Amorokê na vila - Capítulo 028


Deus meu! A língua inglesa é uma forma de comunicação! A conversação não é apenas um fogo cruzado em que você manda bala e leva bala! Em que você tem de se agachar para salvar sua vida e mirar para matar! As palavras não são apenas balas e bombas. Não, são presentinhos contendo significados!
Philip Roth

A solidão da ratazana
Scherzando
And far and high I see a patch of sky. Puta que pariu, esse versinho me faz chorar, sou um romântico clínico, não tenho cura. 
É doença de que não se foge. Fugir para onde? Sei de quem fujo. Sei quando fujo. Não sei para onde fugir. 
Não posso fugir de mim mesmo. And far and high I see a patch of sky me carimba no olho da mente o cenho sisudo de Philip Roth me recriminando por ser tão escrachada, despuradorada, lulaticamente infantil. 
Você sabe...
– Vê se cala essa fuckin' mouth. Estou cansado desse choramingo interminável.
Desprendo o olhar da tela, giro o pescoço. Ninguém atrás de mim. Faço força, giro mais. Ali está Philip Roth. 
– Não diga “em pessoa”, you bastard. Em qualquer idioma que seja.
– Não senhor, não digo. Ainda sou dono, embora acabrunhado, dos parcos neurônios sãos que me sobraram. 
Philip exala aquela austeridade de quem guarda dentro do crânio o cérebro mais poderoso de todos nós. De soslaio, tento estudar a expressão dele.
– Jamais me olhe de soslaio, hear me?
Meu olhar volta incontinenti para a tela. Uma onda de desconforto me varre a barriga, o peito, a cabeça, tenho certeza de que minha testa está porejando, que papel ridículo, mein gott.
Aqueles olhos que se estreitam rutilantes de inteligência...
– Posso usar um “e no entanto”? — pergunto sem olhar para ele.
– Desta vez. — Pela visão periférica percebo que ele cruza os braços enquanto fala.
...e no entanto enevoados da angústia de saber que ele também não tem para onde fugir...
– Philip, como é que você prosseguiria daqui? — A possibilidade de despertar um deus do Olimpo não me intimida. Sou poltrão, poltrão refinado, poltrão profissional, poltrão sem tirar nem pôr, sou um poltrão abjeto safado mas não vou perder a oportunidade. Mesmo sabendo que pode ser a última.
Ele se limita a continuar perscrutando, ainda de braços cruzados. Prossigo. 
...acabou se encurralando em si mesmo num dos cantos deste mundo sem cantos, os olhos tarados de dor e fome de apreender...
Ouço um farfalhar de roupa ao meu lado. 
– Sai para lá. Eu continuo. — Com o punho fechado, que, noto, é pintalgado de nódoas sépia, essas pintas que denunciam implacáveis a idade da vítima mais do que qualquer cabelo branco ou pés-de-galinha no canto externo dos olhos e que sempre me causam alguma repulsa de que estou vendo o que não devia estar vendo, com o punho fechado, como que para evitar fazer um contato mais íntimo comigo através da palma da mão, com o punho fechado ele empurra imperativo meu ombro me obrigando a sair da cadeira. Por um segundo me passa pela cabeça a ideia de resistir, sou homem ou ratazana, engulo em seco. É só por um segundo.
– Pode sentar — ofereço, disfarçando a humilhação de abandonar meu cockpit sagrado de piloto-faxineiro das minhas mazelas. Percebo que ele fica desapontado. Esperava alguma reação. Sou uma ratazana.
– Não escrevo sentado, you know — ele faz um ar de profundo desagrado. O mundo o estorva, a vida o estorva, eu o estorvo.
Eu sei. Há anos Philip escreve em pé. Mandou adaptar seu computador e mesas na edícula de sua casa a que chega todos os dias às oito, sem hora para sair.
– Posso segurar o teclado e o monitor, se quiser.
– Okay. Só não balance muito.
...escrutinando o que poucos ou nenhum de nós é capaz de enxergar. Se quisesse, ele poderia simplesmente debochar de todos nós, um deboche silencioso e amargo, um deboche olímpico a contragosto. You know, deboche é arma de tolos. 
Inda há pouco eu via uma saída, a deixava quietinha guardada num dos meus porões imaginários, pensava que bastaria recorrer a ela quando chegasse a hora de fugir. 
A hora é agora. 
Isso foi ainda há pouco, algumas horas, alguns anos, não lembro, percebo com lucidez dolorosamente aguda que era só um truque, um dos muitos que engendrei para me conduzir a mim mesmo a este beco sem saída. 
THE END.
– Assim sem mais nem menos? — me espanto.
– Just like that. 
Tendo recusado o papel de guardião das dores do holocausto, de patrono da incessante diáspora de sua gente, ele tem nos olhos um brilho particular. Não me furto às minhas responsabilidades. 
– Não precisa dizer mais nada. — Ergo a palma da mão para ele, pedindo calma e contemplação. — Vou acabar Operation Shylock amanhã. Embora seja seu livro mais enrolado, você sabe. Não sabe?
Ele não está mais aqui. Saiu tão despercebido quanto como entrou.


