam os meus anos. É só querer, pronto, tá esquecido. Dura algumas horas. Se você perguntar o dia dos meus anos logo depois do exercício, digo que não lembro. Ninguém acredita, claro. Respondem — compreensivelmente, creio — que é truque. Mas não é.
Não é. Muito Mais.
Começa o tremor. Incomodozinho chato, faço de conta que não sinto.
Enquanto voltamos os três quarteirões, antes de entrarmos, me achegar ao balcão, o dono servir um pingado a um freguês cretino, eu fazer um tique com a cabeça e ele responder com outro, depois de atender o cretino do freguês e vir pro meu lado, eu pedir um pingado e ele servir e dizer que é por conta da casa, a menina se enfiar atrás do balcão, passar pelo dono e sumir por uma porta nos fundos, vou falando assim meio a esmo.
Depois de muitos, muitos anos, voltei lá.
Cheguei, fiquei um tempão parado diante do cortiço, olhando. Não tinha mudado porra nenhuma. Sem portão como naquele tempo, gritaria embriagada de querer um tiro de calmante na medula, sotaques de cada rincão do meu alheio nordeste, cheiros mais vários que a escala infinita do jardim da via láctea, fios d’água multicor borbulhante rala e turva descendo inexoráveis paralelos pelo quintal de terra batida para desaguar nalgum buraco negro fantasmagórico, tudo camuflado pelo tropel de varais embarrigados dando uma banana à lei da gravidade.
Vou até a penúltima porta. A porta está aberta. Bato palmas. Sim, sou o que sou. Menos intrujão.
Viro de novo. Fico olhando. Olhando, não estudando. Nunca gostei de estudar.
Uma menina d’uns doze anos enfia a cara pela cortina de plástico.
A gorda está, pergunto.
Aliso o cabo da peixeira.
Ela faz que não.
Vá chamar sua mãe.
Meio metro de lâmina de ferro mole, mais afiada que a língua do oscar-wilde depois de levar corno de estivador.
Que é, a mãe aparece já querendo saber. Cabelão escorrido ensebado multicor espanta-olhos roçando no ombro. Tetões escorridos dentro da blusa de pano. Que fizeram com teus biquinhos, santa-maria? Cearense, pergunto.
Ce sabe, aço não pega fio. Cabo de madrepérola ornado com pedrinhas de rubi e esmeralda. Bom-gosto não é o meu forte, certo.
Não erro uma. Pode pôr aí pernambucano, cearense, piauiense, maranhense, sergipano, baiano, potiguar, tudo enfileirado de banda e me vedar os olhos. Basta um grunhido. Acerto na pimba. Aposto. Menos caixa de cerveja, que não bebo nada com gás.
A gorda ainda mora aqui, pergunto. Não sinhô. A boquinha elástica miraculosa virou murcha e informe e escalavrada. A anti-ereção final.
Mudou, pergunto. Morreu. Faz tempo. Três, onze, cinco meses. De quê. De cabo de rodo. Uma sangreira que só vendo.
Sou o que sou e também jeca, que hei de fazer wladimir-meu-véio. Comprimo a mão cerrada em volta do cabo espremendo com tudo que posso mas não a ponto de permitir que meu rosto expresse que estou me esforçando. Sinto rubizinhos e esmeraldinhas entrando na pele. Depois que passa, meu maior barato é ficar olhando as marcas das pedrinhas na palma da mão.
Tô ficando velho, tendência a esmorecer. Não é só força de expressão. A Tendência-A-Esmorecer me puxa pela perna. Você se achava o gostosão, dono do autocontrole, de repente a capacidade de empurecer falha, navalha, farfalha pífio feito um relâmpago de 40 velas. 


Amorokê na vila - Capítulo 020


Tenho desprezo pela crítica e nojo do elogio 
Afonso, meu companheiro de copo

Uns três anos atrás Sílvia me pede para pegar o álbum, tivemos de vir à Aclimação.
