Amorokê na vila - Capítulo 032


Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando o teu último banho cá em casa. 
João Miguel Fernandes Jorge

A esquizofrênica que recebia os loucos no jardim do sanatório tinha o olhar destrambelhado da mais insondável introspecção, quando nos via exclamava um oi! desolado num fiozinho de falsete. Pela sua cara passavam sombras hindus, ciganas, lavadeiras, anjos. Nunca vi tanta piedade como naquele rosto caleidoscópico dominado por olhões cintilando um olhar-abismo. Alguém com sensibilidade óptica extra-humana qual Picasso saberia retratar, talvez. Eu me sentia algo reconfortado — no começo me assustei com a força da identificação. A esquizofrênica ainda está lá. Hoje penso, provavelmente enganado — de que me adianta saber que o que penso está errado? —, qual a fotografia de Lasch, pela distância do tempo e pelas miríades de fantasias que urdi enquanto assistia as perenes agulhas de crochê tecendo mecanicamente uma inesgotável mina de toalhinhas para os criados-mudos de toda a família nas mãos surpreendentemente destras de minha mãe, que me levava às sessões no Dekavê azul-cobalto meia-meia roncando seu motorzinho germânico pelos lindos campos atrás do Rudge Ramos que ela tomava de atalho para não dar a volta pela avenida, economizando com isso uns quinze segundos, economia cronológica que, penso hoje, ela foi cuidadosamente adicionando a uma grande lista de momentos poupados desde o dia em que nasceu, decidida que era a alimentar a obsessão com que se devotou a ganhar tempo, ganhos que ia juntando impaciente num depósito cronológico em sua cabeça, nos levando a cruzar aquele campo atrás da via Anchieta como se fôssemos dois pés de alface perecíveis, as fantasias que urdi com suas agulhas de crochê dançavam desvairadas em torno de que talvez tivesse finalmente encontrado alguém capaz de me entender naquela pequena personificação esquizofrênica da piedade. Tal como entendera o lobo me aconchegando em seu ninho num buraco qualquer perdido nas desoladas estepes dos arredores de Sampa. Na minha/nossa solidão isso era tudo que me interessava.
Não, você não sabe, gente como eu tem essa necessidade incomensurável de compreensão. São tantas as coisas que você não sabe e que preciso te contar. Nesse seu mundinho mórbido de bem-estar a qualquer custo, bem-estar terapêutico, você não sabe nadica. Por exemplo, não sabe que no olhar duma esquizofrênica internada num sanatório ao lado da via Anchieta pode haver comiseração infinitamente fraterna por outro ser humano, capaz de aliviar pelo menos umas horas a dor descomunal desse outro maluco pelo simples cruzar acidental dos olhares de ambos enquanto seguem em seus passinhos decididos rumo ao desespero. Para meu espanto então — e ainda hoje — nossos olhares não provocaram faíscas de hostilidade. Sempre me precavi contra a aversão quase permanente singrando olhares alheios, talvez refletindo a minha própria, mas isso nunca serei capaz de saber com precisão, e é assim, e isso você sabe, que vou desbravando meu mundinho solitário cercado de arame farpado imaginário fundamentado ou não, sitiado por gente decidida a me arrancar o pouco que tenho de lucidez só para ver até onde pode alcançar minha resistência à loucura que, segundo essa gente convencionou pensar, cultivo por diletantismo qual flor bizarra. Você também não sabe que no fundo de muitas noites inundadas de desespero e solidão, esse olhar seria o tênue fiozinho que manteria essa loucura domada o bastante para não me dominar por completo, apenas latejando para que eu pudesse prosseguir inacreditavelmente vivo. Por maior força que ele fizesse para romper a porra do fio em suas tentativas mais e mais frenéticas de se libertar duma vez por todas. Tem outras, muitas outras coisas que preciso te dizer. Espere, vou fazer uma pausa, tentar chorar. Sou incapaz. Esse demônio é tão fugidio. Como curte esse esconde-esconde circular. Não de mim, que de mim ele não escapa. De você. E por você. É por você que ele brinca. Esse meu terno demônio. Por que o tolero? você talvez se pergunte. Eis o tipo de perguntas que você faz. É tudo tão simples nessa sua cabecinha pragmática tomada de cálculos matemático-sentimentais. Sei por quê. Só que não vou responder. Não vale a pena. Tudo vale a pena, nada vale a pena. Okay, pode achar que não passa de tapeação. Nunca neguei que sou um embusteiro. A semana de 22 passou faz tempo. Já li Dostoievski.
Não pense que foi por me negar a ser adulto que passei pelas sessões de choque. Foi, como disse, pelas ondas. E, fantasmas, que não tenho forças para acordar a esta hora da noite. Eles dormem, e não sei de que é capaz um fantasma que tem o sono interrompido. (Embora eu seja, modéstia à parte, perito em assuntos fantasmagóricos.) E, okay, fantasma, além de ser clichê, empobrece. Mas que outra palavra eu daria? Você tem alguma ideia? Fantasma resume com relativa precisão. Não vamos proscrever só porque está batido. Monstro resumiria melhor. Mas não quero monstro. Monstro me dá um desalento que simplesmente não tenho como manter. E monstro, ao contrário de fantasma, não dorme. Apenas finge quê. E é mau, ao passo que nem todo fantasma é necessariamente. Monstro é mau como você não ousa imaginar. E impiedoso. Pesadelo de carrascos nazistas. Torturador de torturadores do Doi-Codi. Carniceiro das bestas do Filinto. Shhhhhh, fale baixinho. Está se remexendo. Espere. Há mais de um. Encostados uns nos outros, admira que convivam. Pensei que não se tolerassem. Embora monstruosos. Não porque uns sejam, ou possam ser, mais que os outros. Simplesmente por serem. Você talvez se pergunte de que serve saber isso. Para mim é de importância crítica. Vou até confessar: saber isso foi o que me salvou até aqui. Deu-se um milagre, não sei exatamente quando, mas deu-se. De repente me vi traquejado na lida. Era como se tivesse feito um curso, entende? Claro, seria impossível. Afinal eram os meus monstros, e não haveria no mundo professor que pudesse aprofundar meu conhecimento sobre eles além das lições que já aprendera. Minha primeira lição de autodidata foi que devo deixá-los em paz. Sou um cara muito pouco instintivo, você já deve ter percebido, chego a ser ingênuo, bobalhão mesmo, mas isso, instintivamente, aprendi. E aprendi no duro, não é uma reles informação como aquelas que você adquire na faculdade de pedagogia. Até incorporei, como dizem por aí psicanalhas obfuscados em seus consultoriozinhos em cores pastéis, divã combinando com o carpete e os quadros comprados nas Casas Bahia. Passou a ser o meu parâmetro. Você tem parâmetros, não tem? Eu também. Sou o feliz portador de um inteiramente meu, forrado em couro, escritura registrada em cartório, amaciado pelo uso. É a minha única verdade no meu templo da empulhação. Tinha um porém, porém. Minha mãe e meu pai um dia decidiram que eu precisava duma boa chacoalhada. Não estava indo bem na escola. Não estava indo bem em casa. Não estava indo bem em nenhum lugar. Sobretudo depois que raspei a cabeça e as sobrancelhas e pintei as paredes do meu quarto de preto e pus uma cortina preta na janela e passava semanas trancado ouvindo Sexy Sadie à Charles Manson no último volume e garatujando uma montanha de rabiscos que nunca mais consegui decifrar. What have you done, tudo que você precisa é uma chacoalhada. E, para chacoalhar de verdade, nada melhor que uns bons choques no meio do rabo. Você entende, estou rodeando. Me aproximo em círculos. Você entende, não entende? Tudo isso está tão cristalinamente claro. A primeira coisa a fazer é perder o medo. E a última — a última coisa a fazer é perder o medo. Pois é o mais difícil. Como todo o resto nessa nossa vida de vermes, falar é fácil. Mas primeiro preciso pensar neles. Que não sou capaz de fazer por mais de dois segundos. Doi tanto quanto no momento em que me levantava da maca e, pondo os pés no chão, um relâmpago explodia dentro do meu cérebro. Quem sabe ainda efeito retardado da eletricidade que passara por mim. Pena que o doutor não tivesse celular. Uma das imagens que eu queria eternizar para a posteridade esvaziada por esta medonha era digital era a minha