Amorokê na vila - Capítulo 027

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

Herberto Helder

O homem feliz não sonha, meus olhos se mirando no espelho do Miata analisando o resultado do amadurecimento: cabelo informe, rosto inexpressivo arredondado adiposo brando. Nada se equivale a ter as mãos empunhando um volante, nem o angelical par de tetas de Sílvia quando ainda era capaz de comê-la por trás, a ponta do indicador lhe fornicando a boquinha infante, um anular metido na buceta até o rádio e além. Olhinhos apagados. Molhando bem, depois espetando lenta e resolutamente o cuzinho pregueado, a boca dando marteladas sugantes nos ombros, na nuca, nas bochechas, a língua escarafunchando a orelha lambelambendo a mordiscadas. Queixo diluído. Uma vez meus dentes chegaram perto de arrancar um lóbulo, ela pulou da cama aterrorizada, é só amor, amor, minha boca se desculpou. Cabelo em estado de rendição. Teria me deixado morder até decepar e engolir e sorver disciplinada todo seu sangue, detive-me enchendo os pensamentos da imagem do rostinho desorelhado, assombrando a imaginação com o orifício do ouvido à mostra levando direto ao cérebro indefeso dos maus ruídos do mundo, assim pude conter-me. Rugas intrusas. Depois que comecei a ganhar vagões de grana fui perdendo o tesão por ela e por mulheres em geral, meus olhos não vêem mais graça em quase nada, meus dedos a se comprimir no volante, reduzir a marcha jogando as rpm a dez mil e fazendo o filho da puta gemer angustiado, suplicando mais octanagem, oxigênio, vida, exalando na porca atmosfera deste planeta os venenos do veneno exangue, quem quer a poesia tola que meu advogado registra tão pateticamente em sua velha máquina de escrever?

