Almôndegas com pouco sal 9

A longa fila dobra a esquina. Depois a outra e a outra. Quase dá volta no quarteirão.
Homens, mulheres, moças e garotões trocam de pé de apoio, abrem e fecham os punhos, bocejam, resmungam, torcem o nariz, fazem as mais variadas caretas.
À medida que, lentamente, se aproximam da porta do modesto sobrado malcuidado e de paredes descascadas, vão lendo demoradamente a placa pendurada sobre a soleira:
“FECHAMOS OLHOS. TAMPAMOS OUVIDOS. CALAMOS BOCAS. ABAFAMOS VIDAS.”

Pego na rede

Acordo, me ergo e preciso
E espremo esponjas inchadas de passado
Não revelo o que guarda tua barriga prenha
Tomo fôlego
Afundo a cabeça no travesseiro
Peço que ponhas o vestido de algodão
Com mão trêmula, levo o copo aos lábios
E o largo no ar antes que o veneno entorne

Adoça de riso esta manhã que infecta o futuro
Antes que me cale, antes que me deite

Ensurdecer

Não quero música
Enganar meus ouvidos com notas
Forjadas
Primitivas
Devastadoras
Fugidas de instrumentos
encantados
Simulacros do preciso
Preciso, sim, do som
Estridente
Rancoroso
Arranhando os ouvidos do mundo
Desfeito
desnascido
em mim

Doido

Leis há contra as quais ninguém pode ousar pecar.
Idiossincrasias, você proporia?
Nem tais leis se deixam abalar por circunstâncias fugazes.
Me dirijo a mim mesmo, o doido sou eu.
Das doidices por aí, todas tão light — o obsessivo por comandar a festa, a maníaca por alguém que a reconheça talentosa — eu sou o mais encanado.
Você quer — me parece certo — você quer a prova de sangue.
Esta nunca houve, pelo que eu saiba.
Talvez prefira ver o quintal tinto de carmim?
Não posso me negar a reconhecer, ficaria bonito.
Deitados, assistiríamos cada lajota de ardósia se recobrindo do vinho azedo que mofa em nossas veias.
Até finalmente descobrirmos para onde podem correr os fios líquidos das nossas vidas.

Ao pó, ao pai

Eis o filho da guerra que travaste contra ti mesmo
Negro fumo erguido das tuas batalhas asfixiantes,
Cegueira do meu olhar
Corda com que amarraste teus próprios cacos,
Algema dos meus pulsos

Hoje, quando te rompes
Aqui recolho tuas partes
Espalhadas pelas estradas intactas
Que constituíram cada uma das noites
Condensadas em cada segundo do dia

Dos milhões que foste durante os milhões de séculos que vivo
Legaste um que nunca consegui conhecer

Lembra quando me soltaste dos teus braços para pegar o morteiro
que mais uma vez precisavas mirar contra teu coração?
Tens travado na garganta
O grito que não deste
Tenho ecoando nos ouvidos
O grito que não escutei

As paredes estão cobertas de sangue?

Desempenhando o papel insuficiente de filho de Deus
No palco dos nossos dias
Não te ensinei a ensinar-me a viver
Pois ensina-me agora a morrer

Oração

Para não me perder
Sigo a avenida desconhecida.
Chegando à beira dos trilhos,
vejo passar o trem que nunca
para nesta estação
Deixando no ar restos de ruídos
dum quando sem onde

Se estivesse no trem, mesmo
de língua arrancada, rezaria
a súplica que todos
escutam quando dormem.

Volto.
Para não me perder
Neste dia sem amanhã
Trilho o caminho que jamais trilhei.

Espera

Viro solto
Envolto passo
Em mero traço
Resto e ergo
Posso e canso
Em mim
Toco a cara
Renasço rei
Troco predo
Pro alto cuspo
Mordo traio
Domingo arrulho
Sonífero fardo
(Pois agora que perdi tanto tempo já não tenho o que esperar)

Almôndegas com pouco sal 11

Eu a vi novamente no meu sonho esta noite. Estava linda com seus cabelos castanhos lisos sobre os ombros, sinfônica harmoniosa a lhe proteger a cabeça numa auréola sonora.
Eu a vi de longe, do meu planeta, perdido pelas ruas, como sempre.
Ela sorriu e estendeu a mão como se dissesse “Vem! Vem, que te salvo!”
Tentei. Desamparado, olhei para os lados.
Ir como, meu anjo? Como?
Ela brandia o braço com mais vigor, “Vem! Vem!”
Meu amor, minha querida ninfa, os insetos não deixam, chorei.
“Vem!” ela repetia. E na mais doce e melíflua voz que jamais ouvi, completou: “Estou disposta a te ajudar. Mas primeiro você tem de...”
Tenho de fazer o que, minha linda? Me diga o que tenho de fazer? Então ela se calou, olhando em volta, receosa.

Vazamento

Com o mais revelador pensamento na ponta da língua
Que enfim expressava
Toda minha revolta
E raiva
E o gosto amargo que me sobe do estômago
Sempre morrendo na garganta
Acordei, alta madrugada
Suado e triunfal
Estava ali, tão acessível
Bastava pegar a caneta e registrar no papel
O pensamento na forma que, sei lá, desde meus oito anos
Traço e refaço, faço e desfaço, ponho e tiro
Odeio e afago
A forma que desde que nasci
Vou escarafunchando com dores pontiagudas na alma
E tateando cego névoa adentro
Alma afora
Estava ali agora
Tão simples
Como não pensara nisso antes?
Que fácil! veio assim no meio do sono
Num bem-acabado bloco
De palavras justas
De versos tesos
De conceitos sólidos
De horizontes limpos
Agora ela veria
Todos veriam
Que por dentro este mané
Sempre meio trôpego
De gestos inseguros
Fala enrolada e taciturno
Abriga um fero vingador de si mesmo
Porta-voz definitivo dos que ocultam outros dentro de outros
Então, peguei a caneta e o papel que sempre deixo no criado-mudo
E na penumbra do quarto pus-me a garatujar na minha letra aflita
Rápido! pensei, rápido antes que desapareça a tão rarefeita esporádica inspiração
E me deixe mais uma vez fuçando a palavra fugidia
Rápido! pensei, antes que venha o tédio
Antes que eu desperte de novo para o mundo vazio

Vê

Vamos e voltamos na balança
 bêbados e cegos
 Meu pai passa o braço, grosso braço de lavrador
 Em torno da minha cintura
 me segurando festeiro e tênue
 e então eu te seguro filho enquanto deslizamos
 cachoeira abaixo.

 A alegria em nossos rostos é franca:
 nos recusamos ao afogamento sob o oceano do
 dinheiro, ante a
 derrota da
 última semana

 Com o movimento nos debatemos
 carnavalescos
 soltos das regras
 da autoridade
 das respostas.

 A balança vai e
 quando retorna, nos separamos
 e cada qual amadurece num sistema autônomo
 de dor

 Vamos nos separando sob a sina da substituição

 Vê?

Amanhã

Amanhã, antes de sair
 (terei coragem?)
 ou assim que chegar
 enquanto me recupero do cansaço no sofá da sala
 tendo na mão direita uma xícara de café
 e o olhar perdido em algum ponto da parede à minha frente
 fazendo o possível para me concentrar em amenidades

 Só me façam perguntas que eu saiba responder
 sobre minhas coisas, meus medos, pensamentos
 segredos e paixões
 e linhas que li em algum livro na infância e que decorei sem saber por quê
 então responderei de boca cheia
 serei, pela primeira vez, eloquente
 como nunca imaginei pudesse ser