Não tinha nenhum fotógrafo mais perto?
– É que estávamos na casa da Diane, então aproveitei, estava passando em frente, me toquei que tinha enfiado o rolo do filme na bolsa fazia duas semanas, todo dia ensaiando mas sempre sem tempo, faz isso por mim, benzinho.
Olho a boquinha falante, imagino a língua laboriosa, acedo, Sílvia ganha fácil, me orgulho da minha mulher, meus únicos bons momentos os passei com ela, o resto posso — quero — esquecer. Custa acreditar que ela deu mole, a musa da faculdade, nós cachorros famintos na caça virávamos bebês diante da deusa da caça, os caras da turma vidrados, um fez dezenas de canções que vivia cantando no ouvido dela entre aulas, ela ria, sem debochar, um riso magnânimo que nos punha em curto-circuito, outro escrevia poemas, dia após dia punha um dentro duma carta e enviava, um terceiro parou o carro na frente da casa dela e descarregou vinte dúzias de rosas, um quarto prometia que não ia sobreviver sem seu amor (há dois anos soube que esse se matou na Espanha, quem diria).
Meu coração também tinha sucumbido, mas guardando cautela, não por esperteza e sim porque eu não sabia demonstrar, aprendi a me esconder logo cedo, as poucas vezes que tentei ser sincero quebrei a cara, não foi coisa à-toa, fui ficando inseguro, sociofóbico, então o pessoal resolveu comemorar a formatura c’uma excursão pro Rio, digo vão vocês, queria ficar, atividade grupal não, viagem não, riso interior, esses caras estão delirando, a turma chiou, um disse que então também não iria, outro empacou, depois outro e outro, ninguém ia, formou-se a roda, vai na marra, exigiram, são só dois dias, não vai morrer, coro se formou contra minha débil resistência, mal-estar insuportável, aceitei para não ter de aturar o assédio. Não pode ser outra cidade? perguntei já sabendo a ideia que eles não iam topar, não, está decidido, sentenciaram, lá vamos todos pro inferno.
Fretaram três ônibus, fim de novembro, calor africano, o suor encharcando a camiseta sob a camisa e a cueca, cem por cento desconforto, algazarra, picardia dos caras, risinhos e censuras fingidas das meninas, dez minutos alguém tocava violão, começaram a cantar Chico, alguns tinham trazido baralho, alguém acendeu um baseado, uma das meninas estendeu um pedaço de bolo embrulhado num celofane, outra berrou querendo cerveja, outro coro, agora pro motorista parar num posto da estrada, o cara do violão começou a cantar Caetano, depois Milton, Gil, de repente o ônibus encostou e todos descemos e fomos para a lanchonete e pedimos latas e latas, atacaram de Mamas & Pappas, minha cabeça só pensando em bater no corrimão, outro gole na cerva, depois Beatles, Stones, Roberto, tentativas de reação suplantadas pela boca que sugava outro gole, o motorista apareceu e mandou que voltássemos pro ônibus, obedecemos cantando, mal sentamos dá-lhe maluco beleza, minha voz cantava mais alto que todas, alguém gritou que queria ir ao banheiro, todos imitaram, o motorista fazia que não, um ameaçou mijar pela janela, outro, ao nosso lado, lamuriava algo que eu não entendia bem, estava choramingando, uma hora lá disse tô fudido, essa vida é uma merda, fiquei em pé e minha garganta esgoelou se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, de repente o ônibus parou de novo, descemos, corremos para descarregar bexigas prestes a vazar, alguém comandou todos pro bar! lá fomos, camisa nova empapada de suor e cerveja, um começou a puxar Chão de estrelas, impressionante que todos soubessem a letra (GRANDE TRUNFO DO FRED É SABER A LETRA!), de repente sinto um apertão na coxa, olho de lado, Sílvia está sorrindo, abro os lábios num sorriso de volta, cantarolo eu vivia vestido, ela completa de dourado, retomo palhaço das, ela emenda perdidas ilusões, ela me puxa pelo pescoço e