No banco ao lado meu advogado tem a cara travessa e histriônica e no entanto, putz, séria.
Coisas há na vida que vocês nunca conseguem resolver. O sifão vazando embaixo da pia da cozinha, por exemplo, e exemplo é o que não falta, a praga pinga há anos imemoriais, quando vocês nascem já está vazando, quando meu pai nasceu já vazava, mais ou menos uma vez de dois em dois ou de três em três anos suas mãos dão-se o trabalho de se segurar na borda da pia, esperando enquanto os quadris se flexionam e, num movimento orquestrado com pernas, joelhos e panturrilhas, formar finalmente as cócoras, emitindo o fundo da garganta um gemidinho e os olhos um irresoluto, desacorçoado olhar, se pudessem aliviar tudo que vaza qual um míssil redentor restaurador, Sílvia me azucrinando a orelha, relativamente intacta, que a louça vive úmida e grudenta, Girleide não para de reclamar, você descobre que o purgatório fica embaixo da pia da cozinha, o buraco negro onde o que resta de força para avançar é sugado. Para desgosto, nem meu advogado dá conta do recado, vive forjando desculpas, postergando, tenho gana de parar o Miata incontinenti e pegá-lo pela garganta, vamos resolver a parada da Extratora é já!, desisto.
Minha garganta solta um grunhido. Resumo.
Meu advogado veste impecavelmente um paletó de linho azul escuro, gravata de seda e lenço elegante no bolsinho do peito. Projeta em tudo um olhar sonhador típico de quem é torturado pelos desejos. Vítima de pai brutal, se acha meio inumano. Adolescente, fugiu de casa na primeira oportunidade. Quando fosse mais homem, voltaria com câmaras de televisão e mataria o pai. Alguns anos depois o pai sumira de casa e a mãe fora morar com outro. Nunca mais a viu.
– Ela era um anjo — diz de repente no meio de outro assunto.
Levados pela correnteza, vamos debatendo à beira do afogamento enquanto serpeamos graciosamente pelo curso do rio das faixas da Paulista, o Miata golpeado pelos ventos e navegando cada vez mais longe do Paraíso, sem nunca parar nos faróis vermelhos, as mãos esterçando antes de atingirmos a Consolação.
Uma ambulância vem abrindo caminho atrás. Deixo que passe, acendo os faróis e seguimos na rabeira pela pista dos ônibus. Saio da segunda pista à esquerda, pego a Padre João Manuel e descemos até a Estados Unidos.
– Mas com a minha mulher? — meu advogado se indigna.
Paulistas. Não creem muito no amor.


No iwjj012

Resolvi suspender o pudor extremado com que a natureza ou o Big Guy lá do Céu ou ambos ou nenhum me agraciou e abrir uma conta no face só pra ver que é que dá, que é que não dá.

I mean, o chabu é garantido. Por conseguinte, será por tempo limitado, até minha primeira gafe, em que sou pródigo, ou perder a paciência.

Em encerrando a conta, esta postagem se esfarelá automaticamente.

Meu face

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O legal de escutar rock é que você sabe que sempre há um Bach e um Beethoven e um Wagner a postos na ponta do Windows Media Player.
Publicado novo capítulo d'O céu. meu idílio pra cabra macho:

Capítulo 18


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Nos teus olhos vi o pecado 
mais puro, os crimes mais
Indefensáveis, incêndios os
Mais indecifráveis e todas 
As mortes incalculáveis morri
Em tuas mãos o sorvo mais 
impossível da pedra dos teus
inadiáveis lábios a dor mais 
Amável do mais cru amor 
Na promessa inconfessável


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Jorge sempre teve máscara.
Já na primeira infância escondia-se atrás de uma.
Depois, na segunda. E na terceira. E de outra. E outras. E quantas fosse dado ter a um pequeno cristão incapaz de expiar os próprios pecados.
Na adolescência foram múltiplas, dos mais variados tipos, para os mais diferentes fins.
Máscaras para todas as situações. Para todos os comichões.
Algumas eram carrancudas. Outras, risonhas.
Outras, triviais, fúteis, preguiçosas. Outras, secretas.
Algumas, ladras. Únicas. Universais.