cara retorcida sob a amperagem redentora. A do médico, a cara, lembro vagamente. Inexpressiva ao decepcionante. Como em geral são as caras. Essa humanidade condenada a ganhar o pão de cada dia. Ele mal me recebia numa saleta desoladamente burocrática, já me deitava na maca. Antes que eu me desse conta, fazendo uma perguntinha inócua qualquer, “ah! quer dizer que você recebe muitos amigos em casa?”, recebo, respondia, next minute sentindo a agulha na veia do braço para ser inundado de escuridão. A escuridão me invadia, lembro, de baixo. A invasora. Depois daquilo, sempre que a escuridão vem, vem de baixo. Que seja o contrário do percurso natural da luz é apenas coincidência. Quando acordava, via minha mãe e estava burocraticamente lavado dos meus cacarecos internos. Qualquer dia, já me prometi, qualquer dia volto ao sanatório, peço para ver o prontuário. Faz uns seis meses, passei lá como quem não quer nada, o prédio pelo menos ainda existe. Consegui a proeza de tomar aquele rumo fingindo que na verdade estava indo para outro lugar. Não sei se você consegue fazer isso. Eu consigo. Isso e outras maluquices. Malucas só aparentemente. Malucas para você e esse seu mundinho autopreservacionista feito de bom-senso, saber o que é melhor para a sua própria pele, bem-estar mais que tudo, não levar trabalho pra casa, evitar gordura trans, andar meia hora por dia, horários, compromissos, cervejinha que ninguém é de ferro, casa na praia, amante no escritório, corno no meio da testa, cagaço de cair nas mãos dum mano na quebrada da noite, delírios inconfessáveis com as menininhas e os garotões da novela. Pois é, existem alguns misteriozinhos que às vezes rondam nosso conto de fadas. Que, por pequenos, são sinistros. E, olha, vou te dizer uma coisa, que só amigo do peito diz: tua hora vai chegar, cedo ou tarde. Espero, sinceramente, que seja o mais tarde possível. Para que você possa aproveitar ao máximo tua jornada virtual. Vai, sim. Talvez numa hora dessas seja importante ter desenvolvido alguns desses truques aparentemente imprestáveis que desenvolvi em meu mundinho de outsider. Ou quem sabe seja mera questão de ter um mínimo de honestidade. Você sabe, admitir que você tem, digamos, certos probleminhas. Que a rosa não é um mar de mundos. Engraçado como hoje se toma de barato que tudo tem de ser maravilhoso e todos têm de ser lindos, ricos e felizes. Só porque socam isso na tua cabeça noite e dia na tevê? Vê se toma vergonha nessa tua cara.
Faz uns seis meses, passei lá. Kartoffel. Tinha de acontecer. Uma hora ou outra acabo voltando aos locais onde minha vida sofreu um turning-point. Vou enumerar, se me permite: cada escola onde estudei, cada rua onde brinquei, um ou outro beco sombrio que por alguma razão me fascinou, o sanatório, a Praia Grande, certos pontos de Sanca onde engoli dores aterradoras, outros de Sampa idem, meu quarto. Com o sanatório, seria cedo ou tarde. Até que demorei demais para os meus próprios padrões. Sim, os tenho. Afinal sobrevivi até agora, não sobrevivi? Teria sido impossível sem padrões mínimos. Eis outra coisa que sei. Não tinha me dado conta, sou um cara sapiente. Às vezes, até sábio. Devo estar fazendo algo errado. Aprendi cedo a evitar o caminho manjado alheio. Tenho essa habilidade nata de sacar a preferência da maioria. Saco e automaticamente prefiro outra coisa. Se não existir, forjo. Sempre fiz isso, sempre farei. Comigo não tem essa de ter precaução, saber o que é bom para a tosse, comportamentos vindos diretamente da linha de montagem de onde saem os bocós reluzentes. Aqui pertinho de casa tem um parque onde vou caminhar quando me dá na telha de vidro. Bem no meio do parque há uma grande praça, no meio desta, uma fonte. A praça é rodeada por uma longa rua asfaltada. O parque tem também várias outras opções para quem curte caminhar, veredas por meio duma bela mata, passagens mais recônditas aqui e ali, caminhos à margem de lagos, o escambau. Que é que as mulas ortega-y-gasseanas pegam e fazem? Bidu. As mulas desembestam pela rua asfaltada em torno da grande praça central e não saem dali nem a bala, não lhes passa pela cachola que vez ou outra poderiam alternar o caminho, experimentar, explorar, se limitam a dar obsessivamente voltas e mais voltas num circuito tirano tal como aqueles turcos ensandecidos andando em torno da coluna do asilo no Expresso da Meia-Noite. Se minha vida fosse um filme, eu seria o carinha que vai contra. No parque, sou. As mulas me olham espantadas, que é que esse espírito-de-porco tá fazendo? Tem dia, minha diversão é passear no parque e subverter a ordem do mulódromo.
Passei uns meses internado num sanatório. Dezoito anos, não sabia como retomar o que chamam saúde mental, me recusava a enlouquecer. Infância e adolescência de relativa lucidez, equivalentes a cem anos de loucura. Não cometia insanidades. Não dizia bobagens. Não blasfemava. Não era violento. Maníaco, mas brando.
Um dia tive aquele ataque de nervos e quase destruí a casa. Dia dos meus anos. Coleguinhas arrebanhados em torno do lobo, digo, bolo. Tios me golpeando com olhares de severa censura. Quando olhei o escuro em volta da luz das duas velinhas, vi as coisas perigosamente calmas. Minha família não era suficientemente infeliz.
Não esqueço o rosto do meu pai quando vieram me buscar, os gorilas me dominando, a camisa-de-força, a injeção, arrastado para fora.
Me levaram numa ambulância. Me deram uns choques.
Podiam ter me trancado no quarto. Muitas famílias fazem isso com seus filhos.
Trancaram, no aniversário, antes que eu tivesse tempo de virar a mesa com o bolo e os copos de guaraná Antártica. Derrubei a porta a murros, gritando além do suportável. Os vizinhos chamaram a polícia.
O mundo gemia. Eu via todos fingindo estoicamente que não escutavam. Eu não sei fingir. Enlouquecia nas noites.
Meus pais moravam separados. Minha mãe usava aquele lenço vermelho no pescoço. Meu pai, aquele seu chapéu de caipira.
Éramos pobres, sempre fomos. Gente inculta. Tive a chance de me sofisticar.
Por uns tempos me orgulhei da minha estadia num manicômio.
Ficava horas sentado naquele jardim olhando os loucos naufragando em si mesmos sem poder fugir à beira do suicídio, a moça de tetas de jaca dia após dia vinha me perguntar já sarou? já sarou? toma este remédio que vai te fazer bem, estendendo um copo com sangue de sua menstruação, eu ria, inibido, até que um dia aceitei, o sangue resfriando minha língua, descendo pelo esôfago, circulando no meu cérebro em negativo se misturando aos meus sonhos, viajando pelos vasos em que trafegam as naves de todas as falas imanifestas, irrigando meu útero, rimos, ela bebeu também, agora sou tua mulher, querendo chorar sem poder.
Eles me visitavam todas as semanas mas não queria vê-los. Tua mãe vai morrer de desgosto. Veja meus joelhos calejados de tanto que rezo.
Ele ergue as calças até os joelhos para que eu comprove.
Passo os meses encolhido na cama em meu quarto, já não consigo andar, me surpreendo quando me locomovo. Estou com labirintite. Pai, me ajuda a atravessar as tábuas bambas deste chão.
Tenho medo de que você esteja apenas fazendo uma experiência. Que esteja fingindo.
Não estou fingindo que finjo.
Bem, é de fato uma experiência — a de que sou capaz de passar por louco. Convenço todos os médicos, o que não é fácil.
Porque a loucura está em seu olhar. No olhar de todos. Assim como a beleza. E a alegria. O que sei é que a loucura está guardada em minha mente feito um arquivo e quando dou por mim tenho de abrir a gaveta e vivenciá-la. É só um modo de olhar. É irmã da objetividade. Mas existem outras, muitas outras. Eu a escolhi pela necessidade de conforto, de não ter de lutar todos os dias pela sobrevivência feito um macaco de circo. Não me habituo à bonomia, não me apego ao papel de covarde. As implicações decorrentes são apenas acidentais.
A loucura é minha teatralização natural e legítima. Minhas recordações são curto-circuitos. Evitam que as coisas pareçam bem. Não me lembro do estado pré-demência.
Neste mundo neuroeletrônico em que existo meus sonhos são sonhos congelados, de quem não herdou nada, cinzas de um que não quis sobreviver.