lasca um beijaço na minha boca, os guizos falsos de alegria à volta cessam instantaneamente, a sonoridade do viveiro se apaga, a língua de Sílvia me conduz por um paraíso bucal, num instante penso em cada um dos pretendentes, e outros, não vai ser fácil encarar o embaraço mas logo o cara do violão vem de Rita Lee, rua augusta, Tom, Sílvia solta meu pescoço para fazer o refrão vai minha tristeza e diga a ela que sem ela não pode ser, as mãos se fecham, os olhos grudam no rosto dela, não se movem enquanto voltamos pro ônibus, o cara que ocupava o assento ao lado foi sentar discretamente em outro banco, Sílvia sentou ao lado, agarrou minha mão, encostou os lábios na minha orelha e sussurrou que me amava fazia anos, olhei as luzes passando na estrada, os faróis e as lanternas dos carros, lembro com alguma clareza é que a palavra excursão passou a ter um significado absolutamente inédito, ainda hoje quando a leio sinto as pernas bambas, as rochas gigantescas da antiga amargura parecem se mover como se não tivessem peso e rolam pelas verdejantes encostas desta desconhecida montanha que depois vim a galgar brejeiro, leve como o ar, dois dias docemente letárgicos, hiato esvoaçante na viagem da vida.
Incessante algaravia até o destino que eu já tinha ultrapassado sem saber.


Amorokê na vila - Capítulo 019

Não somos mais que pó e sombra. 
Horácio, Odes, IV, vii, 16

Jorge me pagou o processo da Extratora adiantado, grana suficiente para dois anos sem luxo mas também sem penúria. Me deu um cheque do Itaú que descontei no banco e guardei a grana atrás da privada do banheiro que era da empregada. Não tenho conta.
Ele acaba de ligar, me xingando de cachorro filho-da-puta corno lazarento moleque duma figa.
Vou respondendo ahã, você tem razão, sou tudo isso e outras coisas. Deixo ele botar pra fora. Como já disse — se não disse, devia ter dito —, Jorge é meu único cliente. Não fosse por ele, eu estaria passando fome há anos. Por isso mesmo tenho de bancar o advogado-penélope, esticando o processo o máximo que puder — duvido que ele me dê um novo serviço depois desse.
Só que não peguei mais o processo depois que me propus a reorganizar os apontamentos e escrever o livro do escritor amigo do tal de Fred.
Já li uma boa parte e não me parece tão caótico quanto o tal de Fred pintou. É uma pena o cara ter se matado antes de consumar alguns trechos que são extraordinários. Esses, leio e releio hesitante se tenho estofo para continuar, tamanho o poder inicial de narração e tantas as potencialidades e alternativas  de desenvolvimento.
A maior dificuldade em achar um fio nas anotações é que o autor não designou nomes próprios a nada nem a ninguém. (Graças, não é uma narrativa impressionista sem pontos de vista, protagonistas ou registro do tempo, ou “espasmódico”, no dizer de Vargas Llosa.)
Logo na primeira folha o sujeito declara que não baseou sua narrativa na vida de ninguém, todos os personagens e fatos são fictícios e qualquer semelhança com pessoas e fatos existentes será mera coincidência.
Não, não desisti da tarefa ao ler tal banalidade. Em ”Tenho medo de virar fanático, Susan”, o primeiro livro que publiquei, fiz questão de omitir tal advertência e depois me arrependi. Vários conhecidos e parentes vieram perguntar se fulano no livro era fulano na vida real, se aquele professor safado sou eu, se a garota que foi trucidada no cortiço era a Maristela filha do Devanir e por aí afora. Um primo que eu não via tinha uns quinze anos me ligou zangado teimando que o pederasta que abusava de ninfetas era igualzinho a ele sem a pederastia. A esse, mandei ir tomar no rabo. Aos demais, me muni de paciência para explicar que ninguém era ninguém e nada era nada — tudo invencionice da minha destrambelhada cabeça. A maioria não acreditou.