Já adulto, Jorge começou a se livrar de umas. E outras.
Foi pegando gosto por essa e aquela, desenvolvendo preferência pelas mais confortáveis. As mais familiares. As menos perigosas.
Maduro, Jorge se deu conta de que algo estava mudando.
Não queria mais ter de decidir qual usar, quando usar. Parecia muito complicado. Decisões sempre lhe cobravam um custo alto, o deixavam estressado.
Se dava conta, enfim: representava trabalho inútil. Eis que finalmente ia cultivando uma qualidade que sempre admirara nesse ou naquele conhecido. Ou mesmo desconhecido.
Sim, o pragmatismo.
Como pôde? Como pôde demorar tanto para reconhecer que a única máscara que sempre quis, a única de que sempre necessitou era a pragmática?
Pragmático, Jorge logo percebeu que mesmo essa parecia supérflua.
Chega de máscaras! proclamou heroico, libertador, imaginando o momento em que vislumbraria a própria face.
Vou-me mostrar ao mundo como realmente sou! Me olhar no espelho e enxergar senão eu mesmo.
No dia seguinte, mãos à obra. E lá se foram pelo ralo metafísico as poucas que ainda restavam: a do idealismo, a da religiosidade, a da compaixão. A da candura, por que nutria terna predileção. A da competitividade, que sempre lhe causara especial apreensão... ou, inconfessamente, repulsa. E mesmo a que, com tamanho custo, decidira ser a que lhe caía melhor e ainda guardava cheiro de novidade.
Até o dia em que, tendo passado por todas as experiências pessoais e interpessoais que tinham sobrevindo com naturalidade segundo seus próprios critérios -- e Jorge sempre fizera questão absoluta de exibir a quem quisesse ver sua bela máscara da criteriosidade --, tomou a resolução que, bem no fundo sempre soube, teria de tomar mais dia, menos dia: acabar com aquela história de máscara. Afinal, não trabalhava em circo ou teatro. Não assaltava bancos, Não frequentava bailes. Não era doutor.
Só para descobrir, no dia seguinte e em todos os dias que se seguiram àquele, que lhe era impossível arrancar a máscara do fingimento. 

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Por que velho está sempre adiantado e jovem, atrasado?

Por que velho está sempre à procura do que fazer e jovem fugindo dos afazeres?

Por que jovem vive ive duvidando da vida ida e velho daria qualquer coisa para voltar a ser jovem again?