Amorokê na vila - Capítulo 031

Preciso de sangue. 
Tive de reunir coragem para confessar isso. E me concentrar para soar singelo. 
Não posso permitir que pensem que estou com farol. Preciso de sangue e preciso que acreditem em mim. 
Preciso do elementar. 
Se souber de algo mais elementar que sangue, dê-mo. 
(Preciso, como preciso, da escorreição da minha língua.) 
Será a alma? O espírito? O limbo? 
Se for, como posso obtê-lo e lambê-lo e sorvê-lo e me embebedar? 
Não posso, sei. 
Por isso o que preciso é de sangue. 
Fresco, quente, rápido e urgente. 
Não muito. O suficiente para me lambusar o bigode e a barba, me deixando com a cara de bárbaro nórdico de que sempre tanto precisei e ainda preciso. 
Preciso de sangue, sangue que não é meu, cujo ressaibo me leve à onipotência, por parcos segundos que sejam, de que posso roubar a vida que não é minha. 
Preciso lamber, lamber, lamber a buceta menstruada mais linda e incontinenti do mundo até engasgar e morrer sufocado na minha própria volúpia. 

O escritor do tal de Fred

Lira imberbe de dor e solidão 
O escritor do tal de Fred está trancado em seu quarto em seu mundo de fantasias se recusando a dialogar com seus pais seus adversários imaginários ou não. Se acha um monge eleito portador da verdade divina. Todos os demais viventes encarnam a banalidade irrelevante.
O escritor do tal de Fred é um autoencarcerado revoltado típico. Não a revolta do fatigado justo daqueles que desejam conquistar oportunidades iguais. Sua revolta dormita subjacente na cama de lençóis perfumados a nostalgia recendendo a Omo em seu sangue envenenado. Assistir ao confinamento ao comportamento do escritor do tal de Fred no supremo poder de seu isolamento sua solidão é mais que suficiente para dar de ombros para proferir um veredito. Mesmo sozinho com seu copo de vodka de caipirinha de quiuí sujeitado entre os dedos, uma vela acesa bruxuleosa no ar condicionado ligado, centenas de livros fechados embolorados ao seu redor na mesa e à sua frente na estante, é um sujeito impotente, inadverbialmente raivoso.
A inveja infiltrando gosmenta nas fissuras de seus lamentos de anjo endemoniado inumado em falsas previsíveis saídas clichês de toda uma vida. Não há perdão para as humilhações as mágoas que seus desafetos legítimos ou por razões mórbidas forjados foram empilhando na despensa atrás do balcão do bazar lotado de escaninhos cor de casca de barata de sua cabeça. Quer precisa botar a culpa pelos erros do mundo em alguém que não ele mesmo e, incansável, autômato, cegamente resoluto, busca um bode expiatório que se disponha a renunciar ao balido permitindo o império do silêncio fecundo.  Para se defender de superar seus inimigos desenvolveu um elástico megalomaníaco inesticável se estendendo e retraindo à medida que enaltece os próprios “feitos”. Qual Christopher Hitchens, enxergar a realidade não é seu forte. (Admitamos que não seja o forte de quase ninguém, mas fica definitivamente feio para os que se pretendem inquiridores das gentes.) Flutua dentro dum estado de alucinação permanente amontoando frases que formam uma arenga a se repetir à náusea pelos combalidos linfáticos pronomes pessoais eu, eles, eles, eu, eu sou, eles são, eu fui, eles foram típico dos inócuos perturbados. O cinismo com que tão pleonasticamente denuncia seus torpes defeitos como meras burrices é característico dum gênio alienado.
Não é só. Atrás da porta do quarto está à espera do fim tendo renunciado à tarefa de aproveitar a experiência para amadurecer como qualquer ser vivente que já viveu e morreu neste planeta. Lendo com algo de atenção pode-se quase escutar sua vozinha fraca contraditória dum elefante tombado em decúbito dorsal cochichando uma reza sebenta de mágoa para que o escutem detrás dum monte que desde seu nascimento foi crescendo feito estalactite duma preguiça de operar os sentidos, prontamente identificável com quem se acha no direito de usufruir mesmo que não arregace as mangas se limitando a alimentar uma adoração neurótica às próprias afetações e gestual dramático diante do espelho.
Está praticamente cego e no entanto se enxerga sacador admitindo apenas com indulgência ser um homem culto que se tornou hostil a tudo que destoe do modelo espírito-intelectual que foi se moldando indolente às suas autoidealizações que feito enchurrada irresistível o conduziu à clausura sibarita obsessiva que requer a satisfação contínua quase exaustiva do deleite, pachorramente abdicante e alheio aos desafios inóspitos de quem se propõe retratar “almas” destituído dos métodos próprios dos metódicos. 
Sinto falta do ar envenenado na trêfega leitura das anotações do escritor do tal de Fred. Retorno sonâmbulo em círculo fechado surdo em parafuso ao beco sem saída onde a luz solar dança ora frenética ora vespertinamente pacífica nos telhados cor de terra da Alta Mogiana do mesmo beco. Cumpre desistir, reluto remotamente. Impossível montar algo minimamente inteligível desses milhares de estilhaços cuspidos por repulsiva força alimentada propelida a fel. Flanando a esmo rumo ao quintal cuns pedaços de papel nas mãos, vou me segurando nas havaianas para não meter o pé na jaca do primeiro degrau e mergulhar de cara descendo a escada que já estava aqui quando vim ao mundo e que desço e subo dia após dia e sou incapaz de engendrar um macete qualquer para desembaciar a vista e enxergar uma réstia da realidade e chegar a um desfecho, qualquer que seja ele, e abraçar saltitante um mundo que, dizem, é também meu.
Está certo, meu chapa, não é simples evitar que sob fervura nossas dores se abram feito milho e saltem que nem pipoca. Escritores são bichos em permanente crise sob o olhar longínquo, desinteressado, escalados contra a vontade para o serviço. Muito raramente você parece se aliviar, fica soltinho e leve, seus tormentos decantam no fundo do tacho e sentimentos mais puros, razoavelmente intactos, sobem até a tona.
Quando chego ao alpendre estou de saco vertiginosamente cheio e atiro os recortes na mesa e decido que minha salvação é um poema. A maior, a mais profunda das agonias, creia. Se falhar, não me restará nada senão brochar dentro do forninho cálido que Soninha mantém à minha disposição entre as pernas.
Sento e abasteço três-quartos o copo. O poema desbotou na parede da minha cabeça logo no terceiro degrau, restando apenas umas inscrições rupestres disformes. Nem tudo tem nome neste vasto mundo. Em Goethe, Heine e Schiller, impossível, a mais precisa das línguas não o permite, não é qualquer povo que se dá o luxo das desinências, ninguém vai mexer na ordem de O Freunde, nicht diese Töne.
Estou inerme, olho o céu pusilânime, recipiente vazio sentindo só o casco, preciso ultrapassar os ferros sensatos da razão. Não sei se já disse, fui ler Camões marmanjo. Não se lê Camões marmanjo. Velhos maiores de vinte anos já estão fatigados para os folguedos do caolho com a língua. Olha mãezinha a exaustão dos meus garranchos, a velhacaria dos meus truques.  No advento da maturidade os modernistas me trouxeram algum alívio à alma atormentada de garoto alérgico à poesia. Jamais esquecerei o primeiro encontro com Brecht.
Bato os olhos numa folha de jornal aberta na minha mesa. O crítico sagaz devassa os segredos de mais uma vítima. Adriano Espínola é o da vez.
“São versos notáveis pela capacidade de glosar, com leveza e humor, tanto o serpentário retórico de Camões ou do padre Vieira quanto o estilo epigramático de Sousândrade”.
Saco, acho, a sabedoria embutida nesses dois períodos, mesmo sem ter pendurado meus diplomas na parede e não ter mantido confortavelmente minh’alma num vidro de maionese cheio de álcool isopropílico no quartinho dos fundos bem alto na prateleira longe do alcance das crianças.
“...os quatro versos de “Verão”...
O sol é grande e breve.
A praia e as aves, livres.
A tua carne, alegre.
Sim, sobre ela eu lerei todos os livros.
...invertem o célebre “Brisa Marinha”, de Mallarmé (“a carne é triste, ai!, e já li todos os livros”).
Em minha inveja infinita que me ocupa feito um Argos Panoptes entalado num Gordini sobre cavaletes, não tenho mais forças sequer para soprar as velas acendidas ao sagrado. Sabe quando bate aquele cansaço sujo em que você só quer morrer? Não? Então você não sabe de nada.
Estou farto dos truques poéticos. Carne de ninguém é triste ou alegre aqui ou na China daqui a vinte anos a grande potência econômica, esmagando nossa solerte cultura ocidental, inaugurando a nova Idade Média e enterrando sob trezentos trilhões de toneladas de dióxido de carbono qualquer esperança de salvar o homem e a mulher e seu tolo efêmero samba-canção desafinado e fanhoso éter afora.
Carne é apenas fatalmente nauseabundamente flácida. Tal como os adjetivos e sua sinistra vocação à promiscuidade.
Escritores, poetas, torrando energia para se engambelarem uns aos outros poderiam salvar o planeta do trágico armagedão que assoma no horizonte qualhado de pipas lugubremente enroscadas em parabólicas.
Fujo de casa e caminho cabisbaixo na calçada esburacada e atravesso a rua rezando para que o busão da vila Gerty me atropele, advogadozinho de merda recitando Pessoa, citando Plath e tudo perdeu a graça.
Peço um rabo-de-galo ao Lacerda, o merda, que me serve eufórico com cara de quem está prestes a proferir solene uma passagem d'O castelo.
O rabo-de-galo encalha no pé do esôfago, onde parece se instalar para permanecer uma semana. Saio e subo. Na feira o batateiro exibe na camiseta uma estampa dos comedores de batatas do sujeito que, vendo-se incapaz de retratar a orelha direita em mais um de seus divinos auto-retratos, decepa-a a navalhadas. Volto e desço e me recolho ainda esperançoso. Atendo o telefone, a zinha do outro lado me oferece o plano telefônico da felicidade recitando Herberto Helder me perguntando ”será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?”
Um surrealista, redargo lívido, o mais pobre dos estilos. Quem o senhor preferiria em sua conta? rebate ela por sua máxima vez.
Olha, moça. Pelo amor de quem quer que seja que tenha inventado este mundo e nos posto nele, não faça da literatura um passa-tempo.
Da humanidade meu saco vai-se enchendo além do articulável.
Quero ficar louco.
Oquêi, ela sussurra sutil e prenha duma humanidade que eu jamais ousaria. Fique. Mas não vai adiantar nada. Isso eu garanto. Abaixo os pontos de interrogação.
Sílvia me traiu. Soninha me traiu. Eternamente. Minhas trigueiras. Minhas cafuzas. Baças capitus. Quero ficar louco, será pedir demais?