Mas o que me deixou puto de verdade foram os comentários e as piadinhas sobre o título. Por que tinha Susan no título se ninguém no romance chamava Susan? Literatura moderna é assim, tentei me defender.
E por que eu tinha medo de virar fanático se sempre fui fanático desde criança? quiseram saber os mais chegados.
A esses não tive forças para contestar senão através dum vigoroso meneio da cabeça para me mostrar escandalizado ante tal desatino.
Quanto ao conteúdo literário propriamente dito, neres de pitibiriba. Esse é o maior problema duma edição doméstica. Os “leitores” se limitam a fuçar mexericos ou, inconfessamente, tentar descobrir se foram devidamente retratados sem os defeitos de caráter e os vexames que cometeram durante sua existência — não dão a mínima para o esforço do pobre autor.
Obviamente, a vida de qualquer pessoa, por mais trivial e previsível que seja, daria material para um ou mais romances. Só depende do talento do escritor. Por isso tenho algo de inveja dos biógrafos. Mesmo que o biografado seja um churchill ou um maníaco-do-parque, haja saco para levantar cada fato e feito do compadre, viajar milhares de quilômetros para entrevistar a corriola do cara, separar ficção e realidade, julgar o que é meramente estranho e o que é definitivamente fantasia duma testemunha e the eternal verities.
Voltando ao processo de que o Jorge me incumbiu.
Tenho nas mãos os autos que a procuradoria pública está movendo contra meu cliente em nome da mulher e dos sete filhos de Mariano M. Vieira. Vieira sofreu um acidente de trabalho e esticou as botas. A família pleiteia duas milhas de indenização.
Posso até pagar, Jorge grasna. Mas acabo com a raça desses filhos das putas.
Quer que eu alegue “coincidência”. Que o infeliz morreu por “merecimento”. Que os infelizes merecem.
O problema é que ele fala sério. Se não falasse, seria até viável. Nunca vi alguém odiar tanto a humanidade. Duas milhas para ele é troco. Não adianta argumentar que iremos ambos para a cadeia se fundamentarmos a defesa nesses termos. Tento explicar que ele poderia facilmente livrar a cara molhando a mão do juiz c'uns trinta, no máximo quarenta mil. Ele cospe no carpete da minha sala.
Nem sonhar. Prefiro dançar com a indenização e depois de um ano dar sumiço na ninhada. Não vou comprar juiz parasita nenhum. Incorporei essa empresa para investimento, esperava faturar o dobro, de repente me aparece esse processo trabalhista. Filhos das putas!
O relatório redigido pelo promotor do caso é o seguinte:
Em 11 de dezembro de 2005 houve um acidente nas instalações da Extratora Maizatto e Visollini, que é operada e de propriedade da Gravinhos Empreendimentos S.A., situada na altura do km 54 da via Dutra, a 4 km da rodovia, no município de Guarulhos. Na ocasião, as atividades técnicas desenvolvidas no local estavam sob a responsabilidade do gerente-geral Jorge Silva.
Como se sabe, nas proximidades do referido local passa o rio Paraíba. A Extratora Maizatto e Visollini havia se instalado à margem do rio para retirar areia e cascalho. O material coletado era então bombeado para caminhões de transporte a granel originários de várias partes da região, que atendiam à indústria da construção civil.
A mina de areia operava normalmente em turno de 8 horas/dia, durante cinco dias por semana. No total, empregava 25 pessoas. A última inspeção regular na operação fora conduzida em 2 de julho de 2004.