Amorokê na vila - Capítulo 026

Baby, high time we went 
Joe Cocker 

Um dia meu pai me levou a passear no litoral. Tinha dez anos. Descemos a serra, ladeira que não acabava. Ouvidos tampando por causa da pressão. Vai engolindo saliva, meu pai disse. Não respondi, não engoli. Preservando a sensação dos tímpanos. Afastando a mesmice prum canto. Essa porra de ver-por-dentro. Não queria filosofar, mas é foda nos condenarmos a nós mesmos. Sendo outro pra variar. Podendo escolher o outro que quer ser. Analiso cada um que conheço. Peso contras e contras. Obviamente, esse exercício só é interessante porque posso retornar a mim à hora que quiser. Comecemos pela Sílvia. Ugh. Esse negócio de ter buceta dá aflição, mesmo aquela Perinha Celestial. Não suportaria ter em mim um Repositório de Pintos Fuçadores Respingatório de Porra e Ocasional Boca do Inferno por Onde Saem Infantes aos Berros, a melhor definição foi no estalo que tive aos dez anos, BUCETA: ORIGEM DE TODOS OS MALES, Aurélio, se me pregando no cérebro feito etiqueta auto-adesiva no que viria a ser um dos meus códigos de barra definitivos. Vai coincidir assim no raioqueoparta. Crescendo, arranquei a porra da etiqueta, mas ficaram aqueles restos de papel e cola bem no meio da ideia. Deslizando Anchieta abaixo, fugindo do mundo absurdamente enfadonho que parece se diluir nas alturas do planalto, fechando os olhos, meio surdo, o murmúrio ininterrupto do motor, despencando desamparado no meu secreto Vale Vaginal. Quem não gosta de andar de carro, me diga. Às vezes quando o corpo fica angustiado a única solução é entrar no Miata e meter o pé no acelerador e descer a serra. Tem dia desço e subo de novo e de novo até cansar. Pena que seja tão curta. Tem dia, estando animado, pego a estrada para Cubatão e vou até aquele sinespe palafiteiro sobre o mangue ao pé da serra, dutos estendidos preguiçosos subindo a encosta, no céu halo róseo de veneno. Paro o Miata a 150 metros, o suficiente pra poder enxergar alguns detalhes e cair fora a tempo em caso de ameaça. Paro e fico assistindo e acelerando o motor e o carro chacoalhando gentil feito um berço. Meus olhos olham as palafitas, olham o conta-giros, 4000 rpm, 5000, 6000, só escuto a máquina com seu gemido longíquo dos êmbolos orquestradamente movidos pela árvore de manivelas dentro do cabeçote sob harmonia suprema a 24 válvulas em sintonia e consumo ótimo de gasolina e oxigênio. 7000 rpm, se soltar a embreagem disparo a 105 km/h em 3 segundos, suficientemente rápido pra escapar de tiros. 8000 rpm, o Miata para de chacoalhar, vai vibrando. Frêmito estável, tradução segura do estado perfeito de movimento imóvel. Por uma fração de segundo solto a embreagem e ele ameaça um solavanco avante, sem girar as rodas. A essa altura já tenho uma pequena plateia de modorrentos petizes e adolescentes mamelucos a me observar, olhos ausentes de quem não enxerga e bocas entreabertas pondo à mostra dentes deteriorados e almas inexistentes. Libero meio milímetro mais a embreagem, as rodas giram em falso levantando uma névoa de poeira com pedriscos, o Miata se eriça querendo desembestar mas obedecendo disciplinado à nanométrica sutileza do meu pé esquerdo na embreagem, precisão necessária em que os destinos se traçam na vida. Pela pressão colocada no pedal do acelerador controla-se a altura da carroçaria do solo e o nível de ruído no ambiente e o grau de partículas no ar e a cor do mundo em volta. À plateia de guris sorumbáticos vieram juntar-se alguns adultos igualmente desafeiçoados e amargos e inefáveis. Continuo acelerando estudando-os. No olhar de alguns há indícios de curiosidade. No de outros, sombras hostis. De repente ergo meio centímetro o pé da embreagem e vôo na direção deles. Freio. O bando foge qual baratas enveredando pelas miríades de pinguelas entre as palafitas, parando quando se vêem em segurança no meio do mangue. Libero o pedal outro meio centímetro e esterço o volante totalmente pra esquerda. O Miata rodopia num cavalo-de-pau, envolto na névoa poeirenta marrom-vira-lata da rua de terra batida, uma fuzilaria de pedriscos se abre pra todos os lados e forte, apaziguante cheiro de borracha queimada me entra nas narinas e calco o acelerador e livro plenamente a embreagem, 10, 20, 30 segundos, finalmente meus olhos vêem algo de humano nos rostos da minha plateia e levanto definitivamente o pé esquerdo e afundo resoluto o direito e parto. Por dois segundos estudo a hipótese de olhar no retrovisor. Decido olhar quando sei que já é tarde.
Num sonho chegamos a Praia Grande, que depois de adulto constatei ser o paraíso fúnebre da classe média-baixa paulistana e adjacências. É uma das minhas experiências. Que estou aqui pra compartilhar. Há anos quero compartilhar. Que aquele dia fiz uma descoberta. Que depois, inúmeras vezes e sob outras experiências, pude atestar. E revivo frequentemente. Descobri Jesus. Computador que só computa e produz maravilhas, já pensou? Meu pai procurou e achou uma sombra debaixo dum chapéu-de-sol. Vê aquele morro, apontou. Vamos subir e descer do outro lado. Vagamente, imensamente repleto de mim mesmo pensei, o que será que tem do outro lado. Hoje posso teclar e saber, naquele tempo não. Como é que pode? Tem gente com cabeça de laboratório, cheia de aparelhos e circuitos, que sabe a diferença entre formal e virtual, gente eletrônica, sistemática. A maioria, não. É anômica. Corja de deslumbrados. Os sabichões, não. São hábeis, claros, coerentes e integrais. O recurso que mais gostam de usar numa discussão é “me convença”. Aprenderam com os biguemaqueanos. Não exercem um papel, saca? São eles mesmos, reais. Pior: não precisam provar a ninguém. Só investigam o que existe fora deles. Seres isentos. Descemos do carro, minhas pernas entram no mato, aqui não há cobras, meu pai diz. A essa hora estão dormindo. Então vi a sabedoria. Bem ali do meu lado. Meu próprio pai. Começamos a subir a montanha, serpeando despertos por uma senda picada contínua imersa na penumbra da mata fechada. A encosta era íngreme. Não estava cansado, mas a certa altura comecei a fingir resfolegando. Meu pai me agarrou um dos pulsos e daí em diante me puxou. Sabia que era manipulação mas não ligava. Puxava com zelo cada vez maior. Me sentia meio imoral. Hoje sei, não sabia se assim mereceria o respeito dele. Hoje, com essa minha compulsão a me indignar com tudo que desaprove, me admiro por ele não se revoltar. Ainda mais, hoje sei, que ficara completamente sem dinheiro. Isso ninguém suporta. Você suporta uma porrada de coisas: ficar sem comida, sem água (desde que não te mate), sem alternativas, sem possibilidades, sem poder, sem luz. Você s-u-p-o-r-t-a uma PORRADA de coisas. Mas ficar sem dinheiro ninguém aguenta. Sem propriedades, nem se fala. Essa é uma das razões que levam os jamílsones ao estado de constante sobreexcitação que beira a loucura. Se você não tem dinheiro, como pode pagar o preço? Eis a pergunta básica. Pode viver pra trabalhar, pra mentir, pra esperar pra ver o que acontece, pra tirar conclusões, pra lembrar. E em meio a tudo isso você vai em frente, vacilando mas vai. Mesmo que seja puxado. Chegamos ao topo do morro. À nossa frente um céu e um mar verde-azulado profundo que passou a ser parte constante dos Sonhos e Delírios. Meu pai olhou para mim dizendo com o olhar, agora você não é mais inocente. Então fez-se contato. Me senti justo. Consenti me aproximar dele. Fiz uma descoberta. Quando nos pusemos a descer um penhasco, demos c'uma gruta. Não olhe dentro, ele disse. Não olhe, mas é aqui que fica. Fica o quê? Perguntei distraído. Uma das válvulas da sua vida, ele pensou.