Amorokê na vila - Capítulo 030

Capítulo 030

Ele caminha a passo largo, que faz um semicírculo antes de pousar na areia. “Sente o terreno”, sei, como um felino, e não se permite qualquer distração. É uma forma complexa e densa de equilíbrio mental que me escapa, nem de uma mímica de contingência eu seria capaz, e me lembro quando o pai e o noivo de uma mocinha, Cláudia, a classe média chamava muito suas filhas de Cláudia na época, não se importando com a produção em série, pelo contrário, considerava-a cachê, eles vieram buscar a nossa Cláudia, deles, que pecara feio.

Paulo Francis

Acordei às 7 e tantos, ressaca cavalar, fui passear com Bia até a esquina e voltamos ambos de línguas de fora, a esquina fica a mais de 50 metros daqui, desci para o escritório no modo zumbi, em geral significa que não estou a fim de ir aonde estou indo nem a lugar algum, ligo o PC, li 1/2 dúzia de spams de consórcios de caminhão, convênios médicos, fórmulas para esticar o pinto, respondo alguns, deixo outros para mais tarde, trabalho uns 40 minutos, leio uns trechos dos 7 livros que estão abertos na minha mesa, leio jornais online, leio trechos de livros online, dá uma hora, subo pro alpendre, abasteço meu copo, bebo, encho outro, bebo, outro e outro, como de má vontade um saquinho de amendoim japonês pra forrar o esôfago, vou pro buteco aqui na frente, tomo umas caipirinhas “pra rebater, jesus” (já sem condições de fazer a contagem), volto, venho conferir emails, leio jornais de novo, escrevo aboborinhas até mais ou menos as 5, saio pra psicanalista, trocamos as bobagens racionalizantes de sempre, pergunto umas dez vezes se ela ainda tem aquela garrafa de Chivas Regal escondida atrás do divã, jura de pés juntos, não, pouco antes do término da sessão se deita ao meu lado no mesmo divã, que é que estou fazendo aqui deitado? odeio divã, damos uns amassos, me implora que a coma por trás, sua posição preferida, tento explicar que não tenho mais energia para transar, durante a explicação lhe passo a conversa, me dá pelo menos um gole, me deixa pendurar a sessão (devo estar devendo 35, se Freud não me deixa mentir), volto pra casa, abasteço o copo, sorvo, desço pro escritório, ligo a máquina, confiro emails, leio poemas do Leminski, infantis, escrevo umas porcarias, volto pro alpendre, reencho o copo e cá estou pronto para mais uma fantástica experiência nesta minha vida de fóssil embebido em álcool.
Me sinto um robô que faz parte dum mecanismo em que sou apenas uma pecinha sem importância e sem futuro e sem esperança enquanto a vida parece correr lá fora longe do meu alcance. 
Literatura requer coragem, a vida, não. A vida não requer nada, a literatura, tudo. A vida não requer nada porque viver não exige saber conjugar verbos diretos ou indiretos. A vida não se presta a nada, pois não existe. É apenas um nome abstrato inventado para designar a combinação formada pela incidência e as cores das luzes, a reverberação dos sons e seus ecos, a intangibilidade do frescor da neblina. Acima de tudo, a incomensurável passagem do tempo. Que nossos tolos relógios ficam loucos tentando medir.
Balbuciar “vida” é criar uma prece de exaltação ao esquecimento. Pensamos que sabemos do que falamos quando proferimos esse nome. Mas quando falamos “vida”, o tempo simplesmente para pela duração necessária para pronunciarmos as duas sílabas enquanto algo desmorona dentro de nós num movimento gigantesco e inaudível, insentido, que os cadáveres apanhados nos acidentes do dia a dia vislumbraram em toda sua magnificência e horror um segundo antes de ver seu mundo carregado embora. A vida é uma montanha que rui, rui e rui quando pensamos que é nossa missão enfrentá-la. É apenas uma ideia cheia de vácuo que imaginamos estar sempre guardadinha ao alcance da nossa necessidade de substância.
A literatura requer tudo porque é feita da vida que não há mas que mesmo assim constitui sua origem e sua base. Para mim e, acho, para quem quer que escreva, é vicária, exerce um papel de substituta na falta de algo mais apropriado. Como tal, quebra-galho. As palavras são seus constituintes, e como comprovou o linguista francês Saussure, são arbitrárias. Não têm nenhuma relação legítima ou de causa e efeito com o que conotam.
A literatura, impossibilitada de compreender algo que é inalcançável às palavras, tem de se contentar com tratar de gente como a gente através do teclado de gente como a gente. Ainda se nosso teclado tivesse tivesse bilhões de teclas...
Daí um sinal de alerta aos frívolos que dispensam os que se dispõem a tentar agarrar o rabo da besta sumariamente c'um seco piparote de seus dedões limpos do sangue e a assepsia de sua inaquilatável ingenuidade.
Leio Blake desde rapazote e por anos mantive London numa moldura pendurada numa das paredes do meu escritório entre uma foto em que Pessoa está diante dum balcão virando um copo de Clarete e um retrato de Kafka amarguradíssimo. Minhas paredes eram cobertas dos grandes. Me sentia protegido e meio cúmplice. Um dia tirei tudo, deixei só o Kafka, imagino que sem nenhuma razão particular.
Não acho que exista (grande) poeta que se mantenha ao largo do excesso ou não se devote a buscar algo de sabedoria. Assim como não há grande poeta que passe a existência propalando esse otimismo bobo do de-bem-coa-vida. Não existem grandes poetas otimistas, joviais, assertivos, leves. Period. Paragraph. Colon.
Tenho dúvida se experiências intensas sempre são enriquecedoras. O que sei é que são as que ficam e que isso é o óbvio.
Também tenho (grande) dúvida sobre a utilidade da experiência na formação do meu intelecto. Digo, A Experiência, não apenas as ruins. Venho guardando diligentemente comigo muito do que vivi na adolescência e nunca deixo de sentir inveja de mim naquela época quando lembro. Ser provido de recursos vocabulares para apreender a experiência não é a questão aqui. A adolescência é um distanciamento do mundo tão assoberbante e autêntico, que passamos (nós, deslocados) o resto da vida tentando compreender e, tomara, reviver. O que nos deixa um travo azedo na boca. Tudo parece ter sua hora.
Rimbaud atingiu seu auge estético aos parcos 16 anos. Nessa idade eu ainda lia tudo que me caísse nas mãos, absolutamente inseguro de que rumo tomar. Se eu-aquele pudesse ter perguntado a eu-este, eu-este responderia, esquece essa bobagem de rumo. Eis um dos grandes problemas do fenômeno da experiência. Esta faz parte do nosso instinto de sobrevivência e leva de roldão quase tudo que pensamos ter de sagrado em nós.
Iluminação? (Estou me esforçando para resistir a uma das minhas piadas.)
Se dissesse quantas vezes atinjo a “iluminação” num só dia, você na certa riria. Iluminação, e “rumo”, são conceitos que me enfiam na cachola desde que aprendi a falar e de que, junto com todo o resto de lixo alheio que me obrigaram a aceitar como meu, me esforço dia após dia para deitar fora.