No dia do acidente, Mariano M. Vieira bateu cartão às 6:10 da manhã em ponto, horário normal de seu turno de trabalho. Assim que Vieira se apresentou, o encarregado de manutenção Vilson Ramos o chamou, juntamente com o mecânico João Pires de Souza, para que ambos reparassem as calhas de transporte de areia. Aproximadamente às 11:30 da manhã, quando os reparos solicitados tinham terminado, Ramos instruiu Vieira e Souza a consertarem a plataforma do sistema da supressão de poeira na área da planta.
Após o almoço, ao invés de executar a tarefa que o encarregado lhe passara, Vieira começou a substituir o motor de partida de uma empilhadeira que estava estacionada a apenas 2 metros do lago de extração de areia. Souza, por sua vez, foi reparar as lâmpadas de ré de um caminhão de caçamba aberta na entrada da planta. Para trocar o motor de partida, Vieira colocou um macaco tipo jacaré de dez toneladas sob a traseira da empilhadeira e levantou a máquina.
Eram aproximadamente meio-dia e trinta quando Carlitos Genésio e Amarildo Genésio, diretores da extratora, avistaram a empilhadeira na beira do lago e, estranhando, se aproximaram para verificar. Ali viram que o solo do local, constituído na maior parte de areia, cedera sob o peso do macaco e este se deslocara. Com isso, a empilhadeira cedera sob o próprio peso, esmagando o tórax de Vieira. Ambos se apressaram a corrigir a posição do macaco e introduzir um calço sob sua base para evitar o afundamento. Então, acionaram a ferramenta e ergueram a máquina. Na pressa e desespero para salvar o mecânico, eles acabaram por levantar demais a empilhadeira, que tombou para o lado oposto. A queda foi tão abrupta, que a máquina deslizou para dentro do lago. Preocupados em salvar mais uma vida humana do que um bem mateiral, Jorge e Brenda puxaram Vieira pelas pernas para longe da margem do rio e correram a chamar uma ambulância. Vieira foi levado a um hospital nas proximidades, onde deu entrada morto. O médico que o atendeu informou que a morte fora causada por esmagamento torácico.
Uma avaliação de riscos só foi conduzida no início dessa tarefa. Não se tomaram as medidas necessárias para identificar possíveis perigos. E não se executaram os devidos controles visando a eliminar os riscos envolvidos no trabalho debaixo de uma empilhadeira içada.
A Polícia Militar foi notificada do acidente às 14:45 da retro-referida data através de um telefonema anônimo oriundo de uma rua central da cidade de Guarulhos. Após acorrerem ao local e executarem os procedimentos policiais de praxe para aquele tipo de ocorrência, os PMs comunicaram a morte do mecânico Vieira ao posto do Ministério do Trabalho para que as autoridades trabalhistas dessem ao caso o trâmite previsto em lei. Em seguida, os policiais dirigiram-se ao 145º DP e notificaram o delegado-titular, o qual convocou àquele DP os diretores Carlitos Genésio e Amarildo Genésio, o encarregado de manutenção Vilson Ramos e o gerente-geral Jorge Silva para esclarecimentos. Antes de tudo, o delegado quis saber por que nenhum dos quatro havia informado a polícia sobre o ocorrido e, se um deles o fizera, por que o fizera anonimamente.
O sargento Orestes foi encarregado de redigir o relatório preliminar sobre o ocorrido. Orestes relatou os fatos desta forma:
“Mariano M. Vieira, mecânico, idade 35, sofreu um ferimento letal em 11 de dezembro de 2005 quando a empilhadeira em que estava trabalhando caiu sobre o tórax do mesmo. Vieira tinha se colocado sobre [sic] a empilhadeira para trocar o motor de partida. O acidente ocorreu porque a empilhadeira não estava nem calçada nem travada mecanicamente. Se estivesse, a queda teria sido evitada, com certeza. O macaco hidráulico que Vieira usou para levantar a máquina afundou alguns centímetros no solo de areia em que ele trabalhava e se deslocou, ocasionando o deslizamento e o esmagamento do peito da vítima.”