iwna055

E escutei passos subindo a escada...
Será...? Será ela?
Não pode ser. Não depois de todos esses anos.
E meu vira-lata surgiu na porta, abanando o rabo, rogando atenção.

iwna054

Estava à toa num lugar qualquer sem 
nenhum motivo e nenhuma mulher
assistindo gaio, quase irresponsável,
à festiva brincadeira dos meus pensa-
mentos sem rumo nem lastro ou crença
quando, repentinamente, claro, pois 
quase tudo em mim se vem, vem
inesperado, quando, repito  — ó mãe, 
por que geraste um serzinho tão repetitivo
assim? — de repente, repito, me vem esse 
educativo clarão entre aqueles pensamen-
tos bem no meio do sombrio, do abafado, 
do opressivo, do pegajoso, do apertado 
palco do meu cérebro e, já pessimista, já 
quase niilista, e não mais gaio, em mim 
mesmo caio e agora absolutamente aflito, 
não mais brinco, vai brincando, sussurram 
meus lábios, que tu acaba se suicidando.

Amorokê na vila - Capítulo 025


Devemos ler como se o texto que temos ante nossos olhos tivesse significado.
George Steiner

Para gerenciar meu método de trabalho estabeleci um procedimento operacional como parte de um sistema global. Consiste tal sistema de três categorias destinadas a traduzir, mesmo sem a devida precisão, meus três principais estados de espírito.
São elas: categorias primeira, segunda e terceira.

Categoria primeira
A categoria primeira geralmente resulta numa lâmina com a pontinha rósea ou, dependendo da temperatura e da umidade relativa do ar, avermelhada. Não se produzem lacerações quando a lâmina é removida, pois nessa categoria o ato é perpetrado com cordura. Se dormimos bem na noite anterior pode ocorrer um inchaço em torno da incisão mas nada muito severo. Nessa categoria tanto a epiderme quanto a derme vão pro saco. Como já expliquei a Chegadessaudade epiderme é a camada superior da pele; derme, a segunda. Esta jamais é ultrapassada. Em geral esse tipo de abordagem requer de sessenta a noventa aplicações, podendo durar até cinco horas. Uma vez a espera se prolongou por doze enquanto um cliente não se decidia. Eu olhava meio incrédulo o rapaz cobertinho de carmim. Lá pelas tantas meu peito começou a ter falta de ar. Perguntei, tu tá tomando antibiótico, disgramado? Ele disse não, é o meu santo que me protege. A peixeirinha atravessou primeiro o baço, e aí? Ele só virou os olhinhos. A peixeirinha sumiu a lâmina entre as costelas na altura do ventrículo inferior, tomando cuidado pra não entortar e quebrar. Ia perguntar se ele tinha comprado o antibiótico com receita, não deu tempo. O próximo que fizesse aquilo ia deixar viver, prometi. E não tardou a ocorrer, conforme o previsto. Larguei o cliente no meio dum matagal em São Roque e liguei pra emergência dum hospital. Agora espero o tempo passar na certeza de que mais dia menos dia hei de verificar qual é o estado duma pessoa literalmente coberta de cicatrizes.

Categoria segunda
Esta categoria engloba a epiderme, a derme e mais um tiquinho. Não queira saber que porra de tiquinho é esse, pois nem eu sei. Isso não quer dizer que seja uma medida discricionária. Como já explicamos, nosso instrumento é preciso. Só entra até onde mandamos. Embora os parâmetros acima sejam importantes, o que interessa são os sintomas. Afinal se tem uma coisa de que me gabo é ter conseguido seguir minha vocação. Que é que tu vê os olhos olhando em volta? Um monte de nego frustrado fazendo na marra o que não gosta. A maioria leva jeito mesmo é pra dar o rabo e deixar que o mundo se foda de segunda a segunda, das seis às 23 horas. Mas esses parasitas não contam. Existir só pra ter prazer não dá certo. Uma, é antiético; três, cansa, e quando cansa neguinho faz o quê? e, nove, é impossível, e se é impossível é impossível. Nesta segunda categoria a dor é tão intensa quanto na primeira, só que mais demorada. Certa vez, estava já preparado para executar um cliente, quando ele implorou, pelamordedeus, não me mata, tenho três filhos e sou médico. E daí? perguntei. Eis uma merda que me intriga, qual seja: essa mania de entregar o currículo na hora do sacrifício. É não-me-mata-que-tenho-mulher-e-filhos pra cá, não-me-mata-sou-gay-mas-tenho-filhos pra lá. Doutor e não tem vergonha de jogar mais miseráveis neste vale de lágrimas? pergunto. Ele não respondeu. Repetimos a pergunta. Ele diz que não sabia a resposta. Mas na hora de comer a mãe dos patetinhas tu não se preocupou o que seria deles, preocupou? Ele torna a ficar como já estava, ou seja, mudo. Mas, aproveitando esse teu expertise, doutor, diga, por favor me diga, e agora vamos exigir uma resposta: por que o cabra demora mais a sentir a dor com um talho fundo do que um raso? Por um instante o médico arregala ainda mais os olhinhos castanho-claros, tentando entender aonde eu quero chegar. É uma pergunta legítima, eu digo. Tô de fato a fim de saber. Por que demora mais quando o corte é fundo do que raso? Vejo uma sombrinha de vaidade passar na fuça dele. Não perde a pose de técnico nem na hora do espeto. É que as respostas elétricas, ele começa, são transmitidas ao cér... craaaaaqueeee faz a peixeirinha, primeiro penetrando até o cabo, depois dançando na direção dos sete pontos cardeais. Pra arejar. Se tem uma coisa errada em nós seres humanos é a insuficiência de aberturas de refrigeração. Principalmente na cabeça, por razões óbvias. E bem que podíamos nascer c'uns portaobjetos, que adaptaríamos à nossa conveniência. Bem, voltando às categorias, também neste caso há inchaço, só que a lâmina sai num carmim mais aveludado. E tem outra diferença significativa: a camada de líquido é coberta por uma espuma borbulhante. Enquanto as borbulhas ficam lá borbulhando, uns vinte segundos, eu caio absorto ante o espetáculo da natureza. Fenômenos físicos sempre me encantam. Tu pode fazer alguma ressalva quanto ao termo carmim. Antes, de minha parte, eu também preferia carmesim, mais poético. Mas se tem uma coisa que nos deixa puto é poesia. Pudesse matava todos os poetas desta bosta de planeta. Já matei uns três ou quinze. São os mais decepcionantes. O primeiro, no momento de sangrar, eu esperava senão um soneto completo respeitando a métrica e as rimas pulando de dois em dois ou de quatro em quatro, uma simples quadrinha que fosse, daqueles versos sem forma rígida que brotam das mais abissais profundezas d’alma para cunhar definitivamente esse beco sem saída de desespero em que pastamos. Aquele dia tô zanzando pelo Brás, uma daquelas feiras pandemônicas que me dão saudade do Oriente-Médio, o único lugar em que me sinto de fato brasileiro, quando avisto um poeta na banca dum camelô os olhos olhando encanado um carrinho a pilha do Paraguai. Minha alma saponácea saca que é poeta pelos olhos vidrados que só os poetas têm. Vamos lá, rodeio solerte, puxo conversa, até que perguntamos se ele quer uma enrabada. Essas coisas, você sabe, tem de perguntar na lata. Desarma o nego e derruba as barricadas do pudor. Não sei se você sabe também, todo poeta é bicha. Carinha pode preservar o rabicó até morrer, esconder até da mulher, esconder até dele mesmo, mas que todo poeta é bicha não temos dúvida. Ele levanta os olhos do carrinho chino-paraguaio e nos olha esperançoso, pensando, hoje é meu dia. Pisco os dois olhos, ele pisca de volta. Ele ergue as sobrancelhas, maroto, querendo saber, onde? Os olhos olham em volta, lá longe vejo um daqueles pontilhões que ensombrecem o céu do Brás. Embaixo daquele ali, digo, indicando com a cabeça o mais próximo. Que tu acha? Topo, ele larga o carrinho de volta na banca. Não vai levar, o camelô quer saber. Hoje não. Tomamos o rumo do pontilhão. No caminho pedimos, recita um versinho aí nessa tua secreta nostalgia. Como sabe que sou poeta, ele se admira. Sei, oras. Recita aí. Assim de supetão eu não sei, ele enrola. Fico desapontado. Além de enrustido, poeta sem capacidade de improvisação. Vai ver, só verseja dentro duma biblioteca. Poeta no duro faz poesia de supetão, sem supetão, de dia, de noite, na fila do açougue ou a caminho de dar o cu. Quando nos enfiamos num canto escuro debaixo da ponte, acuo o carinha na quina da parede e dou o primeiro talho, categoria primeira, na testa. Deve ser suficiente, pensamos, pois se o rapaz já sai por aí cantando mavioso qualquer aurorazinha de merda, que beleza não há de brotar desses lábios chupa-rola agora que tá cara a cara com a mardita? Aguardo. Nada. Só aquele assombro, terror, palidez leitosa, etc. Por ser caso especial, mantenho o nível de paciência em quatro (usando um truquezinho que aprendemos com Chegadessaudade e que talvez elabore alhures) e espero de novo. Nada. O leite que havia na palidez vai virando coalhada e a boca suga-pinto enrugando cada vez mais apertada. Outro golpezinho, no antebraço direito. Mais leite e mais aperto. Então vemos nos olhos dele o que os olhos vêem nos olhos de todos: The Emptiness. Da lira desse orfeu não sai mais cantiga pr’eurídice, sentencio e craaaaque creeeeque. Chegadessaudade vive dizendo que certa vez teve sorte e um dos seus fregueses poetas cantou, um verso que, segundo Chegadessaudade, dizia assim:

Tá confirmado
a vida é um peneirão cheio de luzinhas
não fique tenso
só os grã-finos passam

Não acredito muito nessa versão. Chegadessaudade deve ter tirado d’algum goethe por aí. O desgraçado sabe alemão e não perde a chance de me esnobar. Deu pra ler Der Damon und Fraulein Prym, vê se pode.


Categoria terceira
Um talho seco e fundo na carótida.