Pensar de verdade exige demolir os monumentos mentais que nos inculcam desde o berço em nome da sobrevivência. Ponto para a raça. Afinal não devemos desprezar os 5 mil anos em que vimos aprendendo a derrotar a natureza para não morrer de fome e frio. Mas, de novo, nada a ver com escrever. Por que não escrever no escuro? É, acho, o que fazem os escritores em sua maioria. A escrita tem uma luz própria que leva indiferente o autor subjugado e que prescinde da nossa. De minha parte comecei a escrever do jeito que gosto depois que percebi que tinha de me desfazer dos monumentos erguidos por outros. Aos vinte, escrevia empolado e insincero qual um causídico fazendo um pleito a um magistrado. Acho que é por isso que muitos escritores jogam na lata de lixo grande parte do que verteram antes de atingir a “maturidade intelectual”. Hoje obro muita porcaria e me dou por satisfeito.
A iluminação excelsa só cabe aos excelsos. E na forma como vejo as coisas hoje, iluminação para mim guarda uma irrecorrível conotação de religiosidade e dessa procuro cair fora no ato. Os budistas dizem ser extremamente iluminados mas parecem não saber necas de si mesmos. E ainda cometem terríveis injustiças em nome de sua inner light.
Bebo, e fumo, por prazer, não necessidade ou buscando inspiração. Com o tempo você aprende que o prazer é um bom critério de desempate. Na falta de outros minimamente confiáveis. Que outras alternativas você tem? Seu pai lhe ensinou a salvar a própria pele e tal ensinamento mastodôntico acachapa todos os outros que no fundo você sabe que devia, ou podia, ter aprendido e não aprendeu.
Para mim particularmente é aprendizado recente. Sempre cometi “excessos”. Mas antes eram pelas razões e para os propósitos errados. Na maioria me levavam a fugir, sem nenhuma ideia para onde. A fuga, tal como o rumo, talvez seja o maior dos nossos erros. Nos ensinam a ser covardes, lição que se enraíza indelevelmente do nosso cérebro. E as implicações são simplesmente nefastas. Desenvolvemos uma blindagem de que nada sai e em que nada entra. E nos enclausuramos numa casamata, munidos duma arma que não sabemos direito o que seja, para derrotar inimigos que não sabemos direito quem são.
Não, meus “excessos” não fizeram nem fazem de mim um visionário. Não quero nenhum poder de enxergar além, de mim ou do que quer que seja. Minha limitadíssima realidade me basta. E é imensamente mais do que sou capaz de destrinchar. Meu escritório, onde passo 18 horas do dia, fica lá nos fundos do quintal a 30 metros da minha casa. Me dou por feliz quando ao longo desse trajeto que percorro em 20 segundos, consigo descer um tico em direção às profundezas cuja porta ora encontro aberta, ora sequer desconfio que exista e tenho a chance de ligar o computador ainda retendo algo digno de nota. É raro, muito. Minha cabeça tem foro próprio e não dá pelota às minhas vontades. Eis outra lição que aprendi tarde. Antes vivia tentando botá-la num arreio, guiá-la pelas belas sendas da imaginação. Minha luta diária é exercitar o descontrole. Não é moleza, ó mãe.
Lamento tremendamente por quem chegou a um nível de depressão equivalente ao meu e torço para que consiga se safar. Deprimidos me dão vontade de chorar, por conhecimento de causa.
Sempre curti brincar de deprimido. Não sabia distinguir de tristeza, bode, tédio, ódio, normalidades normais. Vejo moleques por aí se proclamando deprimidos e lastimo que nem imaginam a fria em que pretendem se meter.
Na minha família é herdada. A minha foi deflagrada com a morte da minha mãe em primeiro de setembro de 2009 aos 95, os últimos cinco anos prostrada de fadiga de viver, sinais diários do fim, e eu me considerava relativamente preparado. Outra vez, as peças que a racionalização nos prega.
Na semana seguinte, lendo um livro não lembro qual, de repente me senti num estado inédito e irreconhecível. Até aí, mais ou menos normal, sempre tive mudanças de humor. Imaginei que amanhã passaria como das outras vezes. Piorou, mas. Em dois dias estava catatônico, inerme, destituído de pensamentos e vontades e desejos e senso de autopreservação. Levei dois meses pra admitir que precisava de ajuda. Se vivesse sozinho, seria definitivamente o fim. Morreria de olhar fixo no teto rachado do quarto.
Minha depressão é périplo íntimo, certezas castradoras, coragem de se atrever à viagem, Blake, o excesso de mim mesmo.
Vou fazer um tipo de confidência. Talvez um dia publique estas anotações e sei que é um perigo dar munição a desconhecidos — depois podem querer usar minha sinceridade contra mim. Já aconteceu antes. Mas não me preocupa muito. Quando acontecer de novo reagirei de acordo com o estado mental em que estiver na hora. Serei furibundo. Não tolero safados.
Em algum momento entre a pós-adolescência e a idade da razão experimentei um turning point. Minhas certezas mais instintivas e naturais cederam terreno às injunções do pragmatismo vital. Foi exatamente quando emergiram minhas primeiras noções do que significa ser adulto e responsável. Renunciei ao meu “projeto” pessoal, pois que o tinha muito bem claro na cabeça, para me submeter às inexoráveis rodas de que falava Herman Hesse com o assombro da criança de pureza violada.
Por encanto (as tais injunções etárias são de fato irresistíveis), vi que chegara a hora de abandonar minhas ilusões infantis e finalmente partir para a briga. Parei de escrever, deixei as drogas pesadas, casei e me coloquei à disposição da vida para que ela me conduzisse pelo caminho que lhe aprouvesse.
Agora só quero, e posso, adiantar que a vida efetivamente me tomou pelo braço e tem me puxado, ora a contragosto, ora de olhos deliciosamente fechados, em direções insuspeitas.
Mas (?) tenho presente que um dia lá trás fui meu próprio senhor. Não há como não fantasiar o que poderia ter sido e não fui. A única certeza é que estaria morto, sem considerar o mérito da questão.
Sei que não demonstrei nada do que pretendia demonstrar. Não queria demonstrar nada. Aos meus desafetos, prato cheio. Pior para eles, sempre à espreita duma boa presa mas eternamente esfomeados.
Duvide. Duvide dos seus pensamentos, das suas fantasias, dos seus sonhos. Duvide do instinto do cão que se acha no dever de perseguir o gato. Duvide do que lhe dizem. Das suas dúvidas. Duvide de mim, duvide de você.
Duvide do seu caminho, duvide que possam haver caminhos. A noção de rumo, fuga e caminho é demasiadamente física, evocadora do remoto, inacessível mundo lá de fora. Não quero andar, seguir a lua nem o sol. Minhas ruas não estão no Googlemaps. Os astros simplesmente transladam incônscios de suas órbitas. Se soubessem, provavelmente se rebelariam de seu destino e provocariam a hecatombe final. Por mim, nada contra.