No mesmo dia o posto do Ministério do Trabalho instaurou um inquérito preliminar para cálculo das penalidades pecuniárias e trabalhistas que seriam impostas à extratora nos termos do Cap. XIX do Código 103(k) que rege as atividades de extração geológica e mineração do Estado de São Paulo. Os fiscais do MT visitaram o porto de extração e conduziram uma inspeção física do local do acidente. Entrevistaram os empregados que haviam presenciado e/ou acorrido ao local posteriormente ao acidente. E fizeram um levantamento preliminar das circunstâncias e dos procedimentos trabalhistas previstos relevantes.
 Paralelamente, o dr. Walter E. Duma, delegado titular da delegacia seccional encarregada do caso, abriu um inquérito policial para apuração de possíveis delitos penais.
Segundo os primeiros dados objetivos obtidos tanto pelo dr. Walter E. Duma quanto pelos inspetores trabalhistas, o acidente ocorrera numa área situada atrás de um galpão de manutenção onde todas as máquinas da extratora ficavam estacionados quando fora de serviço. As autoridades estranharam o fato de o mecânico Vieira ter levado a empilhadeira à área externa para efetuar a troca do motor de partida ao invés de fazê-lo dentro do galpão, que, obviamente, seria mais apropriado para a tarefa.
Uma peça de aço entre 17 e 18 cm de comprimento e 10 cm de diâmetro, com paredes de 3/8 cm de espessura foi localizada a mais ou menos 7 m à esquerda do ponto onde Vieira havia levantado a empilhadeira. Um pedaço de madeira de 29 cm de comprimento e 6 cm de largura foi localizado a aproximadamente 5 m do lado direito da empilhadeira. Essas duas peças eram usadas normalmente para calçar o chassi da empilhadeira durante serviços de manutenção. Ferramentas de mão e uma lanterna de eletricista foram encontradas nas proximidades de onde a máquina estava antes de deslizar para dentro do lago de extração de areia.
O dr. Walter E. Duma e os fiscais trabalhistas também apuraram que a empilhadeira envolvida no acidente fora alugada pela companhia a um distribuidor de equipamentos local. A empilhadeira, de ano de fabricação 2003, marca Hyster, modelo H50XM, tinha capacidade nominal de 5000 libras e centro de carga de 24 pol. Uma plaqueta no painel indicava: “ATENÇÃO! — Esta máquina deve ser usada apenas por operadores e mecânicos qualificados e treinados! — Leia o manual de operação antes de operar o equipamento!”.
Quando a empilhadeira foi retirada da água, o dr. Duma encontrou o manual em um compartimento na parte traseira externa do banco do operador. Por sorte, o manual estava acondicionado em sua capa plástica e fora poupado da ação deletéria da água poluída do rio.
O delegado dirigiu-se à sua viatura, sentou-se no capô e retirou o manual do invólucro. Antes de abrir na primeira folha, percebeu que uma das páginas estava marcada com um clipe de aço. Ele abriu o manual no clipe e começou a ler. Era uma lista de instruções sobre como levantar levantar as rodas da máquina para fins de manutenção e troca de componentes:
1) Aplicar o freio de estacionamento. Colocar calços em ambos os lados (parte dianteira e parte traseira) das rodas de tração para evitar que a empilhadeira se mova.
2) Com um macaco hidráulico, levantar as rodas de tração. O macaco deve ter capacidade de pelo menos 2/3 do peso total da empilhadeira, tal como indica a plaqueta de identificação.
3) Instalar o macaco sob o eixo de tração ou o chassi e levantar a empilhadeira. Colocar calços sob o chassi para sustentar a empilhadeira.
O contrapeso estava pendurado e fixado à traseira do chassi da máquina por um parafuso grande. O lado inferior do contrapeso estava inclinado 11,5 graus para cima desde as rodas traseiras até borda traseira da empilhadeira.
Os peritos constataram, com base na altura do solo traseiro, que o contrapeso estava a aproximadamente 6¾ cm do solo na traseira da empilhadeira. Posteriormente, essa distância caiu para menos de 5 cm no ponto mais próximo das rodas de tração.