iw qualquer coisa

David Foster Wallace (e quem quer que tenha neurônios, for that matter) lascava o cacete na indústria cultural americana que investia(e) pesado na nostalgia pra vender bidu. Concordo, ainda não perdi de todo meus neurônios, pero la nostalgia é a última arma que me resta quando tudo mais falha, e falha (falência) tem sido minha constante desde meus seis meses de idade, piorando à exacerbação nesta minha terceira, e última, químio. Related individuals já estão notificados, é o ponto final, chega de padecer ingloriamente nas garras de doctors ultraleves e enfermeiras bisonhas e carniceiros em geral. Há uns meses meu onco me pergunta pela enésima “como vai indo?”, “se soubesse que o câncer era tão gostoso, tinha pegado antes”, respondo pra calar a boca do miserável. Depois dessa o sicofanta mantém os olhos no chão quando chego. Pelo menos parou de estender a mão, o toque alheio me dá nojo. O riso e o de-bem-com-o-bidu são onipresentes no ambulatório, nas consultas, na coleta onde me arrancam meu sangue aguado a cada duas semanas. Outro dia a zinha me pergunta se tenho religião, se acredito em alguma coisa, acreditar ajuda, viu seu Vilson. Vilson é a puta que los paril. Ainda não estou pronto pra esse tipo de troco mas devo chegar lá em duas ou três semanas. Eis o insulto supremo, embora deteste meu nome. A única explicação plausível é um insider ter passado a info à sirigaita, nada me bota mais iracundo. Tumores são capazes de eclodir alhures aqui dentro. Psicopatias partem em jornada interestelar por meu cérebro em classe executiva. Contenho pendores homicidas a muito, muuuuito custo. Vilson é o pai. A mãe. A vó. O tio da vó. A vó do tio da vó, puta merda. Que, torço sofregamente, deve estar bem mortinha. Vilson é o último personagem de Macunaíma antes de Mário de Andrade cortar 5 dos 7 cadernos originais. Vilson é o D.F. Wallace enforcado na sala de casa, com cujo cadáver a esposa deparou num prosaico abrir da porta da frente.
A bem da mentira, acho que nunca resisti a um ataque nostálgico. Talvez experimente no próximo, daqui a minutos. Um professor da ECA implicava connosotros quando não determinávamos a quantidade. Okay, daqui a oito’. Uma noite esbarramos no Bate-Pinga na entrada da Cidade Universitária, esculhambei com ele, inteiramente, totalitariamente ao meu feitio quando não estou melancólico/nostálgico, dando meu show pros dois ou três membros semi-eretos da Libelu também na mesa, arrebatados com minha eloquência e topete. Mecanismo compensatório, praga das pragas, nos impede de atingir uma verdade mínima que seja de nós mesmos, forçando detours, impondo equivalências. Durante a beberagem ele insistia em tocar minha mão, que eu afastava irritado, sem intenções inexplícitas, suponho. Lhe disse que era/sou como Cézanne, averso ao bidu, o cara se desconcerta, não sabia, professor da ECA, sei, escola de comunicações, vocês precisam ver o que Paulo Francis tem a dizer sobre a mudança do nome de Jornalismo para Comunicações em A segunda mais antiga profissão do mundo, olho em volta, legiões de bichos-grilos convictos de que mudariam o mundo amanhã, depois, quando lhes desse bidu, a ingenuidade da juventude aliada à insolência dos commies, todos de barba por fazer como eu, muitos quarentões, esquenta-bancos universotários que deixavam os carrões na garagem pra não pegar mal, inúmeros canhões de cara mas bem-feitas de arquitetura, que coxas, que glúteos, que, ó mãezinha que me deixou só neste vasto mundo, ventres, o ventre feminino enxuto, ligeiramente abaulado me faz poeta, espanta minha tristeza, resgata, ugh, dois por cento da minha crença no ser humano. Umas asiáticas, christ, imbatíveis quando belas. Belo, bidu, me enchi de matracas estéreis e salvadores do mundo e caí no mundo numa das incontáveis rendições de que me orgulharei ao túmulo, a universidade neste país é uma piada, really, e segundo um olheiro particular postado em cargo-chave só tem piorado no esquerdismo calhorda e canalha de professores e bidu.
Hoje tenho o cabelo e a barba raspados, não espero ninguém, ninguém me espera, ninguém me visita, não visito ninguém, trocar ideia só com meus dois marmanjos do coração e olhe lá, a perda de tesão da idade é fato, creia, paixões viram cinza, a esperança dormita moribunda sob estertores latejados, os horizontes morreram neste infindo, mortalmente alvo álgido descampado vazio.
Tal como o flagelo da nostalgia, passar a vida num cemitério gélido não é opcional. Este papo é, estou ciente, pesadérrimo. Sou um artista apenas mediano, muito longe dos grandes, mas também sei que esta é a conversa que os grandes levam, não que seja esta a razão por que bidu. Papo furado me dá nos nervos, no meu tempo esticava minha mudez ao extremo, o pessoal me dava aquele olharzinho oblíquo de quem está diante dum etê, nunca me incomodei, hoje me incomodo que me exijam que tome parte da enorme ciranda nefasta dos frívolos bon-vivants, me conformo pensando que eles não têm ideia do que Eugene O’Neill está falando, se pudessem matariam os poetas no útero em seu esquerdismo pragmático burro em cíclica autoimolação expiatória.
Pausa para os e-mails, como aprendi a escrever lidando com a indústria, de que nunca falei nem vou falar, não há vida inteligente, apenas concorrência biológica a mais grotesca, definição que quem não me conhece tomaria por de esquerda. Já fui, naturalmente, ainda sou um tico mas nada que se encaixe nos dogmas dos babacas que se matam para ocupar um lugarzinho no, ugh, espectro ideológico. Como já disse inúmeras bidu, sou tal qual Rubem Fonseca, idiossincrático. (Como já disse inúmeras bidu, Fonseca, acossado por jornalistas num evento comercial a que deve ter comparecido de malíssima vontade, teve de se declarar como tal pra cortar a onda. Garanto que se arrependeu de ter atendido ao convite de seu editor.)
Nostalgia é lance absolutamente narcísico e nenhum escritor digno bidu está isento do narcisismo. Abundam explicações ruins sobre por que alguém escreve. Para Leo Rosten o escritor tem necessidade de, jesus, partilhar, palavrão que nunca imaginei um dia ia ia teclaria com estes longos dedos de músico inspirado porém incompetente que papai me deixou. “Atrás” da partilha viria a necessidade de ser, hmmm, compreendido. Compreendido, eu? Pela enésima, não me entendo nem espero que outros me e não será escrevendo que haverei nem haverão de. Quero o que todos queremos,  me exibir. Rosten pretendia que o escritor busca mais compreensão do que respeito ou elogios ou “até” amor. Mas não se enganou por completo, em outro momento decretou que “todo escritor é narcisista, o que não significa que seja volúvel, apenas um arrematado egoísta”. Os grandes também adoram dar pitaco. Benjamin Franklin, enquanto empinava papagaio e descobria a eletricidade, foi lapidar, obviamente: “Escreva o que valha a pena ler ou faça o que valha a pena escrever” (fica muito melhor no inglês que prescinde da preposição no caso mas minha tradução é quase tão genial quanto). Confirmando o que penso do assunto, Cyril Connolly disse que “é melhor escrever para você mesmo e não ter público do que escrever para o público e não ter você mesmo”.  Outro grande, Somerset Maugham, cravou que só um escritor medíocre sempre dá o melhor de si” (putz, essa é digna dos contos do cara). E minha amada Sylvia Plath vem com um dístico à altura de sua poesia: “Pode-se escrever sobre qualquer coisa na vida, desde que se tenha peito para tanto, além de imaginação para improvisar. O maior inimigo da criatividade é a autodúvida”.

Quando não estou nostálgico, quando meus mecanismos compensatórios me dão uma pequena trégua, vejo esfarelar diante dos meus olhinhos tristes minhas dúvidas sobre mim mesmo, agarro minhas dores e meus amores com toda a volúpia de que sou capaz e degringolo neste parafuso enlouquecido. Cutuco meus talentos e minhas fraquezas, dou o melhor de mim, escrevo o que vale a pena e o que não vale, cometo barbaridades, logro efeitos dourados, me amo, me odeio, improviso e planejo e toco em qualquer coisa existente neste mundo, desde que exista em mim. 

210jjwi

Peguei uma equação do terceiro grau e tomei três pontos de LSD
E me arrastei infindo pelo quintal e bradei o nome da minha antiga professora Lourdinha
E pisei fora do universo, só as pontinhas dos artelhos no meu próprio escopo
E bailei e bailei e bailei qual primeiro dançarino do Bolshoi
E diante dos meus olhos desfilaram meus heróis
E repousei sobre a lápide do meu túmulo por cinco dias e cinco noites
E os palhaços no picadeiro da minha vida não eram insanos
E os gigantes que suportavam o meu mundo não eram gigantes
E a profa. Lourdinha fez um striptease e estava jovem e sexy e não me falou de problemas
E a classe rugia "MAIS UM!" "MAIS UMA" e as paredes não faziam eco
E viajei duma ponta à outra à outra à outra da esfera da bandeira nacional
E meus inimigos não mais resistiam aos meus comandos
E a soma dos policiais no meu encalço nunca deu zero
E vomitei a geleia mágica dos meus amores pelas ruas da cidade
E pela primeira vez não perdi a esperança nos arredores dos bueiros
E me arrastei mais uma vez pelo corredor, pela cozinha, pela sala
E pelos estados do Brasil
E nasci outro em cada região sem nome nem família
E embarquei em meu navio-fantasma, ordenando ao tarefeiro
"A única saída é cairmos mortos de tristeza...
...fecharmos a matraca, enfim"
E os israelenses, trucidando mais cinco mil palestinos,
não calcularam que bx ao cubo mais ax ao quadrado nunca incluiu mulheres e crianças
E meu colega predileto pela primeira vez pareceu destemido, bonito e sedutor
E logrei anotar numa embalagem de paçoca minha última canção

Não fossem os lugares comuns, como é
que diria o que penso que sinto?
Talvez inventasse sintaxes
novas, balbuciando sílabas
sem língua e cantarolando de dentro
dum poço
Como é difícil abrir a porta e
sair à luz ou vicejar à
sombra

Dancei meu ritual, nos lábios um baseado com gosto de café
E reencontrei a esperança na minha letra tíbia de menino adolescente
Ah, fessora de pernas bojudas de cujo nome não me lembro
Quão bela é tua arquitetura
Na Paulista os periquitos exigem a queda da Dilma
Menina que roga o direito de ser ouvida
E flores eram usadas no lugar do dinheiro
E o Black Sabbath entoava Paranoid com as bocas cheias de biscoitos de Marília
E alguém no meio da classe debochou "Cria vergonha nessa cara ossuda!"
E me arrastei pelo pátrio pelo portão pelas calçadas e
Em casa mama prepara sua proverbial receita de pavê com cogumelo
E me despacha de volta para a lavanderia e
Aproveito para jogar uma pelada sem bola com minha sombra


O Tribunal está armado e são todos ultraconservadores
E se prepara a grande festa cujo ápice será minha explosão
"Mas ele quer ser artista?" espanta-se uma tia, abocanhando o palitinho de salsicha empanada e lavando o esôfago c'um copo de Grapette
Terceiro olhar para as melhores garotas do pedaço
Sílvia, ah Sílvia, me deixa enfiar a cabeça por sob essa tua saia de tergal listrada de branco e negro e dar uma lambida em tua bucetinha túrgida, inflamada de virgindade
Antes vamos dar uma passada no bar, meu bem, porém
E a tempestade de rum Bacardy desabada dentro da sala, afogando os enroladinhos em rios de tépido guaraná
E é domingo e preciso fugir: os canhões estão assestados para a minha testa
E saímos a passeio pelos campos de guerra
E meu colega predileto me pergunta, você se sente...?
Não sabia que você era homo, respondo, lançando um olhar de soslaio aos juízes que acabaram de condenar à forca os nazistas em Nurembergue
Pena que ainda não inventaram o Uber, Sílvia cochicha com a doçura de todas as doçuras bem pertinho do meu ouvido direito à medida que entramos no viveiro de laranjeiras que papai prometeu construir aquela madrugada em que nasci
E dona Lourdinha arranca a página do caderno onde meu amigo Gervak desenhava dona Terezinha, profe de geografia, cavalgando um alazão nua à frente das hostes inimigas
ATACAR!
O senhor precisa ser mais ambicioso. Vou mandar uma nota aos seus pais junto com seu boletim recheado de zeros à esquerda.
O sinal do recreio toca, Sílvia desapareceu e amanhã, me dizem, é feriado, o grupo vai brincar de autorama no grande pista da Av. São João, à frente o punheteiro que homenageava a aloooourada professora de artes todas as manhãs c'uma bronha fulminante
E eu evitando olhar Sílvia que certamente o olhava maravilhada
Sete de setembro, o dia em que levei meu amigo judeu Oscar pra casa e ele se encantou com os mistérios do meu quarto
E dizem que não há alternativa ao Tronco do ipê no terceiro ano
De que leio linha a linha morrendo de sono e tédio
E minha irmã entra no quarto rezingando que devia me envergonhar
E as flores começam a se converter em dinheiro
E o judeuzinho promete que volta na quinta-feira
E meu colega Haroldo enfim chega com o ele-pê do Black Sabbath
E felicidade e dever nunca mais se misturaram
E a vida não parece tão fácil quanto não prometi a mim mesmo
E explodo, por fim, esparramando uma névoa de orégano nas tardezinhas de sábado
E meu próximo sonho seria com a Califórnia, tal como deixei registrado em meus cadernos de adolescente suicida
E seria longa a caminhada até San Francisco, ainda mais para um sujeitinho confuso e trôpego com aspiração a zumbi
E o pequeno pajem desponta lá no fundo do comprido corredor da matriz, anunciando o casório da irmã mais velha, o grande amor perdido
É o dia da independência e não posso sonhar
E não fui abençoado com a graça das lágrimas
E o último dia em que vi meu amigo judeu foi no cinema em que fôramos assistir ao festival de Woodstock
E veio a primeira visita da Morte, levando papai
Trazendo consigo a certeza de que era muito tolo e confuso para almejar a uma vitória na Grande Corrida
"Estou incrivelmente triste", choramingo mas não há ninguém ao meu lado
E tem início minha temporada de sessenta anos que, deduzo, passará assim ó
E florescem meus delírios enquanto desço a grande avenida ladeada de lojas esplendorosamente iluminadas
E, invisível, dobro a esquina para o beco escuro



iw023eb

Somos todos de espermatozoides do mesmo saco.

iw012jj

É esse sono que não me deixa dormir.

Novo capítulo do meu idílio pra cabra-macho:

Capítulo 19


Amorokê na vila - Capítulo 029

Eu sou ninguém! Quem é você?
Ninguém também?
Então somos dois — não espalhe!
Você sabe — eles fariam alarde! 

Emily Dickinson 

Peguei o bilhete, fiquei ali em pé parado arado ado.
Fiquei tão
[  ] atônito
[  ] decepcionado
[  ] intrigado
[  ] feliz
[  ] todas as anteriores
[  ] ou nenhuma

que achei melhor

[  ] silenciar
[  ] fingir que não vi
[  ] chorar qual bezerro desmamado
[  ] tomar 1/2 garrafa de Teachers
[  ] tomar 1 garrafa de Passport
[  ] todas as anteriores

A princípio pensei em escrever uma resposta de cento e cinquenta páginas. Depois desisti — afinal, você nunca leu o que escrevo, ou se leu não entendeu, ou se entendeu não deu lhufas, ou se deu, sei lá que raios achou do que escrevi pra você.
Seja como for, já estou escrevendo a porra da resposta. Já tenho ela todinha pronta aqui neste inferninho que é a minha cabeçorra de tartaruga endoidecida. Vou escrever mas não vou te esculhambar. Durante esses quinze ou oitenta meses depois que me deixou, escrevi pacas pra você. Mas não vou te mostrar. Primeiro, pelas razões apontadas acima. Segundo, você não merece.
“E tudo ficaria tão simples”
[Se leu as anotações do escritor do tal de Fred usadas para a constituição do  Capítulo 009, você haverá de lembrar que a frase acima nunca foi escrita por Sílvia.]
Que diabo significa essa frase? “Tudo” o quê? “Simples” como?
Um dia disse que te achava honesta. Mas essa tua afirmação aí não tem nada de honesta. Que raio de simplicidade você quer? Um cemitério é simples. Um hospital é simples. Um cadáver anestesiado de vida é simples. Ou, em vez de simples, você quis dizer passivo? Conformado? Perturbado-mas-só-a-ponto-de-causar-frisson? E VOCÊ? Que é que VOCÊ quer de mim? Mais um figurante no filminho da tua vida? Um zumbi com quem trocar caleidoscópicas impressões sobre a defunta em que você se transformou? Ou não tenho direito de perguntar, pois, afinal, sou eu quem ama aqui? Se sou eu quem te perde? Se sou eu quem te busca?

Hm, como deve ter sido gostoso ficar lá longe gozando meus destemperos. Ah lindinha, eu queria tanto que você saísse desse teu fleuma besta de donzela cortejada e me dissesse o que pensa dos meus destemperos. Ou será que não são sequer destemperos mas apenas truques manjados dum safado que nunca abriu o jogo? Ah, lembrei. Sou um covarde. Chovo sem molhar. Furo a água. Puta merda, não imaginei que seu bilhete de despedida e esse teu pragmatismo me irritariam assim tão rápido. Lembra quando nas copas do mundo vem aquele papo nos programas esportivos? Os caras ficam discutindo o que é melhor, o futebol-arte ou o “jogo de resultados”. você é adepta da segunda alternativa, claro. A vitória é tudo. Apenas jogar não enche barriga. Quem diria, a Parreira dos meus amores. Pra quem todo empate é uma vitória. Lembra quando você era minha musa? Ainda é. Mesmo a contragosto. Me inspirava. E me inspirou por um bom tempo. Você vai querer saber QUANTO tempo, claro. No teu esquema, é necessário saber essas coisas. Me diz uma coisa (já perguntei, você não respondeu, quero perguntar de novo), por que é você vive dizendo que “gosta” de poesia aí? E por que é que fica citando a Ana Cristina? Cazzo, você não gosta de poesia. No teu esquema de resultados, você vai dizer que não tenho nada a ver com isso, claro. Na minha falta de esquemas, te amo e tenho a ver com que eu quiser. E o Dostoievski? Não venha me dizer que já leu Dostoievski. Pode ter roçado na orelha dele, mas ler, never. E aquele papo de quando nos conhecemos, que me admirava por eu ser excêntrico, ei! Sim, sou excêntrico, estou aqui, bem na tua frente, não, desculpe, excêntrico pra mim é coisa de maricas, excêntrico era aos 6 anos, estou mais pra doidivanas, destrambelhado, facínora, alucinado, [x] todas as anteriores, ingênuos como você que estão sempre se assombrando “que loucura!” nem imaginam o que seja loucura, ei! olha um louco bem aqui! legitimamente lelé da cuca, vem, Lindinha, vem se fascinar com a MINHA loucura! ué, o que é que esse louco quer de mim? Afinal loucos não me intrigam? Terei ou não terei essa quedinha por malucos? Me diga pelo amor do diabo, seu louco, o que é que você quer de mim?
Pensava te conhecer um tico. Mesmo assim me surpreendi com teu tom escandalizado. Uau, vi Bete Davis se voltando de repente e me intimando: “O QUE QUER DE MIM?” Fiquei boquiaberto, desarmado, inerme, [  ] todas as anteriores.

Sei lá o que quero de você, porra. Quero teu sangue, teus dias, tuas tardes, tuas noites, tua boca, tua buceta, teus olhares, teus pensamentos, quero te raptar e te trancafiar numa cela e te fazer minha escrava e te torturar e te fazer implorar minha complacência, cuidando apenas para que você só morra quando eu mesmo não puder mais viver. Sei exatamente o quero de você. Mas isso vou deixar pros textos que escrevo e que nunca vou te mostrar porque a tua insensibilidade me deixa doente, mais do que já sou, e vou continuar a fazer esse PPP (papel de poeta patético) enquanto me der na telha, enquanto puder te alcançar com as minhas palavras, enquanto puder realizar em minha fantasias sonhos que jamais vão se realizar, pois, como já também disse, se é sonho, não é pra ser realizado. Te amo e fôdasse o que você ache ou deixe de achar.