O lado inferior do contrapeso era pintado e estava coberto com uma ligeira camada de poeira. Foram encontrados três riscos brilhantes na pintura, no lado inferior do contrapeso. A posição dos riscos no contrapeso indicava que o macaco tinha deslizado, saindo de posição e causando o deslocamento da enorme empilhadeira.
Ao ser removida do lago, a máquina estava com o freio de estacionamento aplicado. O freio de estacionamento foi submetido a um exame e considerado em perfeitas condições de funcionamento.
O macaco utilizado para levantar a empilhadeira era hidráulico, marca Grainger, modelo 5H09D, próprio para serviços de até 20 toneladas. A ferramenta foi testada e considerada em condições adequadas de uso. Era equipada com rodízios de aço industrial que facilitavam as manobras. Os rodízios dianteiros tinham aproximadamente 5 7/8 cm de diâmetro. O suporte tinha quatro “orelhas” (ou alças) de 1¼ X 3/8 cm colocadas a intervalos regulares em um círculo com diâmetro de 7 ¼ cm. Os pontos exteriores das orelhas adjacentes ficavam aproximadamente 4¼ cm distantes entre si. Quando o macaco estava inteiramente abaixado, o suporte ficava a aproximadamente 6 ½ cm acima do piso.
Um decalque no macaco indicava “Leia, compreenda e siga todas as instruções antes do uso. Esta ferramenta destina-se apenas a içamento. Imediatamente após o içamento, o veículo deve ser sustentado por cavaletes apropriados.”
O ponto inferior do macaco hidráulico Grainger era demasiadamente elevado para poder entrar sob o eixo de tração ou o chassi conforme as instruções do manual de operação. Não havia nenhum macaco hidráulico no porto de areia que fosse capaz de caber sob a empilhadeira nos pontos de içamento designados.
Vieira tinha 12 anos de experiência como operador e mecânico de fábrica. Recebera treinamento de acordo com 30 CFR, capítulo 46.
Foi conduzida uma análise da causa-raiz, identificando os seguintes fatores causais:
Fator causal um: as políticas, as normas e os controles eram inadequados. Como consequência, não foram implantados procedimentos apropriados de trabalho para assegurar a proteção dos operários na manutenção de empilhadeiras. O pessoal encarregado desse trabalho não era monitorado periodicamente de modo a garantir que as tarefas fossem conduzidas de acordo com as diretrizes do fabricante.
Fator causal dois: as políticas e os padrões da manutenção eram deficientes e não asseguravam que as ferramentas ou o equipamento apropriado fossem fornecidos e usados de acordo com a tarefa da reparação. O macaco disponível no local da mina não era compatível com o equipamento que estava sendo levantado.
CONCLUSÃO
Procedimentos, incluindo aqueles estabelecidos pelo fabricante de equipamento, devem ser executados para as avaliações dos riscos que identificam todos os perigos associados à manutenção e o reparo do equipamento móvel.
Análise do risco deve ser conduzida para discutir as etapas de trabalho e para assegurar a disponibilidade de ferramentas e equipamento apropriados. As diretrizes do fabricante devem ser observadas na execução de tarefas de manutenção. Os empregados devem ser monitorados periodicamente para assegurar o cumprimento seguro dos procedimentos de trabalho.
O acidente ocorreu porque os procedimentos usados para substituir o motor de partida eram inadequados. Não havia disponível um macaco do tamanho correto para alcançar os pontos necessários na empilhadeira. Os procedimentos para levantar a empilhadeira, relacionados no manual de operação, não foram seguidos, ou seja, nenhum dos lados da máquina haviam sido travados e nenhum cavalete fora colocado sob o chassi de modo a apoiar adequadamente a empilhadeira.

Ao lado do corpo de Vieira foi encontrado um exemplar do Manual